O mendocino José Luis Manzano, um dos empresários com maior acesso ao poder na Argentina -e além-, acionista do Grupo América, Edenor, Metrogas e fundador da Integra Capital, vem desenvolvendo nos últimos anos uma relação cada vez mais intensa com a China que atravessa a educação, a energia, a mineração e, em seu capítulo mais sensível, a logística.
Dizer que Manzano é um dos empresários da América Latina mais próximos, e talvez mais conhecedores, dos interesses da China na América Latina, não é descabido. Para quem foi à China a negócios várias vezes, é possível tê-lo visto há muitos anos no elegante lobby do Hotel Península de Pequim, sempre acompanhado por representantes de grandes conglomerados desse país. E embora se mova com muito baixo perfil, algumas de suas ações acabam sendo demasiado táticas para não serem notadas. De fato, Manzano é hoje sócio da Cosco Shipping Ports nada menos que no Porto de Chancay, no Peru, um dos ativos mais estratégicos da China para seu comércio internacional com a América Latina. Só ele tem essa posição de privilégio, e são muito poucos os que poderiam concretizá-la.
Agora, como conseguiu Manzano essa jogada única? Em maio de 2024, adquiriu através de sua subsidiária Transition Metals AG o controle da peruana Volcán Compañía Minera (ficando com 55% das ações Classe A que estavam nas mãos da multinacional Glencore). Ao comprar Volcán, o grupo de Manzano adquiriu também Inversiones Portuarias Chancay (IPCH), uma cisão que a empresa peruana havia criado para administrar junto à Cosco Shipping Ports o famoso “porto chinês”, transformando-se em acionista controlante indireto por 40% do pacote acionário.
É difícil colocar em palavras a importância de Chancay para a política comercial da China, mas o certo é que deu um posicionamento logístico no Pacífico que desejava para consolidar seu projeto de economia global One Belt One Road em direção ao hemisfério sul. Inaugurado em 14 de novembro de 2024 na presença de XI Jinping e da ex-presidente Dina Boluarte, o porto é a joia da logística de Pequim na região, é o hub que permite reduzir custos (entre 15% e 30%) e tempos de transporte (até duas semanas) e que, em seu primeiro ano de atividade, acumulou exportações totais por aproximadamente 718 milhões de dólares, concentrou 62% das agroexportações peruanas para a China e se posicionou como a rota direta principal de comércio para o mercado asiático.

O custo da primeira etapa do Megaporto de Chancay no Peru girou em torno de 1.300 milhões de dólares.
A presença de Manzano na administração do Porto de Chancay representa um espaço de poder único para um empresário da América Latina, em um nodo logístico sob a órbita direta do Partido Comunista Chinês (PCCh), já que a COSCO Shipping é uma empresa estatal, e todas suas subsidiárias, inclusive as privadas, têm portanto, um perfil político. Daí a preocupação dos Estados Unidos com a presença chinesa nessas costas. Já em 2024, a general Laura Richardson, ex-chefe do Comando Sul da Armada dos Estados Unidos, havia lançado um aviso sobre o megaporto e seu potencial duplo uso para fins militares. Um trabalho mais recente da Universidade do Ar da Força Aérea dos Estados Unidos voltou a colocar sobre a mesa as preocupações estratégicas que gera para Washington o avanço da China em infraestruturas portuárias. Tanto é que, em janeiro deste ano, soube-se que os Estados Unidos investirão 1.500 milhões de dólares para modernizar a Base Naval do Callao, que fica a menos de 80 quilômetros de Chancay.
Cabe destacar que Volcán Compañía Minera é um dos maiores produtores mundiais de zinco, chumbo e prata, com uma produção anual de 300.000 toneladas (parte da qual tem mercado na China). Um dado adicional: a Integra Capital entrou no Peru após comprar da Glencore sua participação majoritária por 20 milhões de dólares, além de um financiamento adicional de até 40 milhões de dólares concedido pela empresa com sede na Suíça, país onde Manzano declarou sua residência permanente.
O portfólio mineral da Integra Capital se completa com a Minera Aguilar, a maior exportadora argentina de zinco e chumbo, com 40.000 toneladas anuais, e projetos de lítio em Jujuy e Catamarca dentro do Triângulo do Lítio, em mais de 400.000 hectares. Trata-se de províncias nas quais a China tem interesses de longo prazo em mineração e energia, e em projetos de infraestrutura e logística binacional Argentina-Chile, como o Paso de Jama e o Paso Internacional San Francisco, respectivamente.
A faceta do Soft Power
Talvez um dos aspectos que mais visibilidade teve tenha sido a participação de Manzano no intercâmbio cultural e educacional com a China, para o qual ele formou uma interessante estrutura de soft power. Isso ele faz sendo patrocinador da Casa da Cultura Chinesa em Buenos Aires ou também através do grupo de mídia América (que integra) que em seu momento trabalhou junto com o China Daily para lançar a primeira edição em espanhol do China Watch. Além disso, ele faz parte do comitê editorial da revista DangDai, a primeira publicação bilíngue trimestral de intercâmbio cultural e jornalismo entre a Argentina e a China.
Além disso, quem foi Deputado Nacional entre 1983 e 1991, chegando a ser presidente do bloco do Partido Justicialista, e Ministro do Interior da Nação entre 1991 e 1992, durante a presidência de Carlos Menem, impulsionou em Mendoza a abertura do Instituto Confúcio na Universidade do Congresso, da qual é presidente. Longe de apresentá-lo como uma simples oferta de idioma, o planteou como uma aposta de influência em uma província com vocação exportadora para o gigante asiático, em setores nos quais o empresário está envolvido, por exemplo, a viticultura, com Altus, uma produtora de vinhos de qualidade premium.

Acionista do Grupo América, Edenor, Metrogas e Integra Capital, vem desenvolvendo nos últimos anos uma relação cada vez mais intensa com a China que atravessa a educação, a energia, a mineração, as finanças e, em seu capítulo mais sensível, a logística.
Seu papel no setor de energia: ideal para a participação chinesa
Considerando a proximidade de Manzano com a elite da política e dos negócios da China, sua participação no setor energético da Argentina deve ser certamente de muito interesse para seus interlocutores orientais. É importante considerar que Infraestrutura & Energia são duas áreas de negócios nas quais Pequim vem fazendo grandes apostas. De fato, as empresas estatais chinesas controlam ativos chave de energia na América do Sul após aquisições multimilionárias entre 2018 e 2024. Destacam-se as compras de CGE e Chilquinta no Chile pela State Grid, a aquisição de Luz del Sur e Chaglla no Peru pela China Three Gorges, o controle da rede de distribuição de Lima pela China Southern Power Grid (hoje Pluz Energía).
O Brasil é um caso à parte. Lá A China consolidou uma forte presença elétrica por meio da State Grid, que opera as linhas de ultra alta tensão Bipolo I e II de Belo Monte (conectando a Amazônia com o Rio de Janeiro) e conquistou um terceiro megaproyecto de transmissão em 2026, e China Three Gorges (CTG), posicionada como a segunda maior geradora privada do país após adquirir os gigantescos complexos hidrelétricos Jupiá e Ilha Solteira, a isso somam-se investimentos crescentes em parques eólicos, solares e sistemas de armazenamento em baterias. e a operação de megalinhas de transmissão de ultra alta tensão no Brasil.
Daí que, vendo a atividade da China na vizinhança, também não é descabido pensar que a estrutura empresarial de Manzano poderia servir, no caso da Argentina, como uma plataforma ideal de negócios para os chineses no setor de energia, desde fornecimento técnico e equipamentos, transferência tecnológica e, por que não, por potenciais injeções de capital ou JV.
Reveja o mapa de ativos de Manzano neste âmbito:
Além de Edenor, a maior distribuidora de eletricidade da Argentina, com 3,3 milhões de clientes, o grupo controla a Edemsa, a maior distribuidora elétrica de Mendoza, e a Hidrelétrica Ameghino, uma central de 60 MW. No gás, Manzano é acionista relevante da Integra Gas Distribution -em sociedade com a Mercuria Energy Trading-, um ator chave na Metrogas, a principal distribuidora de gás de Buenos Aires com mais de 10 milhões de usuários, após a recente compra da YPF de 70% da companhia por 780 milhões de dólares.
O grupo também avançou com uma oferta de 1.400 milhões de dólares pela rede de estações Shell e a refinaria de Dock Sud junto à Mercuria Energy Group, operação que foi concretizada em junho de 2026 por cerca de 1.420 milhões de dólares.
Mineração, outro setor de valor estratégico para Beijing
A mineração é outro dos grandes setores da economia global que hoje vê na Argentina um fornecedor de médio a longo prazo. É um setor sensível, cada vez mais geopolítico, e envolvido nas políticas de segurança energética tanto dos Estados Unidos quanto da China, país que importa mais de 700 bilhões de dólares por ano em produtos minerais e combustíveis. Entre seus tiquetes, destacam-se compras massivas de minério de ferro (superando 1.200 milhões de toneladas anuais), além de cobre, bauxita, lítio e cobalto para sustentar sua gigantesca indústria pesada e de tecnologia.

Embora sirvam para a divulgação cultural chinesa, geopoliticamente para muitos analistas do Ocidente os Institutos Confúcio são considerados ferramentas-chave do soft power da diplomacia chinesa. Fonte: DiarioUno.
Nesse marco, devem ser analisadas as atividades de Manzano em minerais críticos, que são centrais para a transição energética, desenvolvendo exploração de urânio em Chubut e o projeto Ivana -urânio e vanádio- no Rio Negro, com um investimento estimado em 160 milhões de dólares. A isso soma-se a participação em hidrocarbonetos não convencionais que o envolve: Manzano e sua família são acionistas significativos da Phoenix Global Resources, com ativos em Vaca Muerta, listada em Londres (AIM) e na Bolsa de Buenos Aires, focando no campo não convencional Mata Mora -três pads e nove poços perfurados em 2022- e reservas reportadas de 71,1 MMboe com uma produção média de 4.553 boepd em dezembro de 2022. Atualmente, a companhia expandiu sua operação para o Rio Negro, incorporou inteligência artificial e projeta um investimento de 6.000 milhões de dólares sob o regime RIGI para multiplicar sua produção não convencional.
Ele também é um investidor-chave da Interoil, empresa que está listada na Bolsa de Oslo, com uma produção de 3.500 bopd entre Argentina e Colômbia.
Um terreno de disputa silenciosa
Agora, com tudo isso dito, também fica claro que Manzano é muito mais do que um empresário "pró-China", ou pelo menos, não tem esse perfil. Seu interesse pelo gigante asiático é misturado com projetos que o levam a outras latitudes: por exemplo, ele é membro ativo da Câmara de Comércio Reino Unido-Argentina e da Câmara de Comércio Argentino-Americana, participa do Comitê Diretivo de Energia do Instituto das Américas e faz parte de sua diretoria na Universidade da Califórnia, San Diego.
No entanto, seu caso condensa uma realidade que excede a um único empresário: a de um setor do establishment argentino que sustenta canais de cooperação com Pequim e que o considera um parceiro primário para o crescimento de seus negócios.
As grandes empresas chinesas sempre seguem o campeão, o homem de fortuna, e especialmente, o self-made man. Franco Macri, um grande empresário argentino falecido em 2019, foi em seu momento esse referencial Número 1 para os chineses na Argentina, que atuou como uma plataforma de negócios de onde Pequim se expandiu para distintos segmentos da economia, desde a automotiva, com a Chery, até a ferroviária, com o projeto Belgrano Cargas, entre outros.
Muitos outros empresários com essas características têm feito grandes projetos com a China na região; por isso não é de estranhar que a estrutura de negócios de Manzano, e ele mesmo, sejam considerados de valor estratégicos para os analistas de Pequim em seu desdobramento nos mercados da América Latina, exatamente agora quando os documentos de várias licitações na Argentina limitam a intervenção de empresas com participação estatal majoritária, o que complica especialmente a vida dos conglomerados do governo de Xi Jinping. Situação ante a qual, os caminhos comerciais e os parceiros estratégicos locais, como o fundador da Integra Capital, podem
resultar ser muito mais atraentes como alternativa para alcançar oportunidades de difícil acesso.Marcos González Gava é Co Fundador da Reporte Asia, Especializado em Negociações Econômicas, Financeiras e Comerciais, e Assuntos Culturais com a República Popular da China

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