Há cerca de 2 horas - politica-e-sociedade

"O gás que pode mudar a África: a CEDEAO transforma o corredor Nigéria-Marrocos em uma aposta estratégica continental (Adalberto Agozino)"

Por Poder & Dinero

Portada

Durante décadas, a integração econômica africana tem encontrado um obstáculo recorrente: a insuficiência de infraestruturas capazes de conectar os mercados nacionais e transformar os abundantes recursos naturais do continente em uma verdadeira vantagem competitiva. As enormes reservas de gás da Nigéria, os déficits energéticos de vários países da África Ocidental e a crescente demanda europeia por suprimentos alternativos pareciam formar uma equação evidente. No entanto, converter essa oportunidade em uma realidade política exigia algo mais do que engenharia e financiamento. Requeria uma arquitetura diplomática capaz de conciliar os interesses de treze Estados costeiros, vários países sem litoral, organismos regionais, entidades financeiras internacionais e empresas energéticas nacionais.

Esse complexo processo alcançou um ponto de inflexão durante a 69ª cúpula da CEDEAO realizada em Freetown, Serra Leoa. Lá, os chefes de Estado e de Governo assinaram o Acordo Intergovernamental que regula o desenvolvimento do Gasoduto Africano Atlântico Nigéria-Marrocos, conferindo ao projeto uma legitimidade institucional que transcende em muito a dimensão técnica que havia caracterizado suas fases iniciais.

Do ponto de vista estritamente jurídico, a assinatura estabelece o marco legal comum para o desenvolvimento da infraestrutura. Do ponto de vista político, no entanto, significa algo muito mais profundo. A iniciativa deixa de ser um empreendimento promovido exclusivamente por Marrocos e Nigéria para se tornar um projeto assumido coletivamente pela principal organização de integração econômica da África Ocidental. Essa mudança modifica substancialmente a percepção internacional da obra e fortalece consideravelmente sua credibilidade diante de potenciais financiadores e investidores.

O gasoduto projetado percorrerá aproximadamente 6.800 quilômetros seguindo a costa atlântica africana desde os depósitos de gás do delta do Níger até Marrocos, atravessando treze países antes de se conectar ao Gasoduto Magreb-Europa e, a partir daí, com a rede continental europeia. A infraestrutura terá capacidade para transportar cerca de 30.000 milhões de metros cúbicos de gás natural anualmente. Segundo as previsões atuais, aproximadamente a metade desse volume poderá suprir tanto o mercado marroquino quanto o europeu, enquanto o restante será destinado ao crescente consumo interno da África Ocidental.

Para além das suas dimensões físicas, o projeto constitui uma intervenção estrutural sobre a  economia regional. O objetivo declarado consiste em criar um verdadeiro mercado integrado de gás natural que facilite a produção de eletricidade, estimule a instalação de indústrias intensivas em energia e permita aproveitar com maior eficiência os recursos naturais africanos. Em outras palavras, o gasoduto pretende se tornar um catalisador do processo de industrialização que muitos governos africanos consideram imprescindível para reduzir a dependência da exportação de matérias-primas sem transformação.

Economia

Os países diretamente atravessados pela rota —Nigéria, Benin, Togo, Gana, Costa do Marfim, Libéria, Serra Leoa, Guiné, Guiné-Bissau, Gâmbia, Senegal, Mauritânia e Marrocos— serão os principais beneficiários imediatos. No entanto, o design do projeto incorpora desde seu início uma dimensão regional muito mais ampla. Por meio de futuras interconexões, também poderão acessar ao suprimento os Estados do Sahel que carecem de saída ao mar, ampliando consideravelmente o impacto  econômico da infraestrutura sobre o conjunto da África Ocidental.

Precisamente essa vocação integradora explica o apoio praticamente unânime recebido durante a reunião de Freetown. O presidente liberiano Joseph Boakai definiu a iniciativa como “um avanço histórico e transcendental” que demonstra a capacidade das nações africanas de priorizar a cooperação em vez da fragmentação política. Suas palavras refletem uma percepção amplamente compartilhada entre numerosos líderes africanos: o verdadeiro valor do projeto reside tanto na infraestrutura física quanto no modelo de cooperação regional que representa.

Uma avaliação similar expressou Omar Alieu Touray, presidente da Comissão da CEDEAO, ao descrever o Gasoduto Africano Atlântico como uma das iniciativas mais transformadoras empreendidas pela organização desde sua criação. Em sua opinião, a infraestrutura contribuirá decisivamente para reforçar a segurança energética, aumentar a competitividade empresarial e consolidar um futuro econômico compartilhado para uma população superior a 440 milhões de habitantes.

O consenso alcançado durante a cúpula não deve ser interpretado apenas como um apoio simbólico. Em termos práticos, a adesão da CEDEAO abre a porta para a próxima fase do projeto: a constituição da sociedade responsável pela construção e exploração do gasoduto, cuja sede estará localizada em Casablanca, assim como a criação de uma Autoridade Superior do Gasoduto, que será estabelecida em Abuja e assumirá a governança regional da infraestrutura. Ambos os organismos constituirão o núcleo institucional encarregado de coordenar os futuros investimentos, supervisionar o desenvolvimento técnico e preparar a Decisão Final de Investimento que permitirá iniciar a execução da obra.

Igualmente relevante é o fato de que os principais estudos de engenharia, impacto ambiental e viabilidade técnica já tenham sido concluídos. Essa circunstância reduz consideravelmente a incerteza associada aos grandes projetos de infraestrutura e coloca a iniciativa em condições de avançar para sua fase operacional uma vez que os procedimentos institucionais previstos pelos Estados participantes forem concluídos.

No entanto, o aspecto mais significativo do acordo alcançado em Freetown provavelmente reside em sua dimensão geopolítica. Durante anos, numerosos projetos de integração africana foram limitados pela ausência de mecanismos eficazes de coordenação  política entre os diferentes governos nacionais. Desta vez, a CEDEAO optou por transformar o gasoduto em uma verdadeira política regional, conferindo-lhe uma legitimidade que transcende os ciclos políticos nacionais e fortalece sua estabilidade a longo prazo.

Política

Os analistas especializados concordam que essa mudança institucional constitui um dos principais ativos do projeto. A assinatura do acordo pelos próprios chefes de Estado —e não apenas por ministros setoriais ou responsáveis técnicos— implica um grau de compromisso político muito mais elevado. Em termos diplomáticos, significa que a infraestrutura passa a fazer parte da agenda estratégica de integração da África Ocidental e deixa de depender exclusivamente da vontade de dois governos promotores.

Um dos aspectos mais notáveis da evolução do Gasoduto Africano Atlântico reside na forma como Marrocos conseguiu transformar uma proposta bilateral em um projeto assumido pela principal organização de integração regional da África Ocidental. Quando o rei Mohammed VI e o então presidente nigeriano Muhammadu Buhari impulsionaram a iniciativa durante a visita do monarca marroquino a Abuja em 2016, poucos analistas imaginavam que uma década depois o projeto seria respaldado institucionalmente por toda a CEDEAO.

Essa evolução não foi fruto de uma única negociação, mas de uma estratégia diplomática sustentada ao longo do tempo. Desde os primeiros acordos de cooperação entre a Oficina Nacional de Hidrocarbonetos e Minas de Marrocos (ONHYM) e a Nigerian National Petroleum Company (NNPC), Rabat apostou em apresentar o gasoduto não como uma infraestrutura destinada exclusivamente a exportar gás para a Europa, mas como um instrumento para acelerar a industrialização africana e fortalecer a integração regional. Essa narrativa permitiu incorporar progressivamente outros governos da África Ocidental, que passaram a perceber o projeto como uma oportunidade para resolver déficits estruturais de acesso à energia e atrair investimentos industriais.

A continuidade política do projeto constitui outro dos elementos que explicam sua consolidação. Após o falecimento do ex-presidente Buhari, o novo mandatário nigeriano, Bola Ahmed Tinubu, decidiu manter o apoio de Abuja à iniciativa, garantindo que um dos principais produtores de gás do continente continuasse comprometido com uma obra concebida para modificar a geografia energética africana. Essa continuidade reduziu consideravelmente a incerteza política que geralmente acompanha os grandes projetos transnacionais de infraestrutura.

A diplomacia marroquina também tem procurado inserir o gasoduto dentro de uma visão mais ampla de cooperação continental. A iniciativa foi vinculada a outros projetos promovidos por Rabat para reforçar a conectividade atlântica africana, entre eles a chamada Iniciativa Atlântica destinada a facilitar o acesso ao oceano de vários países do Sahel por meio de infraestruturas logísticas marroquinas. Sob essa perspectiva, o gasoduto deixa de ser apenas um conduto para transportar hidrocarbonetos e passa a se integrar em uma estratégia orientada a fortalecer as cadeias regionais de suprimento, o comércio e a industrialização.

Relaçõesinternacionais

A própria diretora geral da ONHYM, Amina Benkhadra, tem defendido reiteradamente essa interpretação. A seu ver, a infraestrutura “encarna a ambição compartilhada da África de construir um continente mais integrado, industrializado e próspero”, ao mesmo tempo que contribuirá para melhorar a segurança energética, criar oportunidades econômicas e favorecer um crescimento sustentável. Seu posicionamento reflete uma visão amplamente compartilhada por numerosos responsáveis africanos, que consideram o acesso estável à energia como uma condição indispensável para reduzir a dependência das exportações de matérias-primas e avançar em direção a economias com maior valor agregado.

O apoio  político recebido em Freetown ilustra essa convergência de interesses. O presidente de Libéria, Joseph Boakai, qualificou o projeto como um “investimento transformador” para o futuro coletivo da África Ocidental, enquanto o ministro das Relações Exteriores de Gana, Samuel Okudzeto Ablakwa, afirmou que nenhuma estratégia de industrialização pode prosperar sem investimentos massivos em infraestruturas energéticas. Em termos semelhantes se pronunciaram representantes de Serra Leoa, Gâmbia e a própria Comissão da CEDEAO, que coincidiu em apresentar o gasoduto como um instrumento para fortalecer a coesão regional e melhorar a competitividade das economias africanas.

No entanto, o alcance do projeto transcende a esfera africana. Para a Europa, imersa há vários anos em um processo de diversificação de suas fontes de abastecimento energético, a futura conexão do gasoduto com o sistema Magreb-Europa poderia abrir uma nova via de suprimento proveniente da África Subsaariana. Embora os primeiros fluxos comerciais ainda levem vários anos para se materializar, a infraestrutura aumenta as opções estratégicas do mercado europeu e reforça a posição de Marrocos como um nó energético entre os dois continentes.

O projeto também apresenta uma importante dimensão financeira. Seu custo estimado gira em torno de 25 bilhões de dólares e exigirá uma complexa combinação de recursos públicos, capital privado e instituições multilaterais. A Nigéria comprometeu uma participação significativa por meio da NNPC, enquanto diversas entidades internacionais, entre elas o Banco Islâmico de Desenvolvimento, o Fundo OPEP para o Desenvolvimento Internacional, o Banco Europeu de Investimentos e financiadores do Golfo, participaram de diferentes fases dos estudos preliminares ou manifestaram interesse no financiamento futuro. Essa diversidade de atores reduz o risco de dependência em relação a um único financiador e dota o projeto de uma base econômica potencialmente mais sólida.

Apesar do otimismo demonstrado durante a cúpula de Freetown, numerosos especialistas lembram que o verdadeiro desafio começa agora. A construção de quase sete mil quilômetros de infraestrutura através de múltiplas jurisdições exigirá uma coordenação  política sem precedentes, elevados padrões de segurança e uma mobilização financeira sustentada durante vários anos. As zonas marítimas do golfo da Guiné, afetadas periodicamente por fenômenos de pirataria e criminalidade organizada, apresentam ainda desafios adicionais para a futura proteção do gasoduto. A isso se soma a necessidade de manter a coesão política entre os Estados participantes durante um processo de execução que previsivelmente se prolongará por mais de uma década.

Política

Os observadores também sublinham que o sucesso definitivo dependerá menos das declarações  políticas que da capacidade para materializar os compromissos adquiridos. A criação efetiva da sociedade gestora em Casablanca, o estabelecimento da Autoridade Superior do Gasoduto em Abuja, a captação de investimentos e a adoção da Decisão Final de Investimento constituirão os verdadeiros indicadores do avanço do projeto durante os próximos anos.

De uma perspectiva geopolítica, a adesão da CEDEAO representa também uma vitória diplomática para Marrocos. Sem fazer parte da organização regional, Rabat conseguiu se situar no centro de um dos maiores projetos de integração econômica impulsionados pela África Ocidental. Esse resultado confirma a capacidade da diplomacia marroquina para desenvolver alianças setoriais com os países da região por meio de instrumentos econômicos e energéticos, mesmo à margem de seu pedido de adesão à própria CEDEAO, que ainda está pendente.

Em última instância, o Gasoduto Africano Atlântico simboliza uma transformação mais profunda do que a simples construção de uma infraestrutura energética. A decisão adotada em Freetown evidencia que uma parte crescente da África Ocidental aspira a converter a integração econômica em um mecanismo de desenvolvimento estrutural, sustentado em grandes projetos regionais capazes de superar as limitações dos mercados nacionais. Se essa ambição conseguir se traduzir em obras concretas, o gasoduto poderá se tornar um dos principais marcos da cooperação africana do século XXI. Se, por outro lado, as dificuldades financeiras, técnicas ou políticas atrasarem sua execução, a iniciativa correrá o risco de engrossar a longa lista de megaprojéteis concebidos para transformar o continente que nunca chegaram a se materializar plenamente. Por enquanto, a assinatura do Acordo Intergovernamental pelos Estados membros da CEDEAO constitui, ao menos, o passo institucional mais sólido dado até a data para aproximar essa ambição da realidade.

Adalberto Agozino é Doutor em Ciência Política, Analista Internacional e Professor da Universidade de Buenos Aires.

Deseja validar este artigo?

Ao validar, você está certificando que a informação publicada está correta, nos ajudando a combater a desinformação.

Validado por 0 usuários
Poder & Dinero

Poder & Dinero

Somos um conjunto de profissionais de diferentes áreas, apaixonados por aprender e compreender o que acontece no mundo e suas consequências, para podermos transmitir conhecimento.
Sergio Berensztein, Fabián Calle, Pedro von Eyken, José Daniel Salinardi, William Acosta, junto a um destacado grupo de jornalistas e analistas da América Latina, Estados Unidos e Europa.

TwitterLinkedinYoutubeInstagram

Visualizações: 0

Comentários

Podemos te ajudar?