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"A guerra invisível na Ásia Central: Paquistão e Afeganistão, à beira de uma espiral incontrolável (Adalberto Agozino)"

Por Poder & Dinero

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A atual crise entre Islamabad e Cabul está longe de ser uma explosão súbita. Pelo contrário, constitui a culminação de uma relação historicamente ambígua, marcada pela instrumentalização mútua, desconfiança estrutural e uma geografia que favoreceu tanto a infiltração quanto o conflito. Durante décadas, o Paquistão concebeu os talibãs como um instrumento de profundidade estratégica frente à Índia. No entanto, esse cálculo geopolítico acabou voltando-se contra eles: o atual poder talibã se apresenta como um ator autônomo, ideologicamente inflexível e cada vez menos disposto a se submeter às pressões de quem foi seu principal apoio.

Nos últimos meses, a tensão alcançou níveis alarmantes. A aviação paquistanesa realizou bombardeios em território afegão —incluindo áreas próximas a Cabul e províncias orientais como Paktika e Nangarhar— sob a justificativa de neutralizar bases do Tehreek-e-Taliban Pakistan (TTP). De Cabul, as autoridades denunciaram essas incursões como atos de agressão direta, sublinhando que causaram vítimas civis, entre elas mulheres e crianças, além de gerar novos deslocamentos populacionais.

O porta-voz do Ministério da Defesa afegão, em declarações divulgadas por meios regionais, acusou Islamabad de “violar a soberania nacional e atacar indiscriminadamente a população”. Em resposta, o Ministério das Relações Exteriores paquistanês insistiu no direito à legítima defesa frente a grupos insurgentes que —segundo afirma— operam com impunidade a partir do território afegão. Em uma aparição perante o Parlamento, o então primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif, afirmou com contundência que “o Paquistão não permitirá que seu território seja desestabilizado por organizações terroristas que encontraram refúgio do outro lado da fronteira”.

O cerne da disputa continua sendo a linha Durand, uma fronteira de mais de 2.600 quilômetros traçada em 1893 pelo Império Britânico. Para o Paquistão, herdeiro dessa delimitação, trata-se de uma fronteira internacional legítima e inalterável. Para o Afeganistão, por outro lado, constitui uma imposição colonial que fragmenta artificialmente a etnia pastun, assentada dos dois lados da divisória. Essa fratura territorial alimentou, durante décadas, tensões persistentes, insurgências e fluxos transfronteiriços difíceis de controlar. Com o retorno dos talibãs ao poder em Cabul em 2021, após a retirada dos Estados Unidos, a questão adquiriu uma dimensão ainda mais crítica: não se trata mais apenas de uma disputa histórica, mas de um problema imediato de segurança para Islamabad.

O movimento talibã, surgido em 1994 no sul do Afeganistão, é fruto de uma complexa combinação de fatores: o vácuo de poder após a guerra contra a União Soviética, o apoio logístico do Paquistão e a influência ideológica de escolas religiosas islâmicas de orientação deobandí. Seu projeto político se articula em torno da instauração de um emirado islâmico regido por uma interpretação estrita da sharia. Durante seu primeiro governo, entre 1996 e 2001, impuseram um sistema profundamente restritivo —especialmente para as mulheres— e ofereceram abrigo a organizações como a Al Qaeda, o que desencadeou a intervenção militar americana após os atentados de 11 de setembro. Duas décadas depois, retornaram ao poder combinando pragmatismo tático com uma notável rigidez doutrinária.

Atualmente, seu desafio não se limita a governar um país devastado, mas também a gerir suas relações exteriores sem renunciar à sua identidade ideológica. É precisamente nesse delicado equilíbrio que se inscreve sua complexa relação com o Paquistão.

O elemento mais explosivo do conflito é a presença do Tehreek-e-Taliban Pakistan, uma organização insurgente que compartilha raízes ideológicas com os talibãs afegãos, mas cujo objetivo é derrubar o Estado paquistanês. Islamabad acusa Cabul de tolerar —quando não apoiar— a atividade do TTP em seu território. As autoridades talibãs rejeitam essas acusações, embora persistam as dúvidas sobre sua capacidade real ou vontade política de controlar esse grupo. Enquanto alguns analistas apontam para uma afinidade ideológica que dificulta uma ruptura clara, outros sustentam que o problema reside na falta de controle efetivo sobre regiões periféricas.

Do ponto de vista militar convencional, a superioridade do Paquistão é indiscutível. Seu exército, considerado um dos mais profissionalizados do mundo islâmico, dispõe de armamento moderno, aviação avançada e um arsenal nuclear que o coloca em uma categoria estratégica muito superior. O Afeganistão, por outro lado, depende de estruturas militares informais, armamento leve e recursos limitados. No entanto, a experiência histórica demonstra que a superioridade tecnológica não garante o controle do território afegão. Nem a União Soviética nem os Estados Unidos conseguiram se impor de maneira duradoura. Os talibãs, especialistas em guerrilha, souberam transformar sua fraqueza estrutural em uma vantagem tática.

O conflito não se desenvolve em um vácuo geopolítico. Pelo contrário, gera uma profunda inquietação entre as potências regionais, que percebem nessa inestabilidade tanto ameaças quanto oportunidades. A China observa com crescente preocupação a evolução da crise. Para Pequim, a fricção entre Islamabad e Cabul representa um fator de risco estratégico, especialmente no que diz respeito a seus investimentos no Paquistão através do Corredor Econômico China-Paquistão. Uma eventual desestabilização interna poderia comprometer infraestruturas críticas. Além disso, a China teme que um Afeganistão sem controle efetivo se torne um refúgio para grupos militantes que operam em Xinjiang. Nesse contexto, busca que os talibãs cumpram sua promessa de não exportar o terrorismo, adotando um papel de mediador discreto, mas constante.

A Índia, por outro lado, contempla a situação sob uma lógica distinta. A rivalidade histórica com o Paquistão torna qualquer enfraquecimento do controle estatal paquistanês uma oportunidade estratégica. O fato de que o antigo aliado de Islamabad —os talibãs— tenha se transformado em uma fonte de instabilidade é interpretado em Nova Délhi como um erro de cálculo do aparelho militar paquistanês. Em consequência, a Índia iniciou uma aproximação cautelosa em relação ao regime talibã, combinando ajuda humanitária com uma presença técnica em sua embaixada. Essa implantação de poder brando busca contrabalançar a influência paquistanesa e evitar que o Afeganistão seja utilizado como base para ações hostis contra o território indiano.

O custo humano do conflito é difícil de quantificar com precisão, mas os relatórios coincidem em apontar que a violência já deixou centenas de mortos. Além das baixas militares, há vítimas civis, deslocamentos forçados e destruição de infraestruturas. Os bombardeios em áreas fronteiriças afetaram especialmente comunidades vulneráveis, agravando uma crise humanitária já severa. O Alto Comissário das Nações Unidas para Refugiados advertiu sobre o risco de novos fluxos de deslocados em uma região que já abriga milhões de refugiados afegãos.

A paradoxal mais inquietante deste conflito é sua relativa invisibilidade. Enquanto outras guerras acaparam a atenção internacional, a escalada entre Paquistão e Afeganistão avança sem quase escrutínio midiático nem pressão diplomática significativa. Essa ausência de foco não apenas dificulta os esforços de desescalada, mas aumenta o risco de erros de cálculo. Em uma região onde convergem interesses de potências nucleares e atores não estatais, qualquer incidente pode desencadear consequências desproporcionais.

Tudo aponta que o conflito caminha para uma fase prolongada de confrontação indireta. O Paquistão continuará com ataques seletivos contra alvos insurgentes, enquanto os talibãs, seja de forma direta ou através de grupos afins, manterão a pressão. O maior perigo não reside em uma guerra convencional em grande escala, mas em uma erosão progressiva da estabilidade regional.

Nesse cenário, a fronteira entre Paquistão e Afeganistão corre o risco de se consolidar como um dos pontos mais perigosos do mapa global: um conflito persistente, de baixa visibilidade, mas de alto impacto. Em um mundo saturado de crises, esta guerra esquecida entre dois países muçulmanos poderia, a qualquer momento, deixar de ser.

Adalberto Agozino é Doutor em Ciência Política, Analista Internacional e Docente da Universidade de Buenos Aires

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