No caso específico da fronteira entre Israel e o Líbano, a ideia de um cessar definitivo da violência não é mais do que uma entelequia, é uma construção teórica perfeita cujo único problema é que colide frontalmente com as dinâmicas de sobrevivência, dissuasão e soberania dos atores em conflito.
Para compreender a natureza das treguas anunciadas atualmente - como o pacto mediado no final de 2024 de 60 dias e as tentativas posteriores para mantê-lo - é imperativo despir-se das lentes do idealismo institucional. Não estamos diante do nascimento de uma era de reconciliação, mas de uma sofisticada reconfiguração tática do equilíbrio de poder. A guerra não acabou; simplesmente mudou de ritmo e está longe de finalizar.
A herança do fracasso da Resolução 1701 da ONU, desde seu nascimento até a atualidade, traça perfeitamente a genealogia da inviabilidade atual da paz quando se trata com o dogma do terrorismo religioso. Em outras palavras: “se com o terrorismo reivindicativo e laico a possibilidade de alcançar o sucesso em uma negociação era escassa, as chances de conseguir um acordo com o terrorismo religioso “são de soma zero”. A análise deve obrigatoriamente remontar a agosto de 2006. Após uma devastadora guerra de 34 dias, o Conselho de Segurança das Nações Unidas aprovou por unanimidade a Resolução 1701. O documento, impecável no papel, exigia a criação de uma zona desmilitarizada entre a “Linha Azul” (a fronteira de fato entre o Líbano e Israel - fixada pela ONU-) e o rio Litani. Nessa faixa de terreno, com exatos 32 quilômetros de largura, nenhum grupo armado que não fosse o exército oficial do Líbano ou os “capacetes azuis” da FINUL poderia operar.
No entanto, qual foi a realidade pragmática a quase vinte anos do que o sociólogo Johan Galtung definiu como “paz negativa”: “a que se referiu como o equivalente à ausência de conflito armado de grande escala, mas com uma acumulação maciça de tensões estruturais”. O Hezbollah não apenas não se desarmou, descumprindo a Res. 1701 e também a 1559 (do ano de 2005), mas multiplicou exponencialmente seu arsenal e capacidades militares ofensivas. O grupo xiita construiu uma vasta rede de túneis, armazenou centenas de milhares de foguetes de precisão e drones, e aperfeiçoou sua capacidade de combate de guerrilha. Por sua parte, Israel continuou operando e respondendo do espaço aéreo e terrestre libanês sob a premissa da vigilância preventiva e da segurança de seus cidadãos residentes em suas cidades e vilarejos do norte de seu território (o mais castigado pelo Hezbollah desde 1982). As instituições internacionais, representadas em campo pela FINUL, demonstraram sua incapacidade intrínseca para impor o desarme de um ator não estatal que possui, na prática, capacidades militares e políticas superiores às do próprio Estado que o abriga.
A explosão de 8 de outubro de 2023 não foi mais do que a consequência lógica deste dilema de segurança não resolvido. Ao abrir fogo no norte de Israel em “solidariedade” com os terroristas do Hamas na Faixa de Gaza, o Hezbollah dinamitou e fez voar pelos ares as últimas aparências da Resolução 1701.
A lógica realista por trás dos acordos que têm sido tentados entre as Forças de Defesa de Israel (FDI) e o Hezbollah, pactuados em um cessar-fogo, como o orquestrado em novembro de 2024, sob os auspícios dos Estados Unidos e da França, tem demonstrado aos analistas ingênuos - ou que são partes interessadas - que não buscam a “boa vontade” dos signatários, mas seus resultados estratégicos.
Para Israel, um cessar-fogo temporário atende a três necessidades operacionais críticas: a) Gestão de recursos e fadiga de combate, manter múltiplas frentes ativas simultaneamente desgasta os recursos econômicos, militares e a moral das tropas de reserva, b) Pressão interna: O deslocamento forçado de mais de 50.000 civis do norte do país gera uma crise política complexa para qualquer administração em Jerusalém. Congelar as hostilidades permite projetar um retorno da população, c) Liberdade de ação encoberta: Por não se tratar de um tratado de paz vinculante, os estrategistas israelenses reservam-se o direito de realizar ataques “cirúrgicos” ou bombardeios se detectarem que o adversário viola as linhas vermelhas do rearmamento ou da mobilização ao sul do Litani.
Por outro lado, para o Hezbollah, a trégua representa um fôlego de oxigênio indispensável. Após ter sofrido golpes devastadores em sua estrutura de liderança e em sua infraestrutura militar durante as incursões terrestres e aéreas israelenses de final de 2024 e as atuais, o grupo precisa de tempo. “O cessar-fogo lhe concede a janela logística necessária para reorganizar seus comandos, reabastecer seus arsenais através das porosas fronteiras com a Síria e consolidar sua narrativa de resistência diante de sua base social xiita no Líbano”.
Sob essa realidade, “o alto-falante” não busca extinguir o fogo; busca evitar que os próprios combatentes se queimem completamente antes de estarem prontos para a próxima batalha. No entanto, os obstáculos intransponíveis da geopolítica confrontam os postulados mencionados anteriormente e existem fatores estruturais que tornam a paz permanente no sul do Líbano uma impossibilidade fática no médio prazo. A análise política deve contemplar três vetores inamovíveis: Em primeiro lugar, a asimetria de compromissos e a sobrevivência organizacional. A principal exigência de Israel para um cessar de hostilidades duradouro é a retirada total do Hezbollah ao norte do rio Litani e seu posterior desarme. Para o Hezbollah, aceitar isso voluntariamente significaria assinar sua própria sentença de morte política e militar no país. A organização iraniana deriva sua legitimidade interna desgastada diante de muitos libaneses de sua condição de “resistência” frente a Israel. Despojar-se de suas armas e abandonar seus bastiões territoriais no sul significaria transformar-se em um partido político convencional, perdendo sua principal carta de negociação e o poder de veto que exerce sobre o Estado libanês pela força de suas armas.
Em segundo lugar, está a inoperância e fraqueza do Estado Libanês. Os acordos recentes costumam delegar a vigilância do sul do Líbano ao Exército Libanês (LAF). No entanto, a análise pragmática demonstra que as forças armadas oficiais do Líbano carecem do orçamento, do equipamento e, acima de tudo, da coerção e vontade política necessárias para enfrentar o Hezbollah e forçar sua retirada. Assim, o país navega em um colapso institucional crônico; pretender que suas forças armadas submetam a milícia mais poderosa da região é pecar por uma alarmante ingenuidade analítica.
Por fim, o conflito não é puramente um choque por delegação inserido na grande arquitetura de segurança do Oriente Médio. O Hezbollah funciona historicamente como a peça mais valiosa do “Eixo da Resistência” comandado pelo regime da República Islâmica do Irã. As decisões estratégicas do grupo sobre quando atacar e quando parar não são tomadas por sua liderança político-militar nos subúrbios de Beirute, mas respondem diretamente às necessidades de dissuasão e projeção geopolítica de Teerã frente a Israel e as potências ocidentais. Enquanto persistir a guerra fria (e quente em ocasiões como a atual) entre o Irã e Israel, a fronteira libanesa continuará sendo um barril de pólvora pronto para detonar.
Concluindo, a guerra por outros meios, segundo o termo que cunhou Carl von Clausewitz, configura a célebre máxima de que a guerra é a continuação da política por outros meios. No intrincado labirinto do conflito entre Israel e o Hezbollah, poderia-se inverter o postulado: o cessar-fogo é a continuação da guerra por outros meios. Mas não se deve confundir a ausência temporária de bombardeios massivos com a resolução do conflito. Os fatores subjacentes que empurram ambos os atores ao choque violento, a relevância da segurança que Israel dá a suas fronteiras e a agenda político-militar do Hezbollah apoiada pelo Irã permanecem absolutamente intactos.
Quem pretender escrever ou legislar sobre o Líbano, assumindo que um acordo mediado pelos Estados Unidos, Arábia Saudita ou outros atores da comunidade internacional para pôr fim a décadas de derramamento de sangue, incorrerá no erro do pensamento ilusório. No campo da Realpolitik, as treguas são ferramentas de engenharia bélica. O cessar-fogo não é o prelúdio da paz, mas o cronômetro silencioso que marca a contagem regressiva para a próxima e inevitável explosão de violência.

Por George Chaya (Washington DC) *
*Professor George Chaya é Conselheiro Sênior em assuntos do Oriente Médio na Segurança Nacional e especialista em OSINT (Inteligência de Fonte Aberta) com sede em Washington DC, EUA.

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