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"Duas adolescentes assassinadas em uma semana: as perguntas que a Argentina ainda não respondeu"

Por Jazmín Abdala

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Agostina tinha 14 anos.

Quando os investigadores encontraram seus restos em um descampado de Ampliación Ferreyra, ao sul da cidade de Córdoba, a notícia já havia atravessado durante uma semana cada canto da Argentina. Sua fotografia circulava há dias em celulares, portais de notícias e redes sociais. Milhares de pessoas conheciam seu nome. Milhares de pessoas haviam compartilhado a busca. Milhares de pessoas haviam repetido a mesma frase que acompanha cada desaparecimento de uma menina: “Oxalá apareça”.

Mas Agostina não apareceu.

O que apareceu foram restos humanos.

Restos que deveriam ser identificados por peritos. Restos que obrigaram uma família a enfrentar uma das cenas mais devastadoras que uma sociedade pode produzir. Restos que colocaram fim a uma semana de incerteza e deram início a outra etapa, talvez ainda mais dolorosa: a de entender que uma adolescente de 14 anos havia sido assassinada.

Enquanto Córdoba tentava absorver o horror, enquanto os canais de televisão transmitiam ao vivo dos tribunais e as equipes jornalísticas seguiam cada movimento da investigação, outra adolescente morta ocupava apenas algumas linhas dispersas em meios locais de Misiones. Chamava-se Dulce Beatriz Candia. Tinha 17 anos. Havia desaparecido no dia 17 de maio em Eldorado e foi encontrada sem vida onze dias depois em uma construção abandonada. A autópsia confirmou que havia sido assassinada por asfixia mecânica.

Duass adolescentes.

Duass províncias.

Duass famílias destruídas.

Duass investigações judiciais.

Duass comunidades atravessadas pela mesma pergunta.

Como chegamos até aqui?

A pergunta não se restringe apenas aos autores dos crimes. A Justiça terá que estabelecer responsabilidades penais, reconstruir os fatos e determinar quem participou. A pergunta é anterior. Muito anterior. Tem a ver com as condições que tornaram possível que duas adolescentes desaparecessem e terminassem assassinadas com apenas dias de diferença em um mesmo país.

Porque o problema de observar essas histórias apenas como casos policiais é que permite reduzi-las à lógica do processo. A discussão se limita então às câmeras de segurança, aos celulares, aos percursos dos suspeitos, às buscas, às autópsias e às perícias. Discute-se como morreram. Discute-se quem as matou. Discute-se onde estiveram seus corpos. Mas raramente discute-se como estavam vivendo antes de desaparecer.

E talvez aí se encontre a parte mais desconfortável de toda essa história.

Porque nenhuma adolescente aparece assassinada do dia para a noite.

A morte ocorre em poucas horas.

A vulnerabilidade costuma ser construída ao longo de anos.

No caso de Agostina, a investigação expôs uma trama de vínculos complexos, relações desiguais e adultos que orbitavam ao redor de uma menina de 14 anos. No caso de Dulce, vizinhos de Eldorado denunciaram publicamente que a adolescente enfrentava situações de extrema fragilidade conhecidas por grande parte da comunidade. Nenhuma dessas observações consegue explicar um crime. Muito menos justificá-lo. Mas sim obrigam a olhar algo que costuma ficar fora do quadro: as condições de risco que precedem as tragédias.

Porque existe uma diferença enorme entre explicar e responsabilizar.

Explicar implica tentar compreender o que falhou.

Responsabilizar implica buscar culpados.

E na Argentina existe uma tendência quase automática cada vez que uma adolescente é vítima de violência extrema: buscar primeiro os erros da família.

Onde estava a mãe?

Por que saiu sozinha?

Por que ninguém a acompanhou?

Por que não a controlavam?

São perguntas compreensíveis. Também são insuficientes.

São insuficientes porque partem de uma fantasia impossível: a ideia de que a segurança de uma adolescente depende exclusivamente da capacidade de vigilância dos pais.

Nenhuma família pode controlar cada conversa, cada mensagem, cada deslocamento e cada vínculo de um filho adolescente. Nenhuma mãe pode permanecer acordada as vinte e quatro horas. Nenhum pai pode antecipar cada risco. Se a proteção de crianças, adolescentes e jovens dependesse exclusivamente disso, não existiriam sistemas de proteção, escolas, órgãos de infância, equipes de saúde mental nem políticas públicas. A própria existência dessas instituições demonstra que a proteção das infâncias é uma responsabilidade compartilhada.

No entanto, algo parece se romper sistematicamente quando se trata de adolescentes que vivem em contextos de vulnerabilidade.

O que ocorre então é um fenômeno perverso: a vulnerabilidade se torna tão cotidiana que deixa de surpreender.

Uma adolescente que passa muito tempo na rua.

Uma adolescente que se relaciona com adultos.

Uma adolescente rodeada de consumos problemáticos.

Uma adolescente atravessada por conflitos familiares.

Uma adolescente que desaparece durante horas.

Uma adolescente que para de responder mensagens.

Tudo isso começa a ser percebido como parte da paisagem.

E quando a vulnerabilidade se torna paisagem, os alarmes deixam de tocar.

Até que um dia aparece um corpo.

Somente então começa a urgência.

Somente então aparecem os recursos extraordinários.

Somente então chegam os veículos de televisão.

Somente então chegam os funcionários.

Somente então chegam as conferências de imprensa.

Somente então uma adolescente se torna prioridade.

Há uma cena ocorrida durante a investigação pelo assassinato de Agostina que resume de maneira brutal essa contradição. Na conferência de imprensa posterior ao achado dos restos, uma parte importante do discurso institucional foi dedicada a destacar o trabalho realizado para localizar o corpo. Falou-se da tecnologia utilizada. Da análise de câmeras. Dos celulares. Do despliegue policial. Do trabalho dos cães treinados.

E tudo isso era verdade.

Nada disso era falso.

Mas havia algo profundamente perturbador no contraste.

Porque enquanto se descrevia a eficácia da operação, uma menina de 14 anos jazia morta.

Porque uma sociedade pode se orgulhar de muitas coisas, mas jamais deveria se sentir satisfeita por haver encontrado a tempo os restos de uma adolescente assassinada.

Encontrar um corpo não é uma vitória.

É a confirmação de uma derrota.

A derrota de uma menina.

A derrota de uma família.

A derrota de uma comunidade.

E, em algum ponto, também a derrota de todas as instituições que existem precisamente para evitar que uma história termine dessa forma.

O mais doloroso é que o caso de Agostina não ocorreu em solidão.

Enquanto milhões de argentinos conheciam seu nome, Dulce Candia desaparecia e era encontrada morta em circunstâncias igualmente aterrorizantes. A diferença foi a atenção.

E essa diferença também deveria nos preocupar.

Porque o acesso à visibilidade se tornou uma forma de desigualdade.

Há desaparecimentos que conseguem atravessar as fronteiras provinciais e se tornar notícia nacional.

E há desaparecimentos que permanecem confinados ao âmbito local até que já é tarde demais.

Há famílias que recebem cobertura permanente.

E há famílias que devem suplicar para que alguém publique uma fotografia.

Há vítimas que mobilizam recursos extraordinários.

E outras cuja ausência parece se diluir no ruído cotidiano.

A pergunta que deixam Agostina e Dulce não é apenas que tipo de homens são capazes de assassinar adolescentes.

A pergunta é que tipo de sociedade observa essas tragédias se repetirem uma e outra vez sem revisar seriamente as condições que as tornam possíveis.

Porque nenhuma democracia pode se contentar em resolver homicídios.

Sua obrigação é impedi-los.

E quando duas adolescentes aparecem assassinadas na mesma semana, quando uma delas tem apenas 14 anos, quando as comunidades denunciam vulnerabilidades anteriores, quando a resposta pública continua chegando após o desaparecimento e não antes, então o problema deixa de pertencer exclusivamente aos tribunais.

Se torna um problema coletivo.

Um problema que fala de infância, de desigualdade, de violência, de abandono, de instituições enfraquecidas e de uma preocupante incapacidade de detectar riscos antes que se tornem tragédias.

Agostina Vega e Dulce Candia já não podem ser protegidas. Essa possibilidade terminou no dia em que foram assassinadas. O único que resta agora é a investigação judicial, a busca por responsabilidades e a demanda por justiça.

Mas se seus nomes vão significar algo mais que um processo, se suas mortes vão deixar algum ensinamento em meio ao horror, talvez a discussão deva começar em outro lugar. Não em como foram encontradas. Não em quem chegou primeiro ao descampado. Não em que cão marcou o terreno correto.

A discussão deveria começar muito antes.

No momento exato em que uma adolescente começa a se tornar vulnerável e ninguém parece notar.

Porque o verdadeiro fracasso de uma sociedade nunca ocorre quando encontra uma menina morta.

Ocorre quando não foi capaz de protegê-la enquanto estava viva.

Jazmín Abdala | Estudante de Jornalismo.

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Jazmín Abdala

Jazmín Abdala

Jornalismo em estado de pergunta. Política e literatura como territórios de disputa. Entre livros e conjunturas, escrevo o que incomoda para ler a realidade. Desde Buenos Aires, Argentina, o berço das contradições.

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