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"O novo papel da Turquia no equilíbrio atlântico (Adalberto Agozino)"

Por Poder & Dinero

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A posição geoestratégica da Turquia, sua pujante indústria de defesa e a astuta diplomacia de seu presidente transformaram Ancara em um parceiro imprescindível para o Ocidente. Longe de ser uma flanco periférico problemático, a Turquia emerge como eixo de um novo equilíbrio atlântico no qual a Europa deve assumir maiores responsabilidades enquanto Washington reorienta suas prioridades globais.

Durante décadas, a percepção ocidental sobre a Turquia oscilou entre a desconfiança e a utilidade tática. As tensões com a Grécia e Chipre, o deterioro democrático interno, a aproximação ocasional com a Rússia e a aquisição de sistemas S-400 russos geraram desconfianças notáveis dentro da OTAN. No entanto, a cúpula de Ancara marcou um ponto de inflexão. A guerra na Ucrânia, a instabilidade no Oriente Médio, a crise iraniana e a competição por rotas energéticas e árticas elevaram o valor estratégico de um país que controla os estreitos do Bósforo e os Dardanelos, mantém fronteiras com múltiplos cenários de conflito e projeta influência no Cáucaso, nos Bálcãs e no Mediterrâneo oriental.

Essa relevância não se limita à geografia. Nas últimas duas décadas, sob a liderança de Erdoğan, a Turquia desenvolveu uma das indústrias de defesa mais dinâmicas do mundo. De importador dependente, passou a produzir veículos blindados, mísseis de precisão, fragatas, helicópteros e, especialmente, veículos aéreos não tripulados que demonstraram sua eficácia na Líbia, na Síria, no Cáucaso e na Ucrânia. Esses drones de custo acessível e alto impacto operacional se tornaram um produto de exportação para numerosos países da Europa, Ásia e África, posicionando a Turquia como um fornecedor relevante de tecnologia militar intermediária e alta.

A cúpula permitiu visibilizar essa transformação. Enquanto muitos aliados europeus debatendo como acelerar sua capacidade produtiva diante do aumento dos gastos em defesa, a Turquia já dispunha de uma infraestrutura industrial madura, capaz de responder com agilidade à crescente demanda. Essa capacidade produtiva modifica as relações de poder internas da Aliança: o peso político já não é medido apenas pela capacidade de consumir segurança americana, mas também pela de produzi-la e sustentar cadeias logísticas prolongadas.

O entendimento pessoal entre Erdoğan e Donald Trump foi fundamental. Ambos os líderes compartilham um estilo de liderança pragmático, baseado em relações diretas e decisões rápidas. Essa afinidade se traduziu em avanços concretos, como a disposição americana a facilitar o retorno da Turquia ao programa de caças F-35, suspenso após a compra dos S-400. Embora pendente de aprovação congressual, o gesto simboliza uma reabilitação estratégica de Ancara e uma normalização de seus vínculos com Washington. A eventual reintegração fortaleceria a indústria aeronáutica turca e alteraria os equilíbrios militares no Mediterrâneo oriental e no Mar Negro.

No contexto mais amplo da cúpula, a Turquia capitalizou a evolução da OTAN para um modelo que alguns denominam “OTAN 3.0”. Os Estados Unidos mantêm o guarda-chuva nuclear, a inteligência de alto nível e a liderança política global, mas exigem que a Europa assuma uma maior carga convencional. Nesta redistribuição, a Turquia ocupa uma posição privilegiada: atua como ponte entre a Europa e o Oriente Médio, contribui com capacidades operativas comprovadas e oferece alternativas industriais a uma Europa que busca reduzir sua dependência tecnológica excessiva de fornecedores americanos.

Essa centralidade não implica alinhamento incondicional. Erdoğan demonstrou habilidade para manter canais de diálogo com atores diversos sem renunciar aos interesses nacionais turcos. A guerra na Ucrânia, por exemplo, permitiu a Ancara equilibrar seu papel como membro da OTAN com uma postura mediadora que trouxe benefícios diplomáticos e econômicos. Da mesma forma, sua influência na Síria, no Cáucaso e no Mediterrâneo oriental a torna um ator decisivo para gerenciar inestabilidades que afetam diretamente a segurança europeia.

O fortalecimento turco obriga a repensar a arquitetura de segurança do continente. A Europa, pressionada por Trump para aumentar drasticamente seus gastos militares, encontra na Turquia um fornecedor potencial de sistemas acessíveis e comprovados, ao mesmo tempo que deve gerenciar uma relação complexa com um parceiro que nem sempre compartilha suas prioridades ou valores institucionais. Essa tensão entre utilidade estratégica e diferenças políticas define o novo pragmatismo atlântico.

Para os Estados Unidos, a Turquia representa um aliado capaz de projetar poder em regiões onde Washington busca aliviar seu compromisso direto sem perder influência. A competição com a China e a Rússia na Eurásia e no Ártico torna ainda mais valiosa a capacidade turca de controlar rotas críticas e contrabalançar expansões adversárias.

De uma perspectiva histórica, a ascensão da Turquia ilustra a mutação da Aliança Atlântica. Nascida na Guerra Fria como instrumento de contenção soviética, a OTAN se adapta agora a um ambiente multipolar de ameaças híbridas, onde a flexibilidade e a distribuição seletiva de responsabilidades se tornam essenciais. Ancara encarna essa adaptação: não é mais um mero bastião oriental, mas uma potência intermediária que contribui para estabilizar sua periferia e sustentar a credibilidade dissuasiva coletiva.

Naturalmente, persistem desafios. As relações com a Grécia e Chipre, a situação interna turca e as divergências ocasionais com outros aliados continuam gerando fricções. No entanto, as circunstâncias internacionais — mais do que concessões unilaterais — elevaram o valor da Turquia, convertendo essas tensões em elementos gerenciáveis dentro de um quadro de interesses compartilhados superiores.

A Cúpula de Ancara certificou essa nova realidade. Erdoğan conseguiu projetar seu país como árbitro geopolítico entre a Europa, o Oriente Médio e os Estados Unidos. Seu sucesso não foi casual, mas o resultado de uma preparação meticulosa e da convergência de fatores estruturais que favorecem o papel turco. Para a Europa, essa ascensão implica tanto uma oportunidade — maior autonomia através de uma defesa mais diversificada — quanto um desafio: aprender a conviver com um aliado poderoso cujas ambições regionais nem sempre coincidirão com as preferências europeias.

Em última análise, a Turquia ilustra a transição para uma Aliança mais europeia em suas responsabilidades convencionais, mais seletiva no compromisso americano e mais condicionada pela lógica da competição entre grandes potências. Nesse cenário fluido, Ancara não apenas participa: define o novo equilíbrio. Sua consolidação como potência emergente marca o início de uma era em que a segurança do continente dependerá cada vez mais de atores que, como a Turquia, combinam localização estratégica, capacidade industrial e pragmatismo diplomático.

A história recente demonstra que as organizações multilaterais sobrevivem adaptando-se. A OTAN está fazendo isso em Ancara, e a Turquia se ergue como um de seus principais artífices. O futuro atlântico já não poderá ser concebido sem considerar o peso decisivo dessa potência que, às margens do Bósforo, projeta influência muito além de suas fronteiras tradicionais.

Adalberto Agozino é Doutor em Ciência Política, Analista Internacional e Professor da Universidade de Buenos Aires

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