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A Medalha (Leo Silva)

Por Poder & Dinero

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Existem coisas que herdamos que nunca aparecem em um testamento.

Meu avô não me deixou terras nem dinheiro. Deixou-me algo mais pesado.

Uma medalha de prata.

Não estava polida quando me foi entregue. A superfície estava desgastada em algumas partes, escurecida em outras — essa pátina que só se forma com os anos de ser segurada, esfregada entre os dedos em oração ou repousando sobre o peito de um homem enquanto trabalha.

De um lado está o rosto de Cristo, coroado de espinhos. Seus olhos se elevam levemente — não em derrota, mas em resistência. Atrás de sua cabeça, os raios de luz se estendem para fora, lembrando que o sofrimento e a luz podem compartilhar o mesmo espaço.

Do outro lado está a Virgem Maria, serena e firme, cercada por palavras em latim que se traduzem como:

“Rainha concebida sem pecado original, rogai por nós.”

É uma Medalha Milagrosa. Um símbolo de proteção. De fé sob pressão.

Meu avô a usou durante anos — no trabalho, na doença, nas responsabilidades silenciosas de criar uma família ao longo da fronteira entre o Texas e o México.

Ele não falava muito sobre teologia. Os homens de sua geração raramente o faziam.

Mas entendia a proteção.

E antes de partir, colocou essa medalha na minha mão.

Não houve discurso. Não houve despedida dramática. Apenas uma transferência silenciosa.

Naquele momento, não compreendi totalmente o que me estava entregando.

Somente soube que algo importante havia mudado.

Os anos se passaram. A vida acelerou — responsabilidades, movimento, temporadas de intensidade e distância. Cidades que mudavam. Tarefas que se sucediam. Caixas que eram embaladas e desembrulhadas.

Não usei a medalha.

Eu a guardei — protegida, mas fora de vista. Dizia a mim mesmo que a estava cuidando. No fundo, também estava mantendo a memória a certa distância.

Nunca a esqueçi.

Em algum momento, cheguei a pensar que havia se perdido — extraviada no movimento dos anos.

Ontem foi o aniversário de seu falecimento.

Costumo não parar nessa data.

Raramente penso no dia exato.

Penso na sua vida.

Penso na forma como se comportava. A firmeza em sua voz. A disciplina nas coisas pequenas. As lições que ensinava sem anunciar que estava ensinando.

Quando criança, observava-o trabalhar.

Quando jovem, ouvia-o com mais atenção.

Quando adulto, comecei a compreender.

Ontem, enquanto limpava a casa, encontrei a medalha no fundo de uma gaveta.

Por um longo momento, permaneci imóvel.

Não pelo aniversário.

Mas pelo reconhecimento.

Ele se foi há décadas.

Mas o que colocou na minha mão nunca se foi.

Mais tarde naquele mesmo dia, abri uma caixa de madeira que me presentearam há anos. Dentro, guardo moedas comemorativas que coletei ao longo da minha carreira — pequenos círculos de metal que marcam capítulos cumpridos, responsabilidades assumidas, confiança conquistada.

Sem cerimônia, coloquei sua medalha dentro daquela caixa.

Pela primeira vez, o início da minha vida e a culminação dela ficaram lado a lado.

A medalha nunca foi pensada para ser usada como armadura.

Estava destinada a fazer parte de mim.

Alguns herdam fortunas.

Eu herdei convicção — a convicção de resistir, de proteger e de me manter firme quando outros dependiam de mim.

Nos momentos de tranquilidade — quando o mundo se acalma e a memória atravessa o Rio Grande — compreendo que o verdadeiro presente nunca foi a medalha em si.

Foi o padrão que representa.

Resistir.

Proteger.

Manter-se firme.

Alguns legados nunca se desvanecem.

Leo Silva é ex-agente especial da DEA (Escritório de Monterrey) e autor de Reign of Terror e El Reinado de Terror. Com décadas de experiência na linha de frente da luta contra os cartéis transnacionais, Silva oferece aos leitores um olhar íntimo sobre algumas das operações mais perigosas dirigidas contra líderes e organizações de alto nível.

Desde a publicação de suas memórias, Silva se tornou uma voz reconhecida na mídia e no circuito de palestras. Sua história e suas análises foram apresentadas em entrevistas com o jornalista vencedor do Prêmio Pulitzer Jorge Ramos na Univision (Assim vejo as coisas), o jornalista três vezes vencedor do Emmy Paco Cobos (A Entrevista), e Ana Paulina (Vozes com Ana Paulina), onde sua participação gerou milhões de visualizações. Também foi convidado em plataformas destacadas como o podcast Cops and Writers com Patrick J. O’Donnell, Game of Crimes com Steve Murphy e Llamados a Servir com Roberto Hernández.

Através de seus livros, palestras e aparições na mídia, Silva continua iluminando as realidades do crime organizado, o trabalho das forças de ordem e o custo humano da guerra contra as drogas, ao mesmo tempo em que compartilha lições de resiliência, liderança e veracidade.

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