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"O relógio da guerra: por que o tempo pode se tornar o maior inimigo político de Donald Trump (Adalberto Agozino)"

Por Poder & Dinero

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A história demonstra que as grandes potências costumam entrar nos conflitos convencidas de que poderão controlar tanto sua duração quanto seus custos. No entanto, com frequência descobrem que o fator decisivo não reside exclusivamente na superioridade militar, mas na capacidade  política e econômica para sustentar campanhas prolongadas. Nesse sentido, diversos especialistas consideram que a Administração Trump poderia se encontrar diante de um cenário em que o tempo se tornou um recurso estratégico tão importante quanto os porta-aviões, os bombardeiros ou os sistemas de defesa antiaérea.

A evolução do conflito no Oriente Médio modificou substancialmente as prioridades estratégicas de Washington. O que inicialmente parecia uma operação destinada a degradar as capacidades militares iranianas evoluiu, segundo numerosos observadores, para um enfrentamento regional muito mais complexo, onde convergem interesses de atores estatais e não estatais, ameaças às principais rotas marítimas internacionais e uma crescente incerteza sobre a estabilidade energética mundial.

Sob essa perspectiva, o principal problema para a Casa Branca não seria unicamente militar, mas político. Cada semana adicional de operações aumenta a probabilidade de que a inflação energética volte a se instalar na economia americana. Para qualquer administração americana, mas especialmente para uma que enfrenta eleições decisivas, o preço da gasolina constitui um dos indicadores mais sensíveis do humor do eleitorado.

Embora o preço internacional do petróleo flutue diariamente com base nas expectativas dos mercados, numerosos analistas concordam que o verdadeiro gargalo continua a ser o estreito de Ormuz. Por essa via marítima transita uma parte substancial do comércio mundial de hidrocarbonetos e uma interrupção prolongada —ou mesmo a mera percepção de insegurança— pode repercutir imediatamente sobre os seguros marítimos, os custos logísticos e os preços finais da energia. O aumento das primas de seguro, por sua vez, adquiriu uma dinâmica própria que influencia tanto quanto o próprio preço do petróleo.

Vários economistas alertam que essa situação poderia gerar um fenômeno particularmente delicado para as economias ocidentais: uma combinação de crescimento fraco com inflação persistente, ou seja, um processo de estagflação semelhante ao observado após as crises do petróleo na década de setenta. Se esse cenário se consolidar, a pressão política sobre Washington aumentaria consideravelmente, uma vez que boa parte de seus aliados europeus e asiáticos depende igualmente da estabilidade do comércio energético internacional.

Política

As dificuldades não terminam no âmbito econômico. Outra das preocupações que surgem em diversos centros de estudos estratégicos se refere ao consumo acelerado de munições de alta tecnologia por parte dos Estados Unidos. Diversas informações indicam que a defesa contra os ataques iranianos estaria exigindo um uso intensivo de interceptores THAAD, Patriot e Standard, cuja produção industrial requer anos para repor os estoques utilizados. Segundo essa interpretação, o verdadeiro problema não seria a disponibilidade de aviões ou navios de guerra, mas a limitada capacidade da indústria americana para reconstruir rapidamente os inventários de determinados sistemas críticos.

Embora os números concretos sobre estoques e custos sejam diferentes entre diferentes fontes e não exista confirmação oficial sobre vários desses extremos, numerosos especialistas concordam em um ponto: as guerras modernas consomem recursos industriais com uma velocidade muito superior à capacidade de produção em tempos de paz. Essa circunstância obriga o Pentágono a administrar simultaneamente as necessidades decorrentes do Oriente Médio, o apoio militar à Ucrânia e a dissuasão no Indo-Pacífico.

A situação ganha uma dimensão ainda mais complexa quando se analisa o contexto geopolítico global. Alguns analistas ocidentais levantaram a hipótese de que a Rússia e a China poderiam estar prestando diferentes tipos de apoio indireto ao Irã. Entre as possibilidades mencionadas figuram desde a troca de informações de inteligência até o fornecimento de componentes industriais de duplo uso passíveis de serem incorporados a programas militares iranianos. No entanto, é importante sublinhar que essas hipóteses continuam sendo objeto de debate e que não há evidência pública conclusiva que permita afirmar que Moscou ou Pequim estejam participando diretamente na condução de ataques concretos contra forças americanas.

De qualquer forma, sob um ponto de vista estratégico, alguns especialistas consideram que tanto a Rússia quanto a China poderiam se beneficiar indiretamente de uma prolongação do conflito. Moscovo obteria uma diminuição da pressão ocidental sobre a guerra na Ucrânia e obrigaria os Estados Unidos a distribuir seus recursos militares entre vários teatros de operações. Pequim, por sua vez, observaria atentamente o comportamento da logística americana, a capacidade de sua indústria de defesa e a resposta  política de Washington diante de conflitos simultâneos.

Outra consequência potencial seria o desgaste progressivo do sistema de alianças ocidentais. As economias europeias, Japão, Coreia do Sul e outros aliados dependem de cadeias logísticas globais extremamente sensíveis ao aumento dos custos energéticos. Se a guerra continuar a afetar o comércio marítimo e manter altos os preços do petróleo e do gás, poderão surgir divergências entre os aliados sobre o custo  político e  econômico de manter uma estratégia de confrontação prolongada.

Política

No plano doméstico, vários analistas sustentam que a principal ameaça para a Administração Trump não provém necessariamente do campo de batalha, mas do calendário eleitoral. Diversas  pesquisas que refletem um deterioro nos índices de aprovação presidencial e uma vantagem democrata na intenção de voto para as eleições legislativas, embora esses dados correspondam a um cenário determinado e devam ser interpretados com cautela.

A importância das eleições de meio mandato reside no fato de que uma eventual perda do controle do Congresso poderia limitar significativamente a margem de manobra do presidente em matéria de política externa. A Constituição americana atribui ao Congresso amplas competências orçamentárias e de supervisão, o que permitiria condicionar o ritmo de financiamento de determinadas operações militares ou exigir maiores controles sobre futuras intervenções.

Sob essa ótica, alguns observadores sustentam que uma maioria legislativa hostil poderia favorecer uma política externa mais prudente e menos propensa ao uso direto da força militar. Outros, por sua vez, consideram que mesmo com um Congresso adverso o presidente manteria importantes poderes como comandante-em-chefe. O alcance real dessas limitações dependeria, em caso de necessidade, do equilíbrio político que surgisse das urnas e da disposição de ambos os partidos para alcançar acordos.

A incerteza também projeta seus efeitos sobre o futuro do Partido Republicano. Uma prolongação do conflito que coincidisse com um agravamento econômico interno poderia afetar não só o desfecho das eleições legislativas, mas também o posicionamento do partido em relação à próxima eleição presidencial. Na política americana, guerras longas raramente são avaliadas exclusivamente por seus resultados militares; costumam ser medidas também por seu custo econômico, sua duração e seu impacto sobre a vida cotidiana dos cidadãos.

Em definitiva, a evolução do conflito no Oriente Médio tornou o tempo um fator estratégico de primeira ordem. Se a situação conseguir se estabilizar antes de novembro, a Administração Trump poderá apresentar uma narrativa baseada na restauração da segurança regional e na recuperação econômica. Se, ao contrário, persistirem a volatilidade energética, a incerteza comercial e o alto custo das operações militares, a guerra corre o risco de se transformar em um problema político interno de grande magnitude.

Como ocorreu em outras etapas da história contemporânea, as campanhas militares podem se decidir tanto nas frentes de combate quanto nos mercados, nos parlamentos e nas urnas. No caso americano, o desfecho dependerá de se a Casa Branca conseguir demonstrar que o custo da guerra produz benefícios estratégicos superiores aos seus crescentes custos econômicos e políticos. Essa é, provavelmente, a verdadeira batalha que hoje trava a presidência de Donald Trump.

Adalberto Agozino é Doutor em Ciência Política, Analista Internacional e Professor na Universidade de Buenos Aires

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