As guerras, uma das principais “regularidades" na história da humanidade, sempre concentram a atenção e inquietação das pessoas, muito mais atualmente devido ao imenso fenômeno da globalização e da conectividade.
O impacto que provocam as confrontações em um tempo de tantos avanços cria uma situação de cotidianidade em relação à incerteza dos desfechos ou cursos de um fenômeno social que o general francês André Beaufre (1902-1975) definiu com clareza meridiana: "a arte da dialética das vontades que empregam a força para resolver seu conflito", ou seja, a guerra não é apenas a aplicação da força, mas um choque intelectual entre vontades opostas.
Essa velha definição do autor de “Introdução à estratégia”, “Disuasão e estratégia”, entre outros, se aplica às guerras do século XXI ou "novas guerras" e também às guerras por vir, pois não esqueçamos que a última guerra sempre será a próxima guerra, ressaltando, com isso, o caráter regular da mesma, mesmo em tempos comerciais e tecnológicos profusos que, teoricamente, deveriam inibir a guerra.
Pertinentes são aqui as reflexões de outro francês, o polemólogo Gastón Bouthoul (1896-1980), que sustentava que a proposição de políticos e especialistas relativa a terminar com as guerras por meio da renúncia a elas, como se tentou na década de 1920 com o Pacto Briand-Kellogg, assinado em agosto de 1927 em Paris, era semelhante à tentativa dos médicos de pôr fim às doenças por meio de sua renúncia a elas.
Para completar estas linhas não podemos deixar de citar Raymond Aron (1905-1983), que nos oferece em “Paz e guerra entre as nações” uma magnífica síntese sobre o fenômeno da guerra, particularmente em relação ao futuro da mesma: “A guerra é de todos os tempos históricos e de todas as civilizações. Com machados ou canhões, com flechas ou balas, com explosivos químicos ou reações atômicas em cadeia; de longe ou de perto, isoladamente ou em massa, ao acaso ou de acordo com um método rigoroso, os homens se mataram uns aos outros, utilizando os instrumentos que o hábito e o saber das coletividades lhes oferecem”.
Bem, considerando a guerra atual na grande placa geopolítica e geoeconômica do Oriente Médio/Golfo Pérsico, poderíamos refletir mais especificamente sobre a situação observando brevemente algumas velhas estratégias.
Por exemplo, o general suíço Antoine-Henri Jomini (1779-1869), muito seguido por Napoleão em suas campanhas militares, sustentava a vantagem praticamente decisiva que implicava na guerra atingir o que ele denominava o "centro de gravidade" do oponente, neste caso, Irã.
Esse centro no caso da potência média do Golfo Pérsico é constituído pelo programa nuclear e as capacidades convencionais, ou seja, não apenas as armas convencionais, mas os centros de produção de armamento e equipamentos e a infraestrutura para fabricação de mísseis e drones.
De acordo com informes seletivos americanos, Estados Unidos e Israel não destruíram a totalidade das capacidades nucleares e convencionais do Irã, mas as "degradaram" consideravelmente, e até conseguiram se aproximar da totalidade, por exemplo, ambos os países teriam destruído mais de 85 por cento dos sistemas de defesa antiaérea do Irã, fato que explicaria as missões no espaço aéreo iraniano dos bombardeiros B-52. Assim, teriam sido destruídos mais de 150 navios pertencentes ao Exército e ao Corpo da Guarda Revolucionária.
Em relação ao temido programa nuclear iraniano, a destruição de boa parte do mesmo foi alcançada na missão de punição de junho de 2025; por exemplo, as plantas de Natanz e Fordow ficaram praticamente inoperáveis. Contudo, o Irã conserva importantes reservas de urânio, como reconheceu recentemente o Diretor Geral da OIEA, Rafael Grossi.
Jomini diria que uma operação sobre o centro de gravidade do oponente se completaria com a captura da capital. Mas talvez esse propósito correspondesse mais ao tipo de guerra e operações de sua época do que à realidade atual.
Neste ponto, as recomendações do militar prussiano Karl von Clausewitz (1780-1831) são extremamente pertinentes.
Para este pensador, autor de textos militares chave como “Da guerra” e “A campanha de 1812 na Rússia”, é de suma importância não exceder os limites da vitória ou decisão na guerra. Embora possa ser forte a tentação de continuar até a destruição total do oponente, isso acarreta um risco que poderia comprometer a decisão.
Essa diretriz foi muito bem aplicada na guerra com o Iraque em 1991. Então, o poder político americano determinou que o objetivo era apenas expulsar o Iraque do território do Kuwait.
Na guerra seguinte com o Iraque, em 2003, o objetivo foi acabar com o regime, apoiando-se para isso em duas premissas totalmente falsas. As consequências principalmente regionais do desmantelamento do Estado do Iraque foram tremendas e se estendem até hoje.
No Irã, uma campanha terrestre por parte dos Estados Unidos poderia abrir uma Caixa de Pandora, pois não se trata apenas de um território difícil, mas que entrariam em ação aqueles corpos iranianos preparados para o combate terrestre sustentado e a defesa territorial, ou seja, as forças armadas convencionais conhecidas como Artesh; também o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (CGRI), embora essa força esteja mais orientada ao ataque estratégico e à escalada.
Segundo o especialista Andrew Davidson, o Artesh conta com aproximadamente 350.000 efetivos, frente aos quase 200.000 do CGRI, “mas o CGRI domina como se molda o conflito através do controle das forças de mísseis, das vias de escalada e da tomada de decisões estratégicas. Esse papel é reforçado por sua posição formal dentro da estrutura política e econômica do Irã, onde exerce influência em setores chave como telecomunicações, energia e indústria de defesa, assim como no programa nuclear.
Um cenário de invasão terrestre ao Irã nos remete uma vez mais ao general André Beaufre quando este especialista se refere aos problemas que enfrenta um corpo expedicionário em um ambiente altamente hostil. Cabe recordar aqui que os Estados Unidos não possuem resultados muito favoráveis em matéria de intervenções terrestres, e isso pode ser explicado a partir dos problemas que enfrenta o país invasor se não alcançar prontamente a capitulação do ator invadido.
Além disso, uma invasão terrestre poderia se fundar em uma premissa que pode finalmente não ser tal: que a população maior ou massivamente a apoiará, de modo que só restará a luta entre forças invasoras e forças do regime.
Em países com forte acervo ideológico ou confessional, o automatismo de apoio nativo ao corpo expedicionário tende a não ocorrer como se esperava, situação que, como avisa o general francês, começa a criar problemas ao cada vez mais massivo corpo invasor.
Concluindo, as “velhas estratégias” mantêm enorme vigência nas “guerras modernas”. Na confrontação atual que ocorre no Oriente Médio-Golfo Pérsico podem ser apreciadas, se bem que até hoje não houve uma vitória categórica por parte dos Estados Unidos e Israel.
A vitória lá implica “degradação” das capacidades militares iranianas, e, a partir dessa consideração, os resultados são consideráveis. Mas também é importante não perder de vista a resiliência estratégica do Irã: apesar da estratégia de decapitação levada a cabo pelos Estados Unidos e Israel, o regime não foi aniquilado nem está ocorrendo uma revolução popular, o que não quer dizer que não possam ocorrer sérios problemas de governabilidade.
Por isso, é possível que no estado em que se encontra o Irã quase não haja margem para que o regime decida levar adiante concessões em matéria nuclear e convencional em troca de assistência para reparar a infraestrutura econômica. É o que se espera de um governo liderado por pragmáticos.
No entanto, esse cenário “otimista” não elimina a possibilidade de que o Irã abandone sua estratégia de guerra assimétrica de alcance regional e global, “apenas” uma das alternativas que possui Teerã para continuar a guerra sem espaço nem tempo.
O autor é Doutor em Relações Internacionais (summa cum laude, USAL). Pós-graduação em Controle e Gestão de Políticas Públicas. Professor Titular de Geopolítica na Escola Superior de Guerra Aérea. Ex-professor na UBA. Foi Diretor do Ciclo Eurasia na Universidade Aberta Interamericana. Diretor do meio Equilibrium Global. Colunista e colaborador em revistas especializadas nacionais e internacionais. Autor dos livros "A política externa russa depois da guerra fria", "A Grande Perturbação" e "A Geopolítica nunca se foi".

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