Em 28 de julho de 2026, Keiko Fujimori assumiu como presidenta do Peru, tornando-se a décima presidenta do país nos últimos dez anos. Sua administração, que enfrenta graves problemas de crime organizado, insegurança pública, corrupção e fragmentação política, teve um começo complicado.
O governo foi questionado pelo descontentamento público gerado por algumas de suas nomeações ministeriais, certas demoras na apresentação de sua agenda legislativa ao Congresso e a percepção de muitos peruanos de que Keiko é mais uma dirigente orientada a buscar consensos —e menos uma líder decidida, ao estilo de seu pai— do que muitos esperavam. Seu primeiro-ministro, Luis Galarreta, possui uma importante experiência política, embora alguns o considerem próximo demais das elites esquerdistas denominadas “caviares” e muito moderado ao comunicar a agenda presidencial.
Como contraponto a essas preocupações, Keiko designou como ministro da Economia e Finanças um tecnocrata respeitado, Elmer Cubas. Seu chanceler, Carlos Espa, deu passos para reconstruir as relações do Peru com os Estados Unidos, México e seus vizinhos imediatos, entre eles o Chile. O governo de Keiko também comunicou uma visão razoável em relação às suas prioridades.
Diante dos desafios que a nação enfrenta, o governo de Keiko solicitou ao Congresso peruano 120 dias de poderes legislativos extraordinários. No entanto, não está claro quanto e que parte desse pedido a nova Câmara dos Deputados, dominada pela esquerda, concederá, nem quanto tempo levará para tomar uma decisão.
O presente artigo examina os principais desafios e decisões estratégicas do governo de Keiko Fujimori, com especial ênfase no crime organizado transnacional e na insegurança, nas relações do país com a República Popular da China e os Estados Unidos, e nos problemas de corrupção e governabilidade. A análise se baseia em conversas do autor com especialistas durante sua visita ao Peru em agosto de 2026 e em investigações complementares.
Crime organizado e insegurança
O descontentamento da população com o crime organizado e a insegurança, junto com a percepção de que Keiko enfrentaria esses problemas por meio de políticas similares ao enfoque de “mão dura” de seu pai, foi um fator importante em sua eleição.
A dinâmica criminosa peruana reflete uma combinação entre importantes economias ilícitas rurais —impulsionadas pelo cultivo de coca, mineração ilegal e desmatamento ilegal— e economias igualmente criminosas nas áreas urbanas, onde os lucros provenientes dessas atividades são lavados através da construção e de atividades comerciais majoritariamente informais.
Essa dinâmica urbana é agravada pela presença de pelo menos 1,5 milhões de venezuelanos e outras pessoas deslocadas e marginalizadas, que são vítimas de extorsões, roubos e exploração por parte de bandas violentas como o Tren de Aragua, Los Pulpos e Los Choneros, além de pequenos grupos integrados por colombianos, mais concentrados na extorsão e nos empréstimos usurários conhecidos como “gota a gota”.
Segundo a organização antidrogas peruana DEVIDA, existem cerca de 85.000 hectares de coca cultivadas no Peru, uma superfície que apenas a Colômbia supera em nível mundial.
A produção ilícita se concentra não somente nos vales dos rios Apurímac, Ene e Mantaro —o VRAEM— mas também aumenta em zonas baixas de Loreto e Ucayali, particularmente ao longo das fronteiras com a Colômbia e o Brasil. Inclusive foram detectados cultivos de coca no sudeste, em Puno, próximo à Bolívia.
A mineração ilegal continua sendo um problema em todo o país, especialmente em Madre de Dios, Junín e no norte, em lugares como Pataz e La Rinconada.
Atores internacionais como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) do Brasil estariam envolvidos tanto em atividades mineiras quanto na produção e transporte de cocaína.
O desmatamento ilegal tem presença particular nos departamentos orientais de Loreto e Ucayali, onde existem redes humanas, logísticas e financeiras que se sobrepõem à economia ilícita da cocaína.
Segundo alguns especialistas consultados para este trabalho, a mineração ilegal representa um risco particular para a democracia peruana devido aos seus vínculos econômicos com numerosos ex-congressistas e congressistas em exercício, políticos locais e outras elites.
A esta criminalidade e à fraca presença do Estado se soma a continuidade da atividade do grupo terrorista Sendero Luminoso, que mantém aproximadamente 250 integrantes concentrados no VRAEM, especialmente em Vizcatán.
Segundo diversos relatórios, o grupo ajuda a proteger atividades criminosas na região e recebe financiamento proveniente delas, especialmente do cultivo de coca.
Nas zonas urbanas, durante 2026, os meios locais informaram sobre casos de alto perfil relacionados com extorsões, não somente nos bairros pobres do norte da área metropolitana de Lima e Callao, mas também em outras regiões, particularmente nos departamentos de La Libertad e Piura.
A esses problemas se soma a expectativa de um fenômeno de El Niño particularmente intenso, com temperaturas elevadas das águas que afetam a pesca e precipitações recordes que prejudicam a agricultura e provocam inundações e deslizamentos de terra, afetando os meios de vida de aproximadamente 1,2 milhões de peruanos.
As primeiras respostas do governo
O governo de saída havia conseguido avanços modestos frente ao crime organizado e à insegurança.
As 85.000 hectares de coca representavam um 5,8 % a menos que o ano anterior, constituindo a terceira queda anual consecutiva.
A taxa de homicídios, de sete assassinatos a cada 100.000 habitantes, era aproximadamente 7 % inferior à de 2025 e consideravelmente menor do que o máximo de 10,1 por cada 100.000 habitantes registrado em 2024.
A Polícia Nacional também informou que as extorsões durante o primeiro trimestre de 2026 haviam diminuído 46 % em relação ao mesmo período de 2025. No entanto, alguns especialistas consultados alertaram que essa redução poderia dever-se em parte ao fato de que as bandas criminosas consolidaram seu controle territorial e, portanto, as vítimas denunciam menos.
A partir de um planejamento que provavelmente havia começado antes da posse de Keiko, as forças militares e policiais lançaram várias operações importantes contra o crime organizado.
Um dia depois da posse presidencial, as forças peruanas abatiram no VRAEM o “camarada Richard”, um importante dirigente do Sendero Luminoso. Keiko visitou pessoalmente a região em 1 de agosto.
Outras operações importantes incluíram a denominada “Jaguar”, contra traficantes de cocaína em Ramón Castilla, perto da tríplice fronteira com o Brasil e a Colômbia.
Nas semanas seguintes também foram desenvolvidas importantes operações militares contra a mineração ilegal em Pataz e Madre de Dios, embora algumas das principais áreas de mineração ilegal, como La Rinconada, tenham recebido muito menos atenção estatal.
Como resposta à insegurança urbana, o governo de Keiko colocou em marcha o “Plano Escudo”, utilizando uma denominação que toma como referência a iniciativa americana “Shield of the Americas”.
A operação incorporou outros 4.000 policiais nacionais à área metropolitana de Lima, com apoio das Forças Armadas.
No entanto, especialistas consultados apontaram que governos peruanos anteriores já haviam realizado operações similares e que, até agora, essas medidas não haviam produzido uma mudança significativa na situação de segurança.
O governo também está tomando medidas para se preparar para a intensificação do fenômeno de El Niño. Destinou 450 milhões de soles para reforçar 80 pontes identificadas como vulneráveis e fortalecer 380 pontos de intervenção, concentrando ainda as tarefas preventivas em 607 distritos considerados especialmente vulneráveis.
Os especialistas consultados, no entanto, expressaram dúvidas sobre se o governo poderá financiar e executar adequadamente uma resposta mínima frente às inundações e deslizamentos que se esperam nas comunidades da costa noroeste.
Diferentemente do crime organizado, ao qual os peruanos se acostumaram em certa medida, consideram que a resposta governamental diante de El Niño terá um impacto direto sobre a percepção cidadã da capacidade do governo para atender às necessidades básicas urgentes.
Dúvidas sobre a condução da segurança
Embora essas ações mostrem que o governo está tomando medidas frente aos graves problemas de segurança, várias das pessoas consultadas manifestaram preocupação pela seleção dos responsáveis pela área e pela possibilidade de que Keiko não possua os atributos de liderança decisiva e carismática que muitos peruanos valorizavam em seu pai.
Entre as principais dúvidas aparece o ministro da Defesa, Rafael Belaunde Llosa, um ex-candidato presidencial percebido por alguns como progressista e que tem sido crítico das Forças Armadas.
Também se questiona sua experiência para ocupar o cargo e seus vínculos públicos com a mineradora Poderosa, no norte do país, onde as Forças Armadas realizam importantes operações contra atividades ilegais.
Outros consultados levantaram questionamentos sobre vínculos familiares e pessoais do ministro com o Chile, considerado historicamente um rival geopolítico do Peru.
A nomeação do ministro do Interior, César Astudillo, um general reformado do Exército amplamente respeitado, também gerou certo desconforto dentro da Polícia Nacional, acostumada a que um de seus próprios membros ocupe essa pasta. Particularmente porque Astudillo designou vários ex-colegas do Exército em postos importantes do Ministério do Interior.
Em contrapartida, outras nomeações receberam avaliações mais positivas, entre elas a do general reformado Hugar Cornejo Valdivia, designado para dirigir o serviço nacional de inteligência, DINI.
Cornejo já havia comandado a organização durante os governos de Martín Vizcarra e Francisco Sagasti. Keiko confiaria particularmente nele, em parte pela relação que mantiveram com o pai da presidenta quando este era decano universitário.
Alguns especialistas, no entanto, manifestaram preocupação pelo delicado estado de saúde de Cornejo e por se ele terá o tempo e a energia necessárias para implementar as reformas que a DINI precisa, especialmente para fortalecer suas capacidades analíticas e dar um enfoque de inteligência estratégica nacional.
China e Estados Unidos
A navegação do governo de Keiko entre o fortalecimento das relações com Washington e os riscos estratégicos derivados dos profundos vínculos comerciais do Peru com a China provavelmente será um dos principais desafios de política externa de sua presidência.
Keiko comprometeu-se a fortalecer as relações com Washington, incluindo a incorporação do Peru à coalizão Shield of the Americas.
Sua decisão de incrementar o uso das Forças Armadas para responder aos problemas internos de segurança complementará compromissos já existentes, como a compra peruana de aviões de combate F-16 americanos e o pacote de apoio associado destinado a fortalecer os vínculos com Washington.
As atividades comerciais e as redes humanas da China no Peru, por sua magnitude e natureza, continuarão gerando preocupação em Washington, mas serão difíceis de reduzir ou controlar para o governo de Keiko.
O atual ministro da Defesa teria sido recebido na China antes de ser designado oficialmente para o cargo, enquanto vários congressistas peruanos também foram convidados a visitar aquele país.
Um dos principais elementos da presença chinesa é a expansão do megapuerto de Chancay, operado exclusivamente e com pouca supervisão administrativa peruana pelo gigante logístico chinês COSCO.
O autor sugere que, em um eventual cenário de guerra, a operação da COSCO, combinada com um governo peruano disposto ou incapaz de impedi-lo, poderia permitir à Marinha do Exército Popular de Libertação da China utilizar o porto para reabastecer navios de guerra destinados a operações contra os Estados Unidos no Pacífico oriental.
Um analista de segurança peruano consultado afirma que a COSCO emprega centenas de agentes de segurança chineses no porto.
Chancay também está se tornando um porto cada vez mais importante para as importações provenientes da China. Isso gera desafios relacionados ao transbordo de produtos e componentes chineses que poderiam entrar por Chancay e, em seguida, ser exportados aos Estados Unidos sem tarifas sob o acordo comercial entre Peru e Washington.
Em tempos de paz, a escala, automação e vantagens de custos das operações da COSCO em Chancay poderiam permitir à China deslocar concorrentes do transporte transpacífico como Maersk e Mediterranean Shipping.
Isso concederia a Pequim influência não apenas sobre as rotas entre Peru e Ásia, mas também sobre outros portos latino-americanos do Pacífico, à medida que Chancay se consolidar como um grande centro logístico regional.
A construção de uma eventual conexão ferroviária transcontinental entre o Brasil e Chancay, atravessando os Andes, expandiria ainda mais a influência comercial chinesa no continente.
A influência chinesa no Peru vai muito além de Chancay.
A China é o maior investidor no setor de mineração peruano. Também controla 100 % da distribuição elétrica na área metropolitana de Lima, é um dos maiores produtores de petróleo do país e possui uma presença importante na construção, com centenas de projetos.
As empresas chinesas também têm uma forte presença nas telecomunicações.
O governo chinês teria doado telefones Xiaomi a todos os assessores do Congresso peruano anterior, o que, segundo o autor, poderia transformar essa presença digital em uma oportunidade para obter informações de inteligência.
A China também está se tornando um destino importante para determinados produtos agrícolas peruanos. Por exemplo,
emplo, as exportações peruanas de mirtilos para a China aumentaram 86% em 2026 em relação a 2025.No que diz respeito à área militar, a China possui uma influência considerável graças às redes informais construídas a partir de vendas anteriores de armamento e dos numerosos oficiais militares peruanos que viajaram para aquele país.
Como comentou um dos colegas militares aposentados peruanos do autor: “nos deixamos seduzir por toda a atenção e as viagens à China”.
Atualmente, o Exército Popular de Libertação chinês mantém dois coronéis como alunos na Escola Superior de Guerra do Exército peruano e outros dois no Centro de Altos Estudos Nacionais.
Durante a visita do autor a Lima, um grupo de alunos estaria planejando visitar o porto de Chancay, facilitado por esses oficiais chineses e pela embaixada da China.
A China também vendeu ao Peru diversos equipamentos militares, incluindo caminhões e sistemas de lançadores múltiplos de foguetes.
Além disso, tem acesso a informações provenientes do satélite peruano PeruSat-1 e envia regularmente delegações para instituições militares peruanas.
No entanto, os caminhões Dong Feng e os sistemas de lançadores Tipo 90B seriam considerados dentro das Forças Armadas peruanas como equipamentos com diversos problemas e de baixa qualidade.
Além do âmbito militar, a China recebe regularmente delegações do Congresso peruano, políticos, jornalistas e profissionais de centros de estudos.
Além disso, mantém relações com empresários peruanos associados à China através de instituições como a Associação de Empresas Chinesas no Peru e a Associação Peruano-China.
A relação com os Estados Unidos
No que diz respeito à relação com os Estados Unidos, o chanceler peruano Carlos Espa já está trabalhando para fortalecer os vínculos.
Embora não seja diplomata de carreira, é jornalista e cresceu em um ambiente internacionalmente orientado. Também ocupou um cargo importante de apoio nas relações públicas da embaixada dos Estados Unidos em Lima.
Essa experiência lhe proporcionou conhecimento direto dos Estados Unidos, de seu sistema diplomático e das relações internacionais.
Espa também foi candidato nas eleições presidenciais de 2026 e era amplamente respeitado por suas propostas.
Embora Keiko não possua a relação pessoal anterior com o presidente Trump que facilitou os vínculos de outros líderes latino-americanos com Washington, o conhecimento e os contatos de Espa poderiam ajudar o Peru a gerenciar as sensibilidades de sua relação com os Estados Unidos.
Durante a visita do autor, Espa também adotou posições favoráveis a Washington ao romper relações diplomáticas com o Irã, uma decisão independente, mas fortemente alinhada com os objetivos americanos.
No entanto, qualquer tentativa de atender às preocupações de Washington que implique afetar as atividades da China e de suas empresas poderia se tornar muito mais complicada.
O peso das empresas chinesas que compram produtos peruanos, operam setores estratégicos da economia e mantêm redes de influência por meio de relações legítimas e também corruptas com políticos, funcionários e empresários tornará difícil que Keiko responda plenamente às preocupações americanas.
Corrupção e governabilidade
À medida que a administração de Keiko avança, sua capacidade de lidar com os problemas de corrupção e governabilidade profundamente enraizados no sistema peruano provavelmente será um dos principais fatores que determinarão seu sucesso.
Segundo o índice de percepção de corrupção da Transparency International, em 2025 o Peru ocupou a posição 130 entre 182 países, um dos piores resultados da região.
A corrupção aparece regularmente na Polícia e no Ministério Público e tem contribuído reiteradamente para a paralisia e saída antecipada de presidentes peruanos.
Entre eles estiveram Alejandro Toledo, Ollanta Humala, Martín Vizcarra e Pedro Pablo Kuczynski, além do próprio pai de Keiko, Alberto Fujimori, condenado por crimes relacionados à corrupção.
Dina Boluarte e os presidentes de transição José Jerí também foram removidos por votações relacionadas a acusações de corrupção, embora nenhum dos dois tenha sido condenado.
Em 2019, a própria Keiko Fujimori foi submetida a prisão preventiva por acusações de corrupção que nunca foram provadas, uma experiência que, segundo o autor, a afetou profundamente.
Um colega peruano consultado de maneira extraoficial se perguntou se os “acordos” que Keiko poderia ter tido que realizar com o establishment corrupto poderiam impedi-la de tomar as medidas necessárias para desafiar esses interesses.
Embora o Congresso peruano continue fragmentado entre numerosos partidos, o partido de Keiko, Fuerza Popular, possui uma forte representação em ambas as câmaras do novo Congresso bicameral.
No entanto, tanto a direita quanto a esquerda representam riscos políticos.
Na esquerda aparecem figuras como Alfonso López Chau, Jorge Nieto Montesinos, o ex-presidente encarcerado Pedro Castillo e o candidato da esquerda Roberto Sánchez.
Segundo os consultados, a esquerda espera os resultados das eleições locais de outubro para aproveitar o crescente descontentamento com a percepção de um governo excessivamente moderado, o aumento dos preços do petróleo, as extorsões a transportadoras e outros problemas, com o objetivo de impulsionar greves e outras ações destinadas a pressionar ou paralisar o governo.
Na direita, Keiko também enfrenta a pressão de seu antigo rival eleitoral e atual aliado Rafael “Porky” López Aliaga e seu partido Renovação Popular.
López Aliaga se comprometeu a apoiar o governo de Keiko. No entanto, em relação ao pedido de 120 dias de poderes legislativos extraordinários, afirmou que seu partido avaliaria cada parte da proposta separadamente.
Seu forte tom e estilo político também teriam gerado algumas fricções com a equipe de Keiko.
Além desses atores, Keiko poderia encontrar alianças inesperadas com alguns congressistas de centro e esquerda.
Entre eles está Fernando Respigiosi, senador que no passado foi crítico do fujimorismo, mas que atualmente é um membro experiente de sua bancada.
Também aparece Marlon Aguirre, do partido da esquerda Juntos por o Peru, que estaria avaliando deixar sua bancada para se juntar à Fuerza Popular.
Mais remotamente, Keiko poderia encontrar coincidências ocasionais com o general Óscar Reto Otero, do partido da esquerda “Buen Gobierno”, que em algumas ocasiões se aproximou e em outras se distanciou dos setores mais antimilitares da coalizão oposicionista de esquerda.
A sobrevivência política de Keiko também se vê favorecida pelo novo Congresso bicameral, que dificulta que uma coalizão de opositores possa remover um presidente por meio de argumentos ambíguos como a anterior figura da “incapacidade moral”.
No entanto, os políticos peruanos ainda estão aprendendo a se desenvolver e aproveitar as novas regras do sistema.
Conclusão
Durante a maior parte das últimas duas décadas e mesmo antes, os governos peruanos não demonstraram ser suficientemente capazes, transparentes ou estáveis para administrar os problemas cada vez mais graves do país.
Durante esse período, os desafios da nação somente aumentaram e ainda não existe uma evidência convincente de que Keiko vá romper essa tendência.
Como expressou cinicamente um dos colegas peruanos do autor:
“Os presidentes peruanos sempre chegam ao poder falando sobre tudo que vão fazer, mas acabam não fazendo nada.”
Várias das pessoas entrevistadas em Lima anteciparam uma possível crise após as eleições locais de outubro, aproximadamente quando termine o período de “lua de mel” correspondente aos primeiros cem dias do governo de Keiko.
Nesse momento, sinalizaram, os grupos criminosos locais que se mantiveram relativamente contidos durante os últimos meses poderiam aumentar a violência para consolidar sua influência sobre os territórios e sobre os políticos eleitos em outubro.
Um brutal sequestro seguido de um quádruplo homicídio em Trujillo, ocorrido pouco antes da visita do autor, recordou o efeito aterrador que pode produzir a violência descontrolada.
A resposta do governo, incluindo a detenção e apresentação de suspeitos cuja constituição física e características não pareciam coincidir com as imagens públicas do crime, aprofundou o desencanto com os primeiros passos da administração de Keiko.
Para o governo, esse desencanto poderia ser reforçado nos próximos meses por outros fatores de tensão, como a intensificação dos efeitos da temporada de chuvas associada ao El Niño.
A combinação de um avanço opositor nas eleições de outubro e essas tensões poderia impulsionar a esquerda a adotar uma postura mais agressiva para aproveitar o crescente descontentamento e paralisar ou até mesmo derrubar o governo de Keiko.
O potencial conflito político será também condicionado pelas eleições nacionais no Brasil, uma possível crise política na Bolívia, as eleições de meio termo nos Estados Unidos e a visita do papa Leão ao Peru.
Durante sua visita, o autor perguntou a um político peruano de muito alto nível se, caso os Estados Unidos investissem em uma relação de segurança e comercial mais ampla com o Peru, Washington poderia esperar que o governo de Keiko sobrevivesse mais tempo do que os nove governos anteriores.
A resposta foi categórica:
“Seu governo não deveria se preocupar com Keiko… ela ficará bem.”
O autor conclui, no entanto, que espera que essa afirmação seja correta, embora não possa dá-la como certa.

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