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O Sol sob a sombra: A mulher que governou a França a partir de um reclinatário

Por Jazmín Abdala

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A França do Rei Sol não era um país; era um cenário de teatro onde cada gesto, desde a forma de segurar uma taça até a profundidade de uma reverência, determinava a vida ou a morte civil. Neste ecossistema de excessos, onde o ouro revestia até os toaletes e o orgulho era medido pela proximidade ao monarca, a figura de Françoise d’Aubigné emerge não como uma peça a mais do mobiliário de Versalhes, mas como uma anomalia sistêmica. Sua figura redesenhou o código genético da monarquia em um momento em que a nação estava esgotada pelas guerras e a aristocracia vivia em uma jaula de ouro, sob um sol implacável que começava a arder com o fogo do fanatismo.

Para entender essa época, é preciso senti-la. Versalhes, no auge de sua glória, fedia a uma mistura de perfumes densos de jasmim e almíscar que tentavam, em vão, ocultar o fedor da falta de higiene e as águas paradas das fontes. Os corredores eram um desfile de sedas pesadas e rendas de Chantilly que custavam o salário anual de uma aldeia inteira. Os homens usavam perucas tão altas que precisavam se abaixar para cruzar os limiares, empoadas com farinha enquanto o povo simples morria de fome por falta de pão. As mulheres se apertavam em espartilhos de baleia que as impediam de respirar fundo, um lembrete físico de que na corte a aparência era a única liberdade permitida e o corpo era um território político.

Françoise d’Aubigné nasceu no extremo oposto desse espectro. Seu primeiro contato com o mundo não foi a seda, mas a pedra úmida da prisão de Niort. Filha de um aristocrata caído em desgraça, um falsificador e assassino que dilapidou a herança de um avô poeta, Françoise aprendeu cedo que o sobrenome é um fardo se não há ouro que o sustente. Da cela passou para a cobertura de um barco rumo às Antilhas. Na Martinica, sob um sol que não perdoava a nobreza, a "Bela Indiana" viu como a natureza selvagem ignorava os protocolos europeus. Ali, entre indígenas e plantações fracassadas, forjou-se uma resiliência que as damas de Versalhes, criadas entre algodões, jamais poderiam compreender. Quando retornou à França, órfã e mendigando comida nas ruas de La Rochelle, trazia consigo o segredo mais bem guardado do poder: a capacidade de ser invisível para poder observar.

Essa observação a levou aos salões literários de Paris, a verdadeira internet do século XVII. Casou-se com Paul Scarron, um gênio literário cujo corpo estava tão deformado pela doença que parecia um nó humano. Neste casamento, que muitos viam como um sacrifício, Françoise obteve seu doutorado em influência. Enquanto cuidava de um marido que não podia se mover, ela se tornou a animadora de uma tertúlia onde se polia o francês que hoje conhecemos. Aprendeu que a palavra exata é mais letal que uma espada. Nesses salões se gestava a resistência intelectual contra a rigidez católica, e ela, astuta, navegava entre a boemia e a devoção, construindo uma rede de contatos que incluía a própria Madame de Montespan, a favorita oficial do rei Luís XIV.

Montespan era o Barroco em sua máxima expressão: carnal, barulhenta, adornada e propensa a cenas de ciúmes que faziam tremer as paredes de cristal. Quando contratou Françoise como preceptora de seus filhos bastardos, não sabia que estava trazendo para seu leito o cavalo de Troia que destruiria seu reinado. Françoise introduziu na corte uma ruptura estética e política: o rigor. Enquanto as outras amantes se cobriam de diamantes para chamar a atenção do Rei, ela escolheu o veludo escuro e a mantilha de renda preta. Não era humildade, era uma declaração de guerra cultural. Ao se vestir como uma devota, estava enviando uma mensagem subliminar ao monarca: "Eu sou a paz que sua consciência precisa, não o pecado que seu corpo deseja".

O momento econômico da França era uma paradoxa sanguinolenta. Enquanto no Salão dos Espelhos se serviam banquetes em louças de prata líquida, fora das grades douradas as fomes ceifavam províncias inteiras. O sistema de Luís XIV consistia em domesticar a nobreza obrigando-a a viver no palácio, gastando fortunas em trajes e apostas para que não tivessem tempo nem dinheiro para conspirar em seus castelos. O absolutismo se financiava com a asfixia do campesinato. Françoise, que havia sentido o frio da mendicância, entendeu que esse sistema era insustentável se não lhe fosse dada uma finalidade moral. Sua influência não foi apenas romântica, foi uma auditoria espiritual do Estado.

Luís XIV, o homem que se acreditava o centro do universo, estava envelhecendo. As feridas da guerra e os excessos da juventude começavam a cobrar seu preço. Buscava refúgio, e o encontrou no reclinável de Françoise. Ela não pedia títulos nobiliárquicos para sua família; pedia a salvação de sua alma. Essa dinâmica transformou Versalhes. O palácio deixou de ser um bordel de luxo para se tornar um mosteiro de poder. As festas galantes foram substituídas por missas; os decotes se fecharam e o silêncio tornou-se a nova etiqueta. A noite do 9 ao 10 de outubro de 1683, apenas três meses após a morte da rainha Maria Teresa, o Rei Sol se casou em segredo com a neta do preso. Ela passou a ser Madame de Maintenon, a rainha sem coroa.

Seu poder era exercido na penumbra, naquele espaço entre o quarto e o gabinete de trabalho. Enquanto o Rei recebia os ministros em sessões oficiais, ela tecia em uma cadeira de respaldo baixo, aparentemente absorta em sua tarefa de costura. Mas quando os ministros se retiravam, era ela quem analisava os relatórios. Seu ascenso explica a transição do absolutismo da glória para o Absolutismo do controle. Ela foi a arquiteta de uma nova ordem onde a religião se tornou uma ferramenta de unificação nacional. A ela se atribui um papel fundamental na Revogação do Édito de Nantes, uma decisão desastrosa que proibiu o protestantismo e provocou o êxodo dos cerebros mais brilhantes da França. Para Maintenon, a unidade da fé era a única garantia da unidade do trono. Não era fanatismo cego; era engenharia social.

Através dela podemos desmembrar a política externa do final do século. A Guerra de Sucessão Espanhola, que desangrou a Europa, foi o último grande pulso deste casal. Maintenon impulsionou a ideia de que a França deveria dominar o continente através da herança dos Bourbon na Espanha. O custo foi uma miséria atroz para o povo francês, mas na bolha de Versalhes, ela mantinha o Rei convencido de que seu sacrifício era pela maior glória de Deus. Ela não apenas governava os sentimentos do monarca; governava os mapas das embaixadas.

No entanto, seu legado mais duradouro não foi uma guerra, mas uma escola: Saint-Cyr. Ali, Françoise fundou a "Maison royale de Saint-Louis" para meninas da nobreza pobre. Foi sua forma de se replicar. Elas aprenderam que uma mulher sem fortuna só possui duas armas: sua virtude e sua linguagem. Em Saint-Cyr falava-se o francês mais puro da Europa. Ela compreendeu que a linguagem é a base da cultura e da diplomacia; se você conseguir que toda a elite fale com a mesma elegância e precisão, criou um padrão de civilização que ninguém poderá ignorar. As jovens de Saint-Cyr saíam preparadas para administrar lares ou conventos com uma disciplina que era, em essência, a disciplina de um Estado centralizado.

Perto do final de seus dias, a sombra de Maintenon era tão longa que até os filhos legítimos do rei a temiam. Os cortesãos a chamavam de "A Bruxa" ou "Madame de Tudo", ressentidos porque uma mulher de origem incerta lhes ditava como deviam se comportar diante de Deus. Mas ela nunca perdeu a compostura. Sua vida foi uma performance de autocontrole. Quando Luís XIV morreu em 1715, ela não ficou para reivindicar uma regência. Retirou-se para Saint-Cyr, o único lugar onde se sentia verdadeiramente a dona de sua obra.

O fechamento dessa história é o sussurro de uma mulher que, ao sentir a morte próxima aos 83 anos, ordenou que queimassem suas cartas. Foi seu último ato de soberania. Destruiu as provas de seu amor, de sua ambição e de suas dúvidas, deixando aos historiadores apenas os fatos públicos de seu mandato na sombra. Françoise d’Aubigné não quis que a posteridade a visse como uma esposa vulnerável, mas preferiu que a lembrássemos como um enigma de poder.

Morreu cercada das meninas a quem ensinou que o silêncio e a palavra refinada são as ferramentas dos sobreviventes. Foi a mendiga que arrancou a vontade do monarca mais absoluto, a mulher que usou o rosário para guiar os canhões da França. No final, ela não apenas conquistou Luís XIV; ela sequestrou o ocaso de um século e o forçou a se ajoelhar, deixando um legado de rigor e ordem que a Revolução, décadas mais tarde, chegaria para tentar destruir, ignorando que as cabeças que cortariam haviam sido educadas, precisamente, sob a linguagem de distinção que ela tanto se esforçou para criar. Françoise foi, em última análise, a mulher que demonstrou que na política dos reis, a sombra tende a ser mais poderosa que o sol.


Bibliografia:

  • Fontes Históricas (Primárias) Saint-Simon, Duque de. Memórias (Vol. I e II). É a fonte principal do "ódio" contra ela. Suas descrições sensoriais da corte são fundamentais para sua narrativa.

  • Sévigné, Madame de. Cartas. Oferece a visão dos salões parisianos e a percepção de Françoise antes de ser marquesa.

  • Maintenon, Madame de. Correspondência selecionada. Embora tenha queimado muitas, as que sobrevivem (especialmente as enviadas às suas alunas de Saint-Cyr) revelam seu pensamento educacional e religioso.

  • Biografias e Análises Modernas Buckley, Verônica. Madame de Maintenon: A Esposa Secreta de Luís XIV. É uma das biografias mais completas que explora seu ascenso a partir da pobreza.

  • Fraser, Antonia. Amor e Luís XIV: As Mulheres na Vida do Rei Sol. Ideal para entender a transição política entre a amante Montespan e a esposa Maintenon.

  • Bryant, Mark. Rainha da Sombra: Madame de Maintenon. Este livro é chave para a análise do poder político real que ela exerceu nos conselhos de guerra.

  • Castiella, Anabel. A Marquesa de Maintenon: Uma Mulher na Corte do Rei Sol. Uma perspectiva em espanhol sobre sua influência cultural e seu legado em Saint-Cyr.

  • Artigos e Ensaios National Geographic História. Madame de Maintenon, a esposa secreta de Luís XIV. Útil para a estrutura do "ascenso social".

  • Girondin, Micaël. Madame de Maintenon: História e influência na corte francesa (2025). Excelente para a análise do legado lingüístico e educacional.

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Jazmín Abdala

Jazmín Abdala

Jornalismo em estado de pergunta. Política e literatura como territórios de disputa. Entre livros e conjunturas, escrevo o que incomoda para ler a realidade. Desde Buenos Aires, Argentina, o berço das contradições.

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