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Fecham o Helicoide e abre-se um debate internacional: a sociedade preferirá ONGs ou pragmatismo militar?

Por Julian Galeano

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O Helicoide, um edifício brutalista em Caracas que inicialmente foi concebido como um centro comercial, se transformou desde o início dos anos 80 na sede do Serviço Bolivariano de Inteligência (SEBIN) e em um dos centros de detenção mais infames da Venezuela. Desde então, ativistas, prisioneiros liberados e organizações de direitos humanos testemunharam que em seu interior foram praticadas torturas, maus-tratos, condições desumanas e isolamento extremo de detidos políticos.

Os testemunhos se multiplicaram especialmente após as protestas massivas de 2014 e 2017, quando milhares de manifestantes antigovernamentais foram detidos arbitrariamente.

Relatórios internacionais que documentam violações graves

a) Relatório da ONU — 2019-2022

A Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Michelle Bachelet, apresentou entre 2019 e 2022 vários relatórios sobre a Venezuela. Neles foram denunciadas execuções extrajudiciais de milhares de pessoas, detenções arbitrárias, torturas e a estratégia de criminalização da oposição e dos críticos do governo, tanto dentro quanto fora do Helicoide.

O Conselho de Direitos Humanos da ONU endossou esses documentos, o que levou à abertura da Missão Internacional Independente de determinação dos fatos sobre a Venezuela.

b) Missões das Nações Unidas — 2022

Em setembro de 2022, uma missão da ONU concluiu que os abusos cometidos pelos órgãos de inteligência venezuelanos, incluindo atos de tortura, violência sexual, desaparecimentos forçados e repressão sistemática, “podem equivaler a crimes contra a humanidade”.

c) Anistia Internacional e outros organismos

A Anistia Internacional, em seu relatório de 2025, afirmou que os atos de desaparecimento forçado, tortura e repressão fazem parte de uma política estatal sistemática de ataques contra a população civil desde pelo menos 2014, o que enquadra esses fatos como crimes sob o direito internacional.

d) Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH)

A CIDH apresentou casos relativos a detenções arbitrárias, torturas e solicitações de visita in loco ao Helicoide diante da Corte Interamericana de Direitos Humanos, evidenciando a continuidade dos mecanismos de repressão na Venezuela.

A burocracia internacional ou a prática pragmática dos Estados?

O progresso concreto em sanções internacionais ou em transformações jurídicas dentro da Venezuela tem sido limitado. O próprio Tribunal Penal Internacional fechou seu escritório em Caracas em 2025, citando a falta de cooperação real por parte do regime e escassos avanços verificáveis sobre a responsabilidade.

Aqui surge uma pergunta crucial para entender a política global frente a crimes de Estado:

É mais útil o trabalho “burocrático” das Nações Unidas e cortes multilaterais, que documentam, relatam e recomendam, ou a intervenção pragmática e direta de Estados poderosos que atuam com decisão — embora também motivados por interesses geopolíticos e econômicos — como motor de mudança?

Um exemplo paradigmático neste debate é a intervenção de governos como o dos Estados Unidos, cuja pressão — às vezes acompanhada de ações de força ou condicionamentos econômicos — teve impactos mais tangíveis na libertação de prisioneiros políticos ou na desarticulação de estruturas repressivas do que as exortações ou recomendações de organismos multilaterais. No caso recente do Helicoide, depois que o ditador Nicolás Maduro foi capturado e detido em Nova York, começou na Venezuela uma mudança dentro do regime, onde tiveram que acatar uma série de condições por parte dos Estados Unidos. Entre elas estão condições econômicas, como a autorização para privatizar o petróleo, e nas últimas horas o fechamento definitivo do Helicoide acompanhado da libertação de prisioneiros políticos.

Um dilema global no século XXI

A existência de relatórios abundantes e fundamentados sobre violações graves de direitos humanos contrasta com a percepção de lentidão ou ineficácia de muitos mecanismos internacionais para transformar essas denúncias em justiça efetiva dentro dos países que as cometem.

Enquanto isso, atores estatais com poder militar ou diplomático — embora também motivados por cálculos próprios — podem obter resultados distintos, rápidos e concretos.

Esse choque entre legalidade internacional e pragmatismo geopolítico ainda configura um dos dilemas mais relevantes da política internacional contemporânea, especialmente em cenários onde a vida e a liberdade de milhares de pessoas estão em jogo.

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Julian Galeano

Julian Galeano

Sou um comunicador especializado em estratégias digitais e produção de conteúdo político. Na minha adolescência, me formei no mundo do rádio e me graduei como Locutor no I.S.E.R., onde aprofundei em narração, oratória e construção de mensagens. Trabalhei como assessor de dirigentes e equipes em campanhas eleitorais, comunicação estratégica e posicionamento digital. Atualmente, dirijo a Praset, empresa dedicada à comunicação digital, e coordeno editorialmente a PoliticAnalizada.

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