O discurso do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no Fórum Econômico Mundial de Davos não foi uma intervenção econômica em sentido clássico, mas sim uma declaração de princípios geopolíticos. Sob a aparência de uma reflexão sobre segurança e prosperidade global, Trump colocou a Groenlândia no centro de sua visão estratégica, vinculando-a diretamente com o futuro da Europa, da OTAN e da ordem internacional surgida após a Segunda Guerra Mundial. A contundência da mensagem —e seu tom abertamente transacional— exige uma análise que transcenda a conjuntura e adentre as raízes históricas e as consequências estratégicas de uma pretensão que muitos acreditavam desterrada da linguagem política ocidental: a aquisição de território soberano entre aliados.
A ideia da Groenlândia como peça estratégica para os Estados Unidos não é nova. A metade do século XIX, Washington já havia explorado a possibilidade de adquirir a ilha da Dinamarca, e após a Segunda Guerra Mundial a presença militar americana se consolidou com a instalação da base aérea de Thule, hoje integrada no sistema de alerta precoce e defesa antimísseis. Na lógica da Guerra Fria, a Groenlândia foi concebida como um bastião avançado frente à União Soviética, uma posição chave no controle do Atlântico Norte e do acesso ao Ártico. Trump recupera essa tradição estratégica, mas o faz despindo-a do roupão multilateral que caracterizou a política americana durante décadas.
Em Davos, o presidente não falou de cooperação reforçada nem de novas fórmulas dentro da OTAN, mas de propriedade e controle. Ao afirmar que para defender a Groenlândia "é preciso ser seu proprietário", Trump introduziu uma lógica patrimonial em um sistema internacional que, pelo menos em seu discurso formal, se rege pelo respeito à soberania e à integridade territorial. Esta afirmação não apenas desafia a Dinamarca e as autoridades groenlandesas, mas interpela diretamente a Europa como um todo, ao sugerir que o continente carece de capacidade real para garantir sua própria segurança no extremo norte.
Do ponto de vista estratégico, a Groenlândia ocupa uma posição singular no novo cenário global. O desgelamento progressivo do Ártico abre rotas marítimas antes inacessíveis, reduz distâncias entre a Ásia, Europa e América do Norte e expõe vastos recursos naturais, desde terras raras até hidrocarbonetos. Nesse contexto, o controle da ilha implica influência direta sobre o Atlântico Norte, sobre as rotas polares emergentes e sobre a arquitetura de defesa do hemisfério norte. Trump expressou isso de forma crua: para ele, a Groenlândia não é um território periférico, mas uma plataforma central a partir da qual projetar poder frente à Rússia e à China.
A dimensão histórica da proposta é fundamental para entender seu alcance. Durante o pós-guerra, os Estados Unidos construíram sua liderança global combinando poder militar com uma rede de alianças e normas multilaterais. A OTAN foi o pilar desse sistema na Europa, e a Dinamarca, como membro fundador, fez parte desse consenso. Ao questionar implicitamente a capacidade da aliança de proteger um território estratégico sem que este passe para mãos americanas, Trump erosiona um dos fundamentos simbólicos da OTAN: a defesa coletiva entre iguais.
Essa tensão se reflete na reação europeia. Líderes como Emmanuel Macron e Ursula von der Leyen interpretaram as palavras de Trump não apenas como uma ameaça territorial, mas como uma tentativa de redefinir a relação transatlântica em termos de subordinação. A mensagem implícita é clara: os Estados Unidos garantem a segurança, mas exigem contrapartidas que não se limitam mais ao gasto militar ou a concessões comerciais, mas que alcançam questões de soberania. Nesse quadro, a proposta de Trump funciona como um catalisador de um debate mais amplo sobre a autonomia estratégica europeia, uma aspiração longamente discutida e até agora difícil de materializar.
O caso da Groenlândia também levanta questionamentos sobre o direito internacional e o precedente que poderia estabelecer. Se uma potência ocidental legitima a ideia de adquirir território de um aliado por razões estratégicas, com que autoridade moral poderá se opor a movimentos similares em outras regiões do mundo? Esta pergunta permeia os ministérios das Relações Exteriores europeus e alimenta a inquietação de que o discurso de Davos marque um ponto de inflexão na narrativa ocidental sobre a ordem internacional.
Da perspectiva americana, a proposta de Trump responde a uma visão realista e unilateral do poder. A segurança nacional, em seu discurso, não admite zonas cinzentas nem soluções compartilhadas quando estão em jogo interesses vitais. A Groenlândia aparece assim como uma extensão natural do perímetro defensivo americano, um território cuja pertença formal deveria se alinhar a uma realidade estratégica que, segundo Trump, já existe de fato. Esta leitura ignora deliberadamente a dimensão política e cultural da Groenlândia, assim como o direito de seus habitantes de decidir seu futuro.
As implicações estratégicas desta abordagem são profundas. No curto prazo, a controvérsia enfraquece a coesão da OTAN e alimenta a desconfiança entre aliados. No médio prazo, pode acelerar os esforços europeus para reduzir sua dependência dos Estados Unidos em matéria de defesa, mesmo que essa autonomia seja difícil de concretizar. E no longo prazo, contribui para normalizar uma lógica de competição territorial entre grandes potências, mesmo dentro do mundo ocidental.
O discurso de Trump em Davos, longe de ser um desvio isolado, insere-se em uma reconfiguração mais ampla da ordem internacional. A Groenlândia se torna assim em símbolo e em sintoma: símbolo da crescente centralidade do Ártico na geopolítica do século XXI e sintoma de uma ruptura na forma como os Estados Unidos concebem sua relação com a Europa. Em um fórum pensado para o consenso e a cooperação, Trump deixou claro que sua visão de mundo é regida pelo controle, pela força e pela primazia nacional. As consequências dessa mensagem, como o gelo do Ártico que lentamente está derretendo, apenas começam a se tornar visíveis.
Adalberto Agozino é Doutor em Ciência Política, Analista Internacional e Professor na Universidade de Buenos Aires.

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