Desde Washington, a possibilidade de uma intervenção militar no Irã não se explica unicamente pelo programa nuclear do regime islâmico nem pelo seu antagonismo histórico com Israel. Por trás da crescente tensão subjaz uma equação muito mais ampla: a disputa pela hegemonia global com a China, a arquitetura de segurança do Oriente Médio, o controle de rotas energéticas críticas e a necessidade americana de impedir a consolidação de polos de poder hostis capazes de desafiar a ordem internacional surgida após a Guerra Fria.
Há um ano, ao retornar à Casa Branca, o presidente Donald Trump avisou que os Estados Unidos começavam a mostrar sinais evidentes de desgaste em sua competição pela primazia global frente à China. Não se tratava apenas de indicadores econômicos ou comerciais, mas de uma percepção estratégica mais profunda: o avanço sustentado de Pequim sobre áreas tradicionalmente consideradas parte do perímetro de influência americana.
O gigante asiático construiu sua projeção internacional sobre uma combinação de expansão econômica, asseguramento de matérias-primas estratégicas e penetração financeira em mercados emergentes. A América Latina, a África e, em menor medida, a União Europeia se tornaram cenários privilegiados dessa ofensiva silenciosa. Através de investimentos em infraestrutura, créditos suaves e acordos energéticos, a China foi consolidando uma rede de dependências que inquietou crescentemente Washington.
No entanto, Pequim nunca concebeu sua expansão como um fenômeno exclusivamente econômico. Como advertiu há mais de um século o almirante americano Alfred Thayer Mahan, “as fábricas e as frotas comerciais só prosperam quando estão respaldadas pelo poder naval”. A China parece ter assumido essa máxima ao pé da letra: enquanto estendia suas rotas comerciais, desenvolvia de forma acelerada sua capacidade militar, especialmente sua frota oceânica, e tecia alianças estratégicas com regimes dispostos a questionar a ordem liderada pelos Estados Unidos.
No plano militar, essa arquitetura se apoiou fundamentalmente na Rússia de Vladimir Putin, mas também no Irã, na Coreia do Norte e em uma constelação de governos hostis a Washington na América Latina, como Cuba, Venezuela e Nicarágua. No terreno econômico, a China impulsionou o bloco dos BRICS como plataforma alternativa ao sistema financeiro dominado pelo dólar, incorporando países de peso regional como Índia, Brasil e África do Sul, junto a aliados mais alinhados com Pequim. Durante o governo de Alberto Fernández, a Argentina flertou com essa órbita, tornando-se também o único país sul-americano que abriga uma base espacial chinesa em seu território.
Convencido de que uma confrontação direta com a China seria custosa e incerta, Trump optou por uma estratégia indireta: enfraquecer sua rede de alianças. Em uma primeira etapa, apontou para reduzir a presença comercial chinesa na América do Sul e a diminuir a dependência americana das terras raras provenientes do gigante asiático, consideradas insumos críticos para a indústria tecnológica e militar. Para isso, não hesitou em recorrer a todo o instrumental das guerras híbridas, combinando pressão diplomática, tarifas seletivas e demonstrações de força.
Washington forçou o Panamá a revisar os acordos que permitiam que empresas chinesas operassem infraestruturas vinculadas ao canal interoceânico, apoiou decididamente o presidente argentino Javier Milei — em um país chave por suas reservas de lítio e minerais estratégicos — e endureceu sua política em relação à Venezuela e Cuba, dois aliados históricos de Pequim no hemisfério ocidental. Como resumiu na época o ex-secretário de Estado Mike Pompeo, “não se pode permitir que a China controle os recursos e as rotas que sustentam a economia global”.
Esse ativismo regional não impediu Trump de projetar poder em outros cenários. Ele pressionou seus parceiros da OTAN para elevar o gasto em defesa até 5% do PIB, uma exigência que, segundo ele mesmo declarou, buscava “corrigir décadas de desequilíbrios”. Autorizou ataques seletivos contra instalações iranianas, impulsionou um plano de paz para Gaza, apoiou o novo equilíbrio de poder na Síria — que reduziu drasticamente a presença militar russa em Tartus e Jmeimim — e desempenhou um papel relevante nas negociações entre Moscou e Kiev. A isso se somou uma venda de armamento sem precedentes a Taiwan, desafiando abertamente os avisos de Pequim.
O padrão é claro: por trás de muitas das manobras internacionais da Administração Trump subjaz um denominador comum, a erosão sistemática da influência chinesa. Em vez de um choque frontal entre superpotências, Washington optou por enfraquecer os elos mais frágeis da rede tecida por Pequim, ao mesmo tempo que tentava atrair a Rússia para uma posição mais ambígua em relação ao Ocidente.
Nesse contexto deve ser lida a crescente confrontação entre os Estados Unidos e o Irã. Mas reduzi-la à lógica da rivalidade com a China seria insuficiente. Existem fatores regionais e estratégicos próprios que tornam Teerã um alvo central da política externa americana.
O Irã chiita é, há décadas, um ator profundamente desestabilizador no Oriente Médio e o inimigo declarado do Estado de Israel, principal aliado de Washington na região. Durante mais de vinte anos, Teerã construiu uma rede de milícias e organizações armadas destinadas a cercar Israel através do que seus próprios estrategas denominaram um “círculo de fogo”: Hezbollah no Líbano, Hamás em Gaza, milícias xiitas no Iraque, os houthis no Iémen e forças da Guarda Revolucionária desplegadas na Síria. Esse corredor estratégico, que conectava o Irã ao Mediterrâneo, começou a se esfacelar em 2024, após a derrota do Hezbollah, a queda do regime de Bashar al-Assad e os bombardeios israelenses que danificaram severamente os sistemas de defesa iranianos.
A isso se soma o programa nuclear iraniano, considerado por Israel como uma ameaça existencial. O acordo internacional para supervisionar as atividades nucleares de Teerã ficou virtualmente desativado e, em 2024, o então secretário de Estado Antony Blinken advertiu que o Irã poderia produzir material físsil suficiente para uma arma nuclear em questão de semanas. “A situação atual não é positiva”, afirmou então. Para Jerusalém, o risco não reside apenas em uma eventual bomba iraniana, mas no efeito dominó que desencadearia na região: Arábia Saudita, Egito e Turquia poderiam ser empurrados a desenvolver seus próprios arsenais nucleares.
A possibilidade de um ataque israelense contra as instalações nucleares iranianas tem sido uma constante, embora limitada por fatores operacionais e pelo temor a uma represália maior: o fechamento do estreito de Ormuz, por onde transita cerca de 20% do petróleo mundial. Um bloqueio prolongado desse estreito teria consequências devastadoras para a economia global, um cenário que Washington observa com extrema preocupação.
O Irã, além disso, desenvolveu uma indústria militar capaz de produzir mísseis balísticos e drones sofisticados, alguns dos quais demonstraram sua eficácia no conflito da Ucrânia a serviço da Rússia. Como advertiu o ex-assessor de Segurança Nacional John Bolton, “permitir que o Irã consolide essa capacidade é aceitar um foco permanente de instabilidade”.
A tudo isso se soma um fator decisivo: o petróleo. Com mais de 208.000 milhões de barris de reservas provadas, o Irã é o terceiro país com maiores reservas do mundo. Embora as sanções tenham limitado sua capacidade exportadora, a China se tornou seu principal cliente, absorvendo grande parte do petróleo iraniano, muitas vezes por meio de mecanismos opacos destinados a eludir as restrições internacionais. Controlar — direta ou indiretamente — os fluxos energéticos do Irã e da Venezuela daria aos Estados Unidos uma vantagem estratégica formidável em seu embate com Pequim.
Conclusão:
A eventual intervenção militar americana no Irã não pode ser entendida como uma reação impulsiva nem como um episódio isolado. É o resultado de uma acumulação de interesses estratégicos: frear a expansão chinesa, garantir a segurança de Israel, evitar uma proliferação nuclear descontrolada e preservar o controle sobre os principais corredores energéticos do planeta. Nessa interseção de poder, petróleo e geopolítica, Teerã aparece para Washington não apenas como um adversário regional, mas como uma peça chave de um tabuleiro global onde os Estados Unidos se resistem a ceder seu lugar central.
Adalberto Agozino é Doutor em Ciência Política, Analista de Política Internacional e Geopolítica e Docente da Universidade de Buenos Aires, com destacada atuação de campo na Argentina e no Exterior.

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