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Título: O gelo na balança: O cerco constante à Lei dos Glaciares

Por Mila Zurbriggen Schaller

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O ponto de atrito: O ambiente periglacial

Embora ninguém ouse questionar a proteção do glaciar "branco" (a massa de gelo visível), a verdadeira batalha política e legal se trava no ambiente periglacial. São solos congelados que contêm gelo saturado, atuando como reservas hídricas críticas em áreas áridas. Grande parte dos depósitos metalíferos mais cobiçados da Cordilheira dos Andes estão precisamente sob esse solo. Para a indústria, o periglacial é um obstáculo geográfico; para o ecossistema, é a garantia de água em períodos de seca.

Crítica à implementação: Um inventário a conta-gotas

O maior calcanhar de Aquiles da lei tem sido sua execução. O Inventário Nacional de Glaciares, embora finalizado pelo IANIGLA, foi alvo de constantes judicializações por parte de províncias mineradoras e empresas que buscavam redefinir o que é e o que não é um glaciar para "liberar" áreas de exploração. A demora na aplicação efetiva permitiu que projetos mineradores em áreas duvidosas continuassem operando, funcionando em um vazio de controle.

Ameaças atuais e retrocessos

Nos últimos tempos, o espírito da lei enfrentou tentativas de reforma que buscam "flexibilizar" as definições técnicas. Sob o argumento de atrair investimentos e fomentar o desenvolvimento econômico, propõe-se reduzir a proteção apenas a glaciares de grande porte ou que tenham um aporte hídrico "demonstrado" e "relevante". Essa lógica é perigosa. A ciência alerta que, no contexto global, os glaciares pequenos são os mais vulneráveis e, muitas vezes, os primeiros a desaparecer, afetando o microclima e a umidade do solo de forma irreversível.


Mineração a Céu Aberto: O impacto direto


A mineração metalífera na cordilheira não é uma atividade de baixo impacto. Para extrair alguns gramas de ouro ou cobre por tonelada, é necessário remover volumes massivos de rocha. Em áreas glaciares e periglaciares, isso gera três problemas críticos:

  • Destruição do "permafrost": Ao remover o solo em ambiente periglacial, destrói-se a camada de solo congelado que retém a água. Uma vez que esse gelo derrete devido à remoção de terra, o ecossistema perde sua capacidade de regular a água para os vales baixos.

  • O pó atmosférico: O trânsito de máquinas pesadas e as explosões geram nuvens de poeira. Quando esse pó se assenta sobre o gelo branco, diminui o albedo (a capacidade da neve de refletir a luz solar). O gelo torna-se mais escuro, absorve mais calor e derrete muito mais rápido.

  • Drenagem Ácida de Rocha (DAR): Ao remover rochas que estavam sob a terra, estas entram em contato com o oxigênio e a água de derretimento, gerando ácidos que podem contaminar as bacias hídricas que nascem precisamente nesses glaciares.

O Inventário Nacional de Glaciares (ING), coordenado pelo IANIGLA, não é apenas um mapa; é um documento legal. Se uma área está no inventário, é intocável.

O debate sobre o "tamanho"

Um dos pontos mais criticados pelos setores pró-mineração é que o inventário inclui corpos de gelo de até 0,1 hectares (uma superfície pequena, semelhante a um terço de um campo de futebol).

  • A postura mineradora: Argumentam que proteger "manchinhas de gelo" tão pequenas impede projetos de bilhões de dólares sem um benefício hídrico real.

  • A postura científica: Sustenta que a soma de milhares de pequenos corpos de gelo e solo congelado é o que mantém os rios vivos em províncias áridas como San Juan, Mendoza ou Catamarca. Eliminar os pequenos é, gota a gota, secar a bacia.

Por que é tão difícil fiscalizar?

Aqui entra a crítica à gestão política. Embora a lei exista e o inventário também, a fiscalização é fraca por duas razões:

Jurisdicionais: Os recursos naturais são das províncias (por Constituição), mas a lei é nacional. Isso gera um choque constante onde as províncias mineradoras sentem que a Nação "as oprime".

Falta de orçamento: Monitorar glaciares a 4.000 metros de altura requer tecnologia, helicópteros e pessoal especializado. Sem fundos, a lei é um "tigre de papel".

Dado chave: Projetos emblemáticos como Pascua-Lama (parado no Chile, mas com impacto na Argentina) e Veladero têm estado no olho do furacão precisamente por sua proximidade ou sobreposição com áreas que o inventário define como protegidas.




Para onde estamos indo?

Após um debate de mais de dez horas e no âmbito das sessões extraordinárias, o projeto impulsionado pelo governo (La Libertad Avanza) obteve aprovação com 40 votos a favor, 31 contra e 1 abstenção.

O que mais chamou a atenção politicamente foi a ruptura dos blocos tradicionais:

  • Aliados estratégicos: O governo contou com o apoio de setores do PRO e, fundamentalmente, de senadores do PJ vinculados a províncias mineradoras (como San Juan e Catamarca).

  • O argumento do "Federalismo": Os defensores da mudança, como os governadores da mesa do lítio e do cobre, sustentaram que a lei atual é "centralista" e que as províncias devem recuperar o poder sobre seus recursos naturais.

O que mudou exatamente? (O cerne da nota crítica)

A reforma aprovada no Senado não revoga a lei, mas perfuza seu coração técnico. Os pontos-chave são:

  • Reclassificação do Ambiente Periglacial: Foi introduzida uma diferenciação entre áreas periglaciais com "função hídrica demonstrada" e aquelas que não a têm. Isso permite que, se um estudo financiado (muitas vezes pela própria mineradora) disser que aquele solo congelado não aporta água "relevante" à bacia, ele possa ser dinamitado.

  • Fim da Proibição Absoluta: Passamos de uma lógica de "orçamentos mínimos" (um piso de proteção nacional) para uma lógica onde as províncias têm mais margem para decidir quais áreas são explotáveis.

  • O fator RIGI: Esta reforma está intimamente ligada ao Regime de Incentivo a Grandes Investimentos (RIGI). Sem a mudança na Lei dos Glaciares, vários projetos de cobre e ouro em escala mundial (como Vicuña em San Juan) não poderiam avançar legalmente.

Etapa Política: O que vem a seguir?

A lei ainda não está em vigor; agora a bola passa para a Câmara dos Deputados.

  • A batalha parlamentar: Espera-se que na Câmara dos Deputados a resistência seja maior. Os blocos ambientalistas e a oposição mais dura tentarão bloquear o quórum ou introduzir modificações que devolvam o projeto ao Senado.

  • Pressão social: Organizações como a Associação de Advogados Ambientalistas e assembleias cidadãs já declararam "estado de alerta", argumentando que esta reforma é inconstitucional porque viola o princípio de "não regressão" ambiental (uma lei não pode proteger menos que a anterior).

Estamos diante de uma "mercantilização" do critério científico. Ao subordinar a proteção de um glaciar à sua "relevância econômica" atual, o Senado ignorou que o ciclo da água não entende de balanços contábeis nem de fechamentos fiscais.


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