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"O Movimento Saharaui pela Paz ganha espaço na diplomacia internacional. (Adalberto Agozino)"

Por Poder & Dinero

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Durante quase meio século, o conflito do Saara permaneceu preso entre a inércia diplomática, as rivalidades regionais e a dificuldade de construir um consenso capaz de satisfazer as aspirações de estabilidade e desenvolvimento da população saharaui. As diferentes iniciativas patrocinadas pelas Nações Unidas conseguiram evitar uma escalada permanente da confrontação, mas não conseguiram transformar a prolongada trégua e as sucessivas rodadas de negociação em um acordo político definitivo.

Nesse cenário de persistente imobilidade, o surgimento e posterior consolidação do Movimento Saharaui pela Paz (MSP) constitui uma das novidades políticas mais relevantes dos últimos anos. Longe de se apresentar como um ator testemunhal, a organização conseguiu se posicionar como uma corrente política que reivindica uma solução negociada baseada no diálogo, na autogoverno e na reconciliação entre os próprios saharauis, afastando-se das lógicas de confrontação que durante décadas dominaram o conflito.

As últimas semanas parecem confirmar essa evolução. Diversos contatos mantidos por dirigentes do MSP com representantes diplomáticos ocidentais, tanto nas Nações Unidas quanto na cidade de El Aaiún, Marrocos, evidenciam que a organização deixou de ser observada como um fenômeno emergente para se tornar um interlocutor cuja opinião começa a ser considerada nos principais fóruns internacionais. Segundo a documentação divulgada pelo próprio movimento, uma delegação manteve reuniões com as missões permanentes de vários membros do Conselho de Segurança e recebeu manifestações públicas de reconhecimento por parte de representantes americanos, que definiram o MSP como uma das vozes saharauis comprometidas com a busca de uma solução duradoura.

Esse reconhecimento adquire uma dimensão política especialmente significativa porque rompe com uma percepção enraizada durante décadas segundo a qual a representação do povo saharaui descansava exclusivamente sobre um único ator político: o Frente Polisário. Sem prejulgar as posições das diferentes partes envolvidas no conflito, a evolução do cenário internacional parece refletir uma constatação cada vez mais evidente: a sociedade saharaui é hoje muito mais plural do que foi durante os anos da Guerra Fria, e essa diversidade dificilmente poderá ficar à margem de qualquer processo de negociação que aspire a consolidar uma paz duradoura.

O próprio MSP construiu boa parte de sua identidade política em torno dessa ideia. A organização sustenta que o tempo dos monopólios de representação ficou para trás e que qualquer solução sustentável deverá integrar todas aquelas sensibilidades que defendem uma saída pacífica para o conflito. Seu discurso não se orienta apenas para a obtenção de reconhecimento internacional, mas também para a construção de consensos entre os próprios saharauis, propondo o diálogo com o Frente Polisário, com a Argélia e com Marrocos como condição indispensável para alcançar um acordo definitivo.

A crescente atenção que diversos atores internacionais parecem conceder ao movimento coincide, além disso, com um renovado interesse de Washington por reativar um expediente que durante anos permaneceu relegado a um segundo plano da agenda diplomática. A sucessão de encontros mantidos entre representantes americanos e dirigentes do MSP reflete a vontade de conhecer de perto a posição de uma organização que defende explicitamente uma solução política baseada na negociação e em fórmulas de autogoverno para o Saara.

Especial relevância tem a reunião celebrada em El Aaiún entre dirigentes do movimento e o conselheiro político da Embaixada dos Estados Unidos em Marrocos. Durante esse encontro, solicitado pela representação diplomática americana, os responsáveis pelo MSP expuseram sua visão sobre o conflito, defenderam sua incorporação formal ao processo patrocinado pelas Nações Unidas e sustentaram que uma solução estável só será possível se participarem todas as forças representativas da sociedade saharaui. De acordo com a informação divulgada após a reunião, o diplomata americano avaliou positivamente o trabalho desenvolvido pela organização e expressou o interesse de Washington em impulsionar um desfecho que permita superar o prolongado estancamento político.

Além do conteúdo concreto desses encontros, o dado politicamente relevante reside na normalização da interlocução internacional com o MSP. A organização conseguiu instalar a ideia de que o futuro do Saara não poderá ser construído ignorando aqueles que defendem posições diferentes dentro do próprio universo político saharaui. Em termos diplomáticos, isso implica uma transformação substancial em relação ao paradigma dominante durante décadas.

Essa evolução é especialmente significativa porque coincide com uma crescente aceitação internacional de que o Plano de Autonomia constitui uma das bases mais realistas para alcançar uma solução mutuamente aceitável. Sem entrar nas posições particulares de cada Estado, numerosos atores internacionais têm apoiado a necessidade de explorar fórmulas pragmáticas que permitam conciliar o exercício do autogoverno com a estabilidade regional e o desenvolvimento econômico do território.

Nesse contexto, o Movimento Saharaui pela Paz surge como um ator especialmente bem posicionado para contribuir para a construção de consensos internos. Seu discurso evita a retórica maximalista e coloca ênfase na negociação política, na reconciliação e na convivência, elementos que adquirem uma importância crescente em qualquer processo contemporâneo de resolução de conflitos.

Não menos relevante é a evolução do próprio debate diplomático. Enquanto durante anos as discussões giravam fundamentalmente em torno de questões de legitimidade histórica ou representação exclusiva, a conversa internacional começa a se deslocar para aspectos relacionados com a governabilidade futura, o desenvolvimento institucional, as garantias para a população e a estabilidade do conjunto do Magrebe. Essa mudança favorece aquelas organizações capazes de formular propostas políticas viáveis e voltadas para a construção de acordos, antes do que para a perpetuação da confrontação.

Nessa perspectiva, o MSP parece ter compreendido que a legitimidade política no século XXI não depende apenas de reivindicações históricas, mas também da capacidade de oferecer soluções críveis para problemas prolongados. Sua insistência na necessidade de incorporar novas vozes ao processo negociador responde precisamente a essa lógica de ampliar os espaços de representação e reduzir a polarização que durante décadas tem dificultado qualquer avanço substancial.

Naturalmente, a consolidação do movimento como ator central não implica que as negociações vão experimentar uma resolução imediata. O conflito do Saara continua condicionado por interesses geopolíticos complexos e por posições profundamente enraizadas entre os diversos protagonistas. No entanto, a incorporação de novos interlocutores com capacidade de diálogo internacional pode contribuir para modificar gradualmente os incentivos de todas as partes e favorecer um clima mais propício para o compromisso.

A experiência comparada demonstra que os processos de paz mais duradouros costumam ser aqueles que incorporam a maior diversidade possível de atores políticos e sociais. Nesse sentido, a emergência do Movimento Saharaui pela Paz introduz um elemento de pluralidade que poderia enriquecer as negociações promovidas pelas Nações Unidas e facilitar a busca de um acordo politicamente sustentável.

Depois de décadas marcadas pelo imobilismo, o conflito do Saara parece entrar em uma fase distinta. Não porque tenham desaparecido os obstáculos que dificultam a solução, mas porque o mapa dos interlocutores começa a se transformar. Nessa nova etapa, o Movimento Saharaui pela Paz emerge como um protagonista cada vez mais visível, com uma crescente capacidade para influir na conversa diplomática internacional e para defender uma abordagem baseada no diálogo, na autonomia e na reconciliação. Se essa tendência se consolidar, qualquer arquitetura futura de paz dificilmente poderá ser construída sem contar com uma organização que conseguiu se situar no centro do debate sobre o futuro político do Saara.

Adalberto Agozino é Doutor em Ciência Política, Analista Internacional e Docente da Universidade de Buenos Aires

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