Elon Musk publicou em mandarim: «我的儿子正在学习普通话». Meu filho está aprendendo mandarim». O post não passou despercebido, mas Musk não é o único. Os netos de Donald Trump, os filhos de Jeff Bezos e os filhos de Mark Zuckerberg (que também fala) também estudam o idioma oficial da China. O príncipe George, herdeiro da coroa britânica, teria aprendido algumas noções de mandarim na escola primária.
O fenômeno não é por acaso nem moda: é cálculo.
Interesse próprio, não idealismo
Kerry Brown, professor de estudos chineses e diretor do Instituto Lau China no King's College de Londres, formula isso sem rodeios: com a China como a segunda economia do mundo, os poderosos têm razões práticas evidentes para aprender o idioma.
«É simplesmente interesse próprio e o reconhecimento de que a China será um parceiro tecnológico e econômico de enorme peso no futuro», afirmou. «Se você se interessa pelo mundo dos negócios, mesmo que seja cético ou não particularmente amigável com a China, faz sentido aprender chinês».
Brown também destaca a dimensão diplomática. Quando a neta de Trump, Arabella Kushner, cantou em mandarim diante de Xi Jinping durante a visita de Estado do presidente chinês aos Estados Unidos em 2017 —e se tornou uma sensação no Weibo— o acadêmico chamou isso de boa diplomacia. O idioma como gesto de poder brando.
O fenômeno não se limita ao Ocidente. Vladimir Putin declarou durante sua recente visita a Pequim que mais de 100.000 russos estudam chinês, e que 20.000 fazem isso diretamente na China. O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, reconheceu que sua filha fala chinês antes de russo, graças à sua babá.
O abismo no mundo acadêmico ocidental
Apesar do interesse das elites, a situação nas universidades ocidentais vai na direção oposta. Na Austrália, uma pesquisa da Academia Australiana de Humanidades revelou que apenas sete das quatorze universidades com programas de estudos sobre a China oferecem cursos de graduação em estudos chineses com componente linguístico.
Entre 2017 e 2021, a média de graduados anuais nessa especialidade não ultrapassou cinco. O presidente do comitê parlamentar de educação, o trabalhista Tim Watts, advertiu no ano passado que as inscrições em línguas do sudeste asiático em universidades australianas caíram 75% entre 2004 e 2022.
O governo australiano anunciou no mês passado um investimento de 2,5 milhões de dólares para impulsionar o aprendizado de idiomas asiáticos em nove organizações de Victoria, do Território da Capital Australiana e de Nova Gales do Sul, dentro de um programa de 25 milhões destinado a estudantes do ensino médio.
O mandarim na América Latina: presença crescente, profundidade escassa
Na América Latina, o interesse pelo mandarim cresceu junto com a expansão econômica chinesa na região, mas continua sendo marginal em termos de massa crítica. Os Institutos Confúcio —presentes na Argentina, Brasil, México, Chile, Colômbia, Peru, Equador, Venezuela e Cuba, entre outros— constituem o principal canal de acesso ao idioma, com uma rede de mais de 40 sedes que combinam ensino de mandarim com promoção cultural. Universidades como a UBA, a UNAM, a USP ou a Universidade do Chile oferecem cursos ou carreiras com componente chinês, mas os programas de pós-graduação com nível linguístico avançado são escassos e os graduados com mandarim funcional para negócios ou diplomacia continuam sendo uma raridade.
O perfil do estudante latino-americano de chinês é majoritariamente instrumental: comércio, logística, turismo ou relações bilaterais com Pequim, impulsionado pelo peso da China como primeiro ou segundo parceiro comercial da maioria dos países da região.
No entanto, ao contrário do caso australiano ou europeu, a América Latina carece de políticas públicas sistemáticas de financiamento para o estudo de idiomas asiáticos, o que deixa o desenvolvimento dessa capacidade quase exclusivamente nas mãos da iniciativa privada e da cooperação direta com instituições chinesas —o que, por sua vez, levanta perguntas sobre autonomia acadêmica e agenda nos conteúdos.

A nível mundial, mais de 30 milhões de pessoas estudam chinês mandarim. Esta cifra inclui estudantes de todas as idades repartidos em mais de 180 países. O crescimento do idioma tem sido impulsionado por plataformas digitais e sua importância econômica.
O que a IA não pode substituir
Voltando à Austrália, Ning Zhang, docente de estudos chineses na Universidade de Adelaide, alerta em um artigo da ABC News que a crescente dependência da inteligência artificial para a tradução não é substituto do aprendizado genuíno do idioma. «A cultura chinesa se baseia fundamentalmente nas relações e as conexões. A IA é uma máquina fria. Às vezes, não se trata de uma expressão verbal, mas de uma transferência de mensagem verbal. Por isso o aprendizado do idioma é tão importante cara a cara, de humano para humano, e também por meio da imersão na China ou em comunidades de fala chinesa, como Hong Kong, Taiwan e Cingapura».
Elijah Barrott-Walsh, estudante de engenharia biomédica e estudos chineses na Universidade de Adelaide, concorda: «O idioma é inseparável da cultura, da história e da tradição. É uma linguagem tão idiomática. Perde-se tanto significado ao passar do chinês para o inglês».
Para Kirsty Duff, que cresceu falando chinês em casa e estuda a carreira de relações internacionais em Adelaide, aponta uma lacuna que considera estratégica: «Na China, todas as crianças de pessoas em posições altas estudam inglês. É uma disciplina crítica. Mas aqui não temos essa exigência com os idiomas». No LinkedIn, ressaltou, já recebeu contatos profissionais especificamente por seu domínio do mandarim.
Um idioma como aposta de época
O mandarim está se tornando, silenciosamente, o «novo inglês» das elites globais. Não em termos de universalidade, mas de sinal: quem o aprende está apostando em um mundo onde a China não é uma variável periférica, mas um eixo central da economia, da tecnologia e da diplomacia.
Que essa aposta seja liderada pelos filhos de Musk, Bezos e Zuckerberg —os arquitetos do capitalismo digital ocidental— diz mais sobre a reorganização do poder global do que qualquer índice macroeconômico.
Marcos González Gava é co-fundador da Reporte Asia, especialista em negócios econômicos e financeiros e questões culturais com a República Popular da China.

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