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Trump e Lula: a disputa pela liderança do Ocidente e do Sul Global que redefine o futuro do Brasil (Adalberto Agozino)

Por Poder & Dinero

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As relações entre os Estados Unidos e o Brasil atravessam um de seus momentos mais delicados desde o restabelecimento da democracia brasileira. O que durante décadas constituiu uma relação caracterizada por uma combinação de cooperação econômica, diferenças pontuais e diálogo permanente se transformou em um cenário de crescente confrontação política, comercial e diplomática, cujo desfecho poderia influenciar tanto no equilíbrio de poder regional quanto na configuração das alianças internacionais durante os próximos anos.

A recente decisão da Administração de Donald Trump de revogar o visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti, constitui o episódio mais visível de uma escalada que vem se desenvolvendo há meses. Washington justificou a medida como resposta à demora do Governo brasileiro em conceder o agrado ao embaixador americano designado para Brasília, enquanto o Palácio do Planalto denunciou uma política deliberada de hostilidade e uma tentativa de interferir no processo eleitoral previsto para outubro.

No entanto, reduzir o conflito a um simples desacordo protocolar significaria ignorar as verdadeiras dimensões de uma disputa muito mais complexa. A controvérsia diplomática é apenas a expressão mais recente de um enfrentamento cujas origens são simultaneamente ideológicas, econômicas e geopolíticas.

As diferenças pessoais entre Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva são evidentes. Ambos representam projetos políticos praticamente antagônicos. Enquanto Trump construiu boa parte de sua identidade política sobre o nacionalismo econômico, a defesa do unilateralismo americano e uma concepção transacional das relações internacionais, Lula reivindica o multilateralismo, o fortalecimento dos organismos internacionais e a autonomia estratégica das potências emergentes.

Nenhuma das divergências doctrinárias, por profundas que sejam, é suficiente para explicar o deterioro dos vínculos bilaterais. A política internacional raramente responde apenas a afinidades ou diferenças ideológicas. Os interesses permanentes dos Estados costumam prevalecer sobre as preferências pessoais de seus líderes.

Desde essa perspectiva, a principal preocupação de Washington não reside exclusivamente na orientação social – populista do Governo brasileiro, mas sim na crescente aspiração do Brasil em agir como um polo autônomo de poder dentro do sistema internacional.

Durante seus diferentes mandatos, Lula tem procurado consolidar a imagem do Brasil como uma potência intermediária capaz de manter relações simultaneamente fluidas com os Estados Unidos, Europa, China, Rússia, Índia, África e Oriente Médio. Essa estratégia, conhecida na diplomacia brasileira como autonomia por diversificação, busca reduzir a dependência de qualquer grande potência e ampliar a margem de manobra internacional do Brasil.

Essa orientação é particularmente desconfortável para uma Administração americana que considera a competição com a China como o eixo organizador da política mundial contemporânea. Da perspectiva de Washington, os aliados estratégicos deveriam alinhar-se com os interesses americanos em questões tecnológicas, comerciais, industriais e de segurança. O Brasil, por sua vez, resiste a aceitar essa lógica de blocos.

A aproximação de Lula com a China é provavelmente o elemento mais sensível dessa disputa.

Durante a última década, o gigante asiático se consolidou como o principal parceiro comercial do Brasil. As exportações de soja, minério de ferro, petróleo, carne e outros produtos agroindustriais dependem crescentemente do mercado chinês, enquanto os investimentos provenientes de Pequim abrangem setores estratégicos como infraestrutura, energia elétrica, mineração, portos, telecomunicações e novas tecnologias.

Distante de considerar essa relação como um problema, Lula a apresenta como uma oportunidade histórica para diversificar as associações internacionais do Brasil e diminuir a excessiva dependência dos mercados ocidentais.

Essa visão se projeta igualmente no fortalecimento dos BRICS, agrupamento que o Brasil considera um dos principais instrumentos para construir uma ordem internacional mais multipolar. A promoção de mecanismos financeiros alternativos, o impulso a novas instituições de crédito e a busca de maiores intercâmbios comerciais em moedas nacionais são interpretados por numerosos setores americanos como iniciativas destinadas a reduzir a influência econômica global de Washington.

A preocupação americana também não se deve apenas ao crescimento do comércio bilateral entre Brasil e China. O que realmente altera os cálculos estratégicos é a possibilidade de que o Brasil se torne um ator capaz de articular posições comuns entre as principais economias emergentes, concedendo maior capacidade de negociação ao chamado Sul Global frente às potências ocidentais.

A dimensão econômica do conflito também explica boa parte da crescente tensão. As novas tarifas impostas pelos Estados Unidos a diversos produtos brasileiros foram oficialmente justificadas por supostas práticas comerciais desleais e pelo funcionamento do sistema brasileiro de pagamentos eletrônicos Pix, cuja expansão reduziu significativamente a participação de empresas americanas nesse mercado. O Brasil rejeitou essas acusações e sustentou que as medidas obedecem a decisões essencialmente  políticas mais do que comerciais.

Para o Governo de Lula, a controvérsia em torno do Pix simboliza algo muito mais importante que um simples desacordo regulatório. Representa a defesa de uma inovação tecnológica desenvolvida por instituições públicas brasileiras que conseguiu transformar o sistema financeiro nacional e se tornar uma referência internacional. A reivindicação desse modelo foi incorporada pelo presidente como parte de um discurso mais amplo sobre a capacidade do Brasil de desenvolver soluções próprias sem depender das grandes corporações tecnológicas estrangeiras.

A isso soma-se a crescente disputa por setores considerados estratégicos para a economia do século XXI. A competição por minerais críticos, terras raras, inteligência artificial, infraestrutura digital e cadeias de suprimento transforma o Brasil em um ator cada vez mais relevante devido à magnitude de seus recursos naturais e ao seu potencial industrial. Sob essa perspectiva, a política externa brasileira deixa de ser um assunto exclusivamente regional para se tornar uma variável significativa dentro da competição global entre os Estados Unidos e a China.

A confrontação entre Trump e Lula adquire, além disso, uma dimensão eleitoral impossível de ignorar. A proximidade das eleições presidenciais brasileiras transformou cada incidente diplomático em um instrumento da disputa política interna. O Governo brasileiro sustenta que determinadas decisões adotadas em Washington —entre elas a revogação do visto da embaixadora, as sanções contra autoridades brasileiras e as pressões diplomáticas vinculadas ao processo de designação do novo embaixador americano— fazem parte de uma estratégia orientada a influenciar sobre o clima  político anterior aos pleitos. Essa interpretação aparece refletida reiteradamente nos comunicados oficiais emitidos pelo Palácio do Planalto.

Ainda que a Administração Trump rejeite categoricamente essa acusação e apresente suas decisões como respostas baseadas no princípio da reciprocidade diplomática e em diferenças comerciais concretas, o contexto político torna inevitável que cada movimento seja lido em chave eleitoral. A prudência tradicional que caracterizou por décadas as relações entre Washington e Brasília deu lugar a uma linguagem incomumente dura, onde as acusações públicas substituem a discrição diplomática.

Nesse cenário, Lula demonstrou uma notável capacidade para transformar uma situação potencialmente desfavorável em um ativo político. Longe de adotar uma postura defensiva, o presidente brasileiro tem buscado converter o enfrentamento com Trump na prova de que o Brasil está sendo alvo de pressões externas precisamente porque decidiu defender seus próprios interesses nacionais.

Não se trata de uma estratégia nova dentro da história política latino-americana. A apelação à soberania nacional frente às ingerências estrangeiras tem sido, durante décadas, um dos recursos retóricos mais eficazes para fortalecer a legitimidade de governos enfrentando dificuldades internas. No entanto, no caso brasileiro, adquire características particulares devido à magnitude econômica e política do país.

O Brasil não é uma economia pequena dependente exclusivamente do mercado americano. Seu peso demográfico, sua capacidade industrial, a diversificação de seus mercados de exportação e o crescente protagonismo da Ásia lhe proporcionam uma margem de manobra consideravelmente maior que a da maioria dos países latino-americanos. Essa realidade permite a Lula sustentar um discurso de firmeza frente a Washington sem enfrentar, ao menos a curto prazo, os custos econômicos que implicaria uma confrontação semelhante para economias mais vulneráveis.

Ao mesmo tempo, o mandatário tem procurado associar politicamente seu principal adversário eleitoral, Flávio Bolsonaro, com as pressões provenientes dos Estados Unidos. Segundo essa narrativa, o apoio explícito de Trump à família Bolsonaro demonstraria que determinados setores da oposição estariam privilegiando seus interesses políticos acima dos interesses permanentes do Estado brasileiro. O objetivo consiste em apresentar a eleição de outubro não apenas como uma competição entre projetos econômicos ou ideológicos, mas também como uma decisão sobre a defesa da soberania nacional. O Governo brasileiro insistiu em vincular as ações de Washington com uma suposta tentativa de favorecer eleitoralmente o candidato bolsonarista.

Esse discurso encontra ainda um terreno fértil em uma parte importante da opinião pública brasileira, historicamente sensível a qualquer percepção de tutela estrangeira sobre os assuntos nacionais. A identidade internacional do Brasil foi construída durante décadas em torno da ideia de autonomia, independência e vocação universalista. Desde a política externa desenvolvida pelo Barão de Rio Branco até as doutrinas de autonomia formuladas durante a segunda metade do século XX, a diplomacia brasileira tem procurado evitar alinhamentos automáticos com qualquer potência. Lula recupera agora essa tradição para reforçar sua legitimidade interna.

Isso não significa que o presidente ignore os riscos derivados de um prolongado deterioro das relações com os Estados Unidos. A economia americana continua sendo um parceiro comercial de primeira grandeza, uma fonte relevante de investimentos e um ator decisivo em setores como a inovação tecnológica, as finanças e a cooperação científica. Um conflito sustentado poderia gerar incerteza para numerosos setores produtivos brasileiros e afetar as perspectivas de crescimento.

Da mesma forma, a Administração Trump também não obtém benefícios evidentes de uma confrontação prolongada com a maior economia latino-americana. O Brasil é um ator indispensável em questões tão diversas como a estabilidade sul-americana, a segurança alimentar global, a transição energética, a preservação da Amazônia, o fornecimento de minerais críticos e a governança do Atlântico Sul. Transformar essa relação em um conflito permanente implicaria enfraquecer a capacidade de influência americana precisamente em uma região onde a China aumenta ano após ano sua presença econômica, financeira e tecnológica.

Por isso, por trás das declarações altissonantes e dos gestos diplomáticos de elevada carga simbólica persiste uma paradoxa. Ambos os governos precisam preservar uma relação funcional, mas ao mesmo tempo consideram politicamente rentável exibir firmeza frente ao outro. Trump reforça diante de seu eleitorado a imagem de um presidente disposto a defender sem concessões os interesses americanos frente a qualquer parceiro comercial. Lula, por sua vez, projeta a figura de um chefe de Estado capaz de resistir às pressões da principal potência mundial e de afirmar a autonomia do Brasil em um cenário internacional cada vez mais competitivo.

Em suma, a confrontação entre Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva transcende o enfrentamento entre um líder conservador e outro progressista. Expressa a transição para um sistema internacional onde as potências emergentes reclamam maiores margens de autonomia enquanto os Estados Unidos tentam preservar sua capacidade de liderança frente ao ascenso de novos centros de poder, especialmente a China. O Brasil ocupa uma posição singular nessa disputa: importante demais para ser tratado como um ator secundário e ainda insuficientemente poderoso para impor por si só as regras do jogo internacional.

Consciente dessa realidade, Lula optou por transformar a pressão externa em um elemento central de sua narrativa eleitoral. Ao apresentar cada sanção, cada tarifa e cada atrito diplomático como uma prova da necessidade de defender a soberania brasileira, tenta converter o conflito com Washington em um fator de coesão nacional. Se essa estratégia contribuirá efetivamente para garantir sua continuidade no Palácio do Planalto dependerá, em última análise, da resposta de um eleitorado que terá que decidir não só entre dois projetos políticos, mas também entre duas visões opostas acerca do lugar que o Brasil deve ocupar no mundo do século XXI.

Adalberto Agozino é Doutor em Ciência Política, Analista Internacional e Professor da Universidade de Buenos Aires

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