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A fratura latino-americana (Adalberto Agozino)

Por Poder & Dinero

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Durante grande parte do século XXI, a América Latina foi apresentada como um laboratório político onde coexistiam experiências ideológicas diversas, desde os governos progressistas agrupados em torno à chamada “onda rosa” até administrações liberais e conservadoras que buscavam fortalecer as economias de mercado. No entanto, por trás das diferenças programáticas existia um elemento comum: a persistente incapacidade dos sistemas políticos para responder de maneira eficaz às demandas cidadãs em matéria de segurança, crescimento econômico, emprego e qualidade institucional.

Essa frustração acumulada acabou por abrir uma brecha profunda entre os cidadãos e as organizações políticas tradicionais. A consequência mais visível tem sido o surgimento de dirigentes que constroem sua legitimidade precisamente sobre a rejeição à política profissional. São candidatos que se apresentam como outsiders, alheios aos partidos históricos, que denunciam as elites governantes como uma casta corrupta e incompetente e que prometem refundar o Estado desde seus alicerces.

A emergência dessas figuras não constitui um fenômeno isolado nem exclusivamente nacional. Desde o Rio Grande até a Patagônia, observa-se um padrão recorrente. O deterioro econômico, a expansão da criminalidade organizada, a percepção de corrupção generalizada e a desilusão com as instituições democráticas geraram as condições para que candidatos com discursos disruptivos consigam captar o apoio de amplos setores sociais.

O cientista político norte-americano Samuel Huntington sustentava que a estabilidade política depende da capacidade das instituições para absorver e canalizar as demandas sociais. Quando essa capacidade desaparece, surgem lideranças personalistas que prometem soluções rápidas a problemas complexos. A América Latina parece estar precisamente nessa fase.

As novas figuras políticas compartilham traços ideológicos similares. No terreno econômico, defendem a redução do tamanho do Estado, a abertura para investimentos privados, a simplificação regulatória e o fortalecimento dos mecanismos de mercado. Em questões sociais, costumam adotar posições conservadoras ligadas à defesa da família tradicional, à crítica a determinadas expressões do progressismo cultural e à reivindicação de valores associados à ordem e à autoridade.

Mas é no âmbito da segurança que encontram sua principal fonte de apoio popular. A expansão do narcotráfico, o crescimento das gangues, o aumento dos homicídios e a sensação de desamparo cidadã converteram a segurança pública na principal preocupação de milhões de latino-americanos. Frente a isso, esses líderes oferecem respostas contundentes: fortalecimento das forças de segurança, endurecimento das penas, construção de novas prisões e uma política de confronto direto contra as organizações criminosas.

O sucesso eleitoral dessas propostas resulta compreensível em uma região onde numerosos Estados demonstraram ser incapazes de garantir o monopólio legítimo da força. Segundo diferentes organismos internacionais, a América Latina continua sendo uma das regiões mais violentas do planeta, apesar de não estar imersa em conflitos bélicos interestaduais.

A paradoxa é que muitos desses dirigentes chegam ao poder sem contar com estruturas partidárias sólidas nem experiência significativa na administração pública. Sua legitimidade deriva fundamentalmente da identificação emocional que conseguem estabelecer com setores do eleitorado desiludidos com o sistema.

A fragmentação política facilita ainda mais seu ascenso. Em numerosos países latino-americanos, a primeira volta eleitoral costuma produzir uma dispersão extrema do voto. Os partidos tradicionais perdem capacidade de mobilização enquanto proliferam candidaturas personalistas. Como consequência, alguns outsiders conseguem acessar a segunda volta com percentagens relativamente modestas.

O que ocorreu em diferentes eleições recentes ilustra esse fenômeno. Candidatos que inicialmente pareciam marginais conseguem se tornar receptores do chamado voto negativo, ou seja, o sufrágio emitido não tanto por adesão a um projeto político, mas por rejeição ao adversário. A segunda volta termina se transformando assim em um plebiscito emocional onde predominam os medos e as identidades antagônicas antes que os debates programáticos.

A politóloga argentina María Esperanza Casullo apontou que o surgimento dessas lideranças responde a uma crise de representação que atravessa toda a região. Os cidadãos já não buscam necessariamente governantes com experiência administrativa, mas figuras capazes de encarnar o descontentamento coletivo e expressar a indignação acumulada contra as elites.

No entanto, a vitória eleitoral costuma revelar rapidamente as limitações estruturais desses projetos. Governar é muito mais complexo do que fazer campanha.

A maioria desses presidentes chega ao poder sem maiorias legislativas estáveis. Os sistemas políticos latino-americanos, caracterizados por uma forte fragmentação partidária, obrigam a construir alianças permanentes para aprovar leis, orçamentos e reformas institucionais. O discurso antipolítico que foi eficaz durante a campanha se torna então um obstáculo para a negociação posterior.

Como advertia o sociólogo alemão Max Weber, a política democrática exige a capacidade de pactuar com adversários e construir compromissos. Mas os outsiders costumam ter construído sua legitimidade precisamente sobre a desqualificação desses mesmos atores com os quais depois devem negociar.

A consequência é uma crescente tensão entre as expectativas geradas durante a campanha e as possibilidades reais de implementação. Os cidadãos esperam transformações rápidas enquanto as instituições impõem ritmos muito mais lentos. Nesse contexto, a frustração pode reaparecer com notável rapidez.

A polarização contribui para agravar o problema. Em diversos países latino-americanos, as eleições deixaram de ser simples mecanismos de alternância para se transformar em autênticas batalhas identitárias. Os setores enfrentados já não percebem o adversário como um competidor legítimo, mas como uma ameaça existencial para o futuro da nação.

O filósofo político espanhol Daniel Innerarity advertiu que as democracias contemporâneas atravessam uma crise derivada da incapacidade de reconhecer a legitimidade do dissenso. Quando cada eleição é interpretada como uma luta entre o bem e o mal, a derrota se torna psicologicamente insuportável para amplos setores políticos.

Esse fenômeno aparece refletido em numerosos episódios pós-eleitorais recentes. Em alguns casos, setores derrotados questionaram os resultados eleitorais, denunciaram supostos fraudes sem provas conclusivas ou promoveram recursos judiciais destinados a atrasar a proclamação dos vencedores. O material aportado para esta análise mostra precisamente exemplos de controvérsias pós-eleitorais onde candidatos derrotados questionam a legitimidade dos resultados e anunciam mobilizações sociais para sustentar suas reivindicações.

Posteriormente, quando os resultados terminam se consolidando, a confrontação costuma se trasladar das instituições para as ruas. As protestas sociais passam a desempenhar um papel central na estratégia de oposição.

Nem toda mobilização constitui uma ameaça para a democracia. A protesto é parte essencial de qualquer sistema democrático saudável. No entanto, quando as manifestações buscam explicitamente impedir o exercício legítimo do poder por parte de autoridades eleitas, a situação adquire uma dimensão diferente.

O risco é particularmente elevado em sociedades caracterizadas por altos níveis de desigualdade, fragmentação territorial e fraqueza institucional. A América Latina frequentemente reúne esses três elementos.

O historiador britânico Niall Ferguson apontou que as sociedades polarizadas costumam entrar em ciclos de radicalização mútua onde cada lado interpreta as ações do adversário como uma justificação para intensificar sua própria resposta. O resultado pode ser uma espiral de conflitualidade que erosiona progressivamente a governabilidade.

Nesse contexto, os novos governos enfrentam um desafio duplo. Por um lado, devem cumprir as promessas que lhes permitiram conquistar o poder. Por outro, precisam demonstrar que são capazes de governar para a totalidade da sociedade e não apenas para suas bases eleitorais.

A experiência histórica demonstra que nenhuma administração pode se sustentar exclusivamente sobre o confronto permanente. Mesmo as lideranças mais carismáticas requerem instituições eficazes, acordos legislativos e níveis mínimos de consenso social.

A grande incógnita que atravessa atualmente a América Latina é se esses novos dirigentes conseguirão transformar o descontentamento cidadão em reformas duradouras ou se terminarão reproduzindo as mesmas dinâmicas de frustração que facilitaram sua chegada ao poder.

O que parece indiscutível é que a região atravessa uma profunda transição política. Os sistemas partidários construídos durante as últimas décadas mostram sinais evidentes de esgotamento. A cidadania exige respostas imediatas frente a problemas que os governos tradicionais não conseguiram resolver. A insegurança, a corrupção e o estancamento econômico continuam alimentando a demanda por lideranças disruptivas.

No entanto, a história latino-americana oferece um aviso permanente. A renovação política pode abrir oportunidades para fortalecer as democracias, mas também pode desembocar em novas formas de polarização se não for acompanhada de instituições sólidas, cultura de diálogo e respeito pelas regras do jogo democrático.

Entre a promessa de um novo começo e o risco de uma confrontação permanente, a América Latina parece estar em uma encruzilhada histórica. O futuro da região dependerá menos da capacidade dos outsiders para ganhar eleições do que de sua habilidade para construir consensos em sociedades cada vez mais fragmentadas. Porque conquistar o poder é apenas o primeiro ato; governar em meio à divisão é, como sempre, o verdadeiro teste de fogo da democracia.

Adalberto Agozino é Doutor em Ciência Política, Analista Internacional e Professor da Universidade de Buenos Aires

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