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Acreditar na democracia, desconfiar do jogo (Facundo Cruz)

Por Poder & Dinero

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A cena ocorreu em 11 de novembro de 1947. O debate sobre um projeto do governo trabalhista de Clement Attlee buscava limitar o poder da Câmara dos Lordes. Winston Churchill, líder da oposição conservadora, proferiu uma frase destinada a viajar muito mais longe que Westminster:

“Muitas formas de governo foram testadas, e continuarão a ser testadas, neste mundo de pecado e sofrimento. Ninguém deve supor que a democracia é perfeita ou onisciente. De fato, já foi dito que a democracia é a pior forma de governo, com exceção de todas as outras que foram tentadas ao longo do tempo…”

[Leia: O poder em decadência: a fragilidade da aprovação presidencial]

A democracia pode funcionar mal e ainda assim ser o sistema de governo preferido. The best game in town. Quase 80 anos depois, a paradoxal situação ainda se sustenta na América Latina. O apoio à democracia e a confiança na eficácia do voto mostram um compromisso cívico que, com altos e baixos, ainda sobrevive. No entanto, o quadro atual apresenta três alertas: uma lacuna entre apoio e satisfação; desconfiança generalizada nos atores políticos; e uma tensão entre a eficácia do voto e a limpeza das eleições.

Apoio vs satisfação, uma lacuna explícita

Os dados do Latinobarómetro mostram uma tensão entre as preferências e as avaliações sobre o regime político vigente. Por um lado, avança o apoio à democracia. Por outro, a satisfação com seu funcionamento. Um canto a Churchill.

Como se pode perceber no primeiro gráfico, as duas curvas caminham juntas, embora nunca se toquem. A primeira queda forte ocorreu entre 2000 e 2001: o apoio caiu de 59% para 47% (-12 pp.), enquanto a satisfação caiu de 35% para 27% (-8 pp.). A partir de 2009, houve uma recuperação: o apoio voltou a superar os 60% e a satisfação girou em torno de 44%. Talvez o último momento de relativo entusiasmo regional da série.

A segunda queda foi mais duradoura. Entre 2015 e 2018, o apoio passou de 56% a 47% (-9 pp.), enquanto a satisfação caiu de 39% para 24% (-15 pp.). O apoio tocou praticamente o mesmo piso que em 2001 e demorou mais para se recuperar. A satisfação desceu ainda mais.

A distância entre ambas as variáveis ajuda a dimensionar a lacuna. No momento de maior entusiasmo, por volta de 2009, a distância se reduziu a 15 pontos. Em 2018, voltou a se ampliar até 23 e chegou a 24 durante a pandemia. A preferência pela democracia resistiu melhor que a avaliação sobre seu funcionamento. Em 2024, a recuperação da satisfação reduziu a distância para 18 pontos: 51% apoiavam a democracia e apenas 33% se declaravam satisfeitos. A lacuna diminuiu, embora ainda atravesse a região. 

É aqui que reside boa parte da tensão latino-americana atual com o regime político vigente. Preferimos a democracia como forma de governo, mas a experiência concreta que temos com ela nos deixa majoritariamente insatisfeitos. Dois lados de uma moeda. Enquanto a elegemos como regra para organizar o poder, questionamos a maneira como é exercida.

Agora, a média regional conta apenas uma parte da história. Abrir essa lacuna por países mostra intensidades e trajetórias muito diferentes.

Enquanto, por exemplo, o Uruguai mantém níveis elevados em ambas as dimensões, países como o Peru e a Venezuela carregam uma distância persistente entre a avaliação da democracia e a avaliação de seu funcionamento. A América Latina compartilha uma tensão democrática de trajetórias díspares.

Um problema de confiança multidimensional

A insatisfação com o funcionamento da democracia encontra na baixa confiança institucional e partidária uma primeira explicação. O gráfico a seguir oferece algumas pistas a esse respeito.

Os mesmos dados do Latinobarómetro indicam que o funcionamento institucional, quem decide e quem representa atualmente provoca mais desconfiança do que confiança na América Latina. O percurso se assemelha bastante ao da satisfação democrática regional: cai no início do século XXI, se recupera durante alguns anos e volta a se deteriorar antes da pandemia. As curvas dialogam entre si. Quando a avaliação do regime melhora, a confiança em quem toma decisões também cresce. Quando essa confiança se erode, a insatisfação acompanha a queda.

A primeira crise começa a tomar forma entre 1995 e 2002, quando a confiança no governo passou de 42% para 18% (-24 pp.) e a do Congresso, de 36% para 17% (-19 pp.). Os partidos, sempre ficando abaixo das duas instituições políticas, caíram de 26% para 11% (-15 pp.). Após tocar fundo, a recuperação começou em 2004 e alcançou seu ponto mais alto por volta do biênio 2009-2010. Um novo momento de entusiasmo regional, coincidente com o registrado no apoio e na satisfação com a democracia.

[Leia: A cinco anos da pandemia, o que mudou em termos políticos?]

Dura pouco. A segunda queda se estendeu por quase uma década. Entre 2010 e 2018, a confiança no governo reduziu de 45% para 22% (-23 pp.); a do Congresso, de 34% para 21% (-13 pp.); e a dos partidos, de 23% para 13% (-10 pp.). Durante a pandemia, o desencanto se manteve. A última foto de 2024 mostra que as três variáveis recuperaram algo do terreno perdido, embora ainda estejam muito distantes de alcançar a metade dos consultados: o governo chegou a 32%; o Congresso, a 25%; e os partidos, apenas a 17%.

O gosto volta a ser agridoce. A satisfação democrática e a confiança nos atores políticos começaram a se elevar, embora a primeira tenha feito isso a uma velocidade maior. A democracia latino-americana ainda conserva apoios e começa a recuperar uma incipiente — embora minoritária — avaliação positiva. A confiança em quem a faz funcionar continua mais atrasada.

De eleições vivemos

Por fim, a legitimidade de origem das democracias latino-americanas também desperta alguns sinais de alerta. As eleições são o motor da democracia e seu sustento social pode ser lido sob dois ângulos. O primeiro refere-se ao resultado: quanto se acredita que o voto pode mudar o futuro. O segundo aponta para sua gestão: quanta confiança desperta a limpeza do processo. A mesma foto de 2024 expõe claramente a distância entre ambos os eixos. Em média, 62% acredita que votar pode mudar o futuro, enquanto apenas 34% considera limpas as eleições. Uma distância de 28 pontos entre a expectativa depositada no resultado e a confiança que gera sua administração.

Nesse sentido, o voto ainda conserva a capacidade de produzir esperança. Mas o processo encarregado de recebê-lo, contá-lo e convertê-lo em poder gera muitas mais dúvidas. Os dados do LAPOP complementam este ponto. A confiança nas eleições passou de 44% em 2012 para 38% em 2023 (com um aumento temporário até 42% em 2021). A erosão é gradual e se destaca em algumas regiões concretas do continente.

O mapa de países assim o mostra.

Bolívia, Colômbia, Equador, Guatemala, Honduras, Paraguai e Peru apresentam níveis de confiança inferiores à média em ambas as dimensões: concentram mais céticos e mais desconfiados em termos relativos. Argentina, Chile, Costa Rica, El Salvador, Panamá, República Dominicana e Uruguai formam o grupo de crentes e confiantes. Entre os dois polos surgem casos isolados. O México mostra uma confiança eleitoral superior à média, combinada com uma avaliação mais moderada sobre o resultado do voto. Em contraste, o Brasil e a Venezuela mantêm sua fé no voto, embora apresentem fortes dúvidas sobre a limpeza do processo.

Assim, 14 dos 17 países se concentram em dois polos. Em um, o voto conserva potência e as eleições inspiram confiança. No outro, o motor democrático falha por partida dupla, pois é difícil acreditar que as urnas mudem o rumo e também que os votos sejam contados de maneira limpa.

Então, ainda é a democracia the best game in town? Os dados dizem que sim, mas com algumas ressalvas. Há um compromisso cívico destacado, pois a democracia continua sendo a forma de governo preferida e uma maioria ainda acredita que seu voto pode mudar o futuro. Há jogadores que jogam e acreditam.

No entanto, as dúvidas surgem quando começa o jogo. A dúvida recai sobre o funcionamento do regime político, sobre a limpeza das eleições, sobre o desempenho das instituições e sobre a capacidade dos atores de representar e governar. As preferências normativas convivem com insatisfação, desconfiança e ceticismo.

Uma lacuna, um problema e uma tensão que geram alertas. E aqui reside o desafio latino-americano: evitar que a democracia sobreviva apenas por falta de alternativas concretas. Que o jogo preferido não mude por outro.

Facundo Cruz é Cientista Político. Consultor, analista político e pesquisador. Coordenador Geral do Observatório PulsarUBA. Codiretor do Centro de Pesquisa para a Qualidade Democrática.

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