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Os Tigres Voadores: o esquadrão mercenário "Yankee" que a China nunca esqueceu (Marcos González Gava)

Por Poder & Dinero

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Setenta anos depois de sua dissolução, as táticas e o linhagem do Grupo de Voluntários Americanos (AVG) continuam vivos na força aérea dos Estados Unidos.

Antes que Washington entrasse oficialmente na Segunda Guerra Mundial, um grupo de mercenários americanos já lutava nos céus da Ásia sob a bandeira chinesa. O Primeiro Grupo de Voluntários Americanos —renomeado pelos chineses como «Tigres Voadores» (飛虎隊) após sua primeira vitória em combate— se tornou uma das anomalias mais curiosas do conflito: pilotos civis, contratados e pagos pelo governo de Chiang Kai-shek, operando aviões com dentes de tubarão pintados em sua parte frontal.

O arsenal do Grupo de Voluntários Americanos (AVG) foi dominado pelo Curtiss P-40B Tomahawk.

Mercenários com passaporte civil

A condição legal do grupo foi, em si mesma, uma peça de engenharia diplomática. Os pilotos provinham do Army, da Navy ou do Marine Corps, mas cada um teve que renunciar ao seu serviço para se integrar como contratado civil da Central Aircraft Manufacturing Company (CAMCO), uma empresa nominalmente chinesa que na verdade operava como fachada para canalizar o recrutamento.

O contrato não mencionava o verdadeiro propósito da contratação nem que a CAMCO atuava como agente do governo chinês; durante seu serviço, nenhum deles era membro das forças armadas americanas ou chinesas, e não estavam sujeitos à disciplina nem à jurisdição de conselhos de guerra desses exércitos. O esquema permitia a Washington manter oficialmente sua neutralidade —os EUA ainda não haviam entrado em guerra— enquanto seus pilotos lutavam da mesma forma, agora sem uniforme nem posto ativo.

Quando o Exército e a Marinha se recusaram a liberar pilotos para servir na China, a gestão chegou até os secretários de Guerra e da Marinha, que finalmente autorizaram a CAMCO a recrutar diretamente em bases militares americanas.

Como funcionava e quem se destacou

Os pilotos dos Tigres Voadores recebiam um generoso salário base mensal do governo chinês de entre 600 e 750 dólares (segundo seu posto como chefes de patrulha ou de voo), mas o verdadeiro incentivo era um bônus de 500 dólares por cada avião japonês destruído (equivalente a quase 11.000 dólares atuais), uma fortuna que motivou enormemente ases de combate lendários como Robert Neale (o máximo anotador do grupo com 13 vitórias confirmadas), David Lee «Tex» Hill e Charles Older, que lideraram os três esquadrões do AVG (Adam & Eves, Panda Bears e Hell’s Angels).

O grupo original foi integrado por um total de 311 membros oficiais contratados ao longo de seu ano de existência (1941-1942). Esta força encoberta era composta por 100 pilotos recrutados em segredo das diversas ramificações das Forças Armadas dos EUA (60 da Marinha e do Corpo de Fuzileiros Navais, e 40 do Corpo Aéreo do Exército) junto a cerca de 200 membros do pessoal de terra dedicados à engenharia, armamento, administração e serviços médicos, uma equipe que também incluiu duas mulheres americanas e um grupo seleto de onze especialistas de origem sino-americana.

Os aviões utilizados

O arsenal do AVG foi dominado pelo Curtiss P-40B Tomahawk, complementado no final da campanha pela versão melhorada P-40E Kittyhawk, um caça robusto e fortemente armado que se tornou o emblema dos Tigres Voadores.

Além desse mítico caça de combate, o grupo operou um número muito reduzido de interceptores Curtiss CW-21 Demon que sofreram falhas precoces, utilizou aeronaves Republic P-43 Lancer para missões de reconhecimento fotográfico em grande altitude, e dependia de bimotores de transporte como o Douglas C-47 Skytrain para o transporte logístico de mecânicos, peças de reposição e suprimentos vitais entre suas bases em Birmânia e China.

Antes que Washington entrasse oficialmente na Segunda Guerra Mundial, um grupo de mercenários americanos já lutava nos céus da Ásia sob a bandeira chinesa.

Um batismo de fogo com relógio contra

No dia 20 de dezembro de 1941, apenas doze dias depois de Pearl Harbor, dez bombardeiros japoneses se dirigiram a Kunming sem escolta de caça, como tinham feito durante um ano sem oposição real. Desta vez, quatro P-40 Tomahawk os esperavam. Os pilotos derrubaram quatro bombardeiros sem perder nenhum avião próprio, enquanto os sobreviventes lançavam suas bombas e retornavam a Hanói. Foi a primeira missão de combate do grupo e selou seu apelido para a posteridade.

A defesa de Rangum, entre dezembro de 1941 e março de 1942, testou o grupo em condições muito mais adversas: defender o porto de entrada para a Estrada de Birmânia, a artéria que mantinha vivo o esforço bélico chinês, frente a ondas japonesas muito superiores em número. Birmânia caiu igualmente, mas a resistência aérea retardou o avanço e permitiu uma evacuação aliada ordenada.

A doutrina por trás do mito

O verdadeiro artífice desses resultados foi Claire Lee Chennault, um militar aposentado do Army Air Corps que a China havia contratado em 1937 como conselheiro, nada menos que por por Soong May-ling (também conhecida como Madame Chiang Kai-shek), a esposa do líder nacionalista chinês Chiang Kai-shek, que liderava o Comitê de Aviação do Governo Nacionalista.

O americano foi responsável por avaliar, reorganizar e treinar a incipiente Força Aérea da República da China frente à iminente agressão japonesa. Chennault havia escrito em 1933 «O papel da perseguição defensiva», um manual que o tornaria referência para as táticas de caça de toda a guerra.

Claire Lee Chennault.

Seu aporte central foi reconhecer que o P-40 não poderia ganhar um combate fechado contra os caças japoneses, muito mais manobráveis, assim proibiu o «dogfight» tradicional. Em um combate tradicional fechado, o Mitsubishi A6M Zero era tecnicamente muito superior ao Curtiss P-40: o avião japonês era muito mais leve, manobrável, acelerava rápido e subia a grande altitude com extrema facilidade.

Ordenou, por isso, voar em duplas e evitar o duelo individual contra os Zero e os bombardeiros torpedeiros «Kate» ou Nakajima B5N. Seus pilotos aprenderam a atacar em mergulho de cima (dive-and-zoom) e depois se afastar para se reposicionar em uma nova passagem, em vez de se enredar em giros com o inimigo.

Os americanos aproveitavam o blindagem, o peso e a grande velocidade de queda do P-40 para se lançar de maior altura sobre o inimigo, disparar rajadas devastadoras em uma única passagem e se afastar imediatamente aproveitando o impulso. Esses ataques eram sempre realizados em equipes coordenadas de dois aviões (líder e ponto), o que garantia proteção mútua e destruía a formação japonesa sem dar-lhes a oportunidade de contra-atacar.

A essa tática se somou uma inovação silenciosa mas decisiva: uma rede de observadores em terra que transmitia em tempo real a posição dos aviões japoneses que se aproximavam, dando ao grupo um alerta antecipado que compensava sua inferioridade numérica.

Esse princípio —vigilância distribuída mais velocidade de reação— antecipa, em uma versão rudimentar, a lógica dos sistemas de comando e controle aéreo atuais.

Os números de uma lenda 

Entre dezembro de 1941 e julho de 1942, o AVG reclamou a destruição de 296 aviões japoneses na China e Birmânia, embora os números exatos tenham sido revisados por historiadores nas últimas décadas.

As estimativas mais citadas falam de cerca de 300 aviões japoneses destruídos, frente à perda de apenas 69 aeronaves próprias (e apenas 14  pilotos caídos em combate) um balanço que —exato ou não— alimentou o mito quase imediatamente.

De Chennault ao A-10: um linhagem que continua voando

No dia 4 de julho de 1942, o grupo se dissolveu e foi absorvido pelas forças aéreas do exército americano como o 23rd Fighter Group.

Mas essa linhagem não ficou nos livros de história: hoje é a 23rd Wing, com base em Moody, Georgia, a unidade que mantém a tradição de pintar dentes de tubarão em seus aviões, agora aplicados aos A-10 Thunderbolt II. São, segundo seus próprios mecânicos, os únicos em toda a força aérea americana autorizados a aplicar esse design em seus aviões.

O gesto não é apenas estético. Em abril deste ano, a unidade apresentou um A-10 inteiramente repintado com a librea histórica do AVG como homenagem a David Lee «Tex» Hill, um dos ases do esquadrão original. O suboficial encarregado do controle de corrosão da unidade assinalou que ver o avião moderno ao lado do P-40 histórico no parque aéreo da base permite conectar imediatamente ambas as épocas.

Oitenta anos depois de sua primeira missão de combate, os Tigres Voadores continuam sendo, para a China, sinônimo de uma cooperação militar excepcional em sua história com Washington; e para a força aérea americana, uma doutrina e uma estética que decidiu não deixar morrer.

Marcos González Gava é Co Fundador do Reporte Asia, especialista em negócios financeiros e comerciais, e assuntos culturais da República Popular da China

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