O que ocorreu na Venezuela coloca novamente em pauta uma discussão que boa parte da liderança política e do progressismo regional evita enfrentar com honestidade: como se defende a soberania de um povo submetido durante décadas a uma ditadura que não aceita eleições livres, reprime sua sociedade e expulsa milhões de cidadãos?
O regime de Nicolás Maduro é apresentado por alguns governos e organismos internacionais como um “ator legítimo” com o qual é preciso dialogar. No entanto, na prática, a Venezuela reúne todas as características de uma narco-ditadura consolidada: controle total do aparelho estatal, perseguição sistemática da oposição, anulação do processo eleitoral e uso da violência como ferramenta de disciplinamento social.
Eleições sem povo: a democracia esvaziada
Falar de “eleições” na Venezuela é, no mínimo, uma ficção. Segundo dados de organismos internacionais e da ONU, mais de 7,7 milhões de venezuelanos estão exilados ou deslocados forçosamente, a maior diáspora da história recente da América Latina. Não se trata de migração voluntária: é exílio político e econômico produzido por um regime que tornou inviável a vida cotidiana.
A isso se soma um dado central: dezenas de dirigentes opositores foram impedidos de competir eleitoralmente, entre eles candidatos com amplo respaldo popular. A outros, diretamente, foram encarcerados ou forçados ao exílio. O resultado é óbvio: quando o regime ganha, o faz sem rivais reais; quando perde apoio, simplesmente impede a competição.
A existência de presos políticos, centros de detenção denunciados por torturas e desaparecimentos temporários, e a criminalização da protesto completam o quadro. As marchas populares na Venezuela não são expressões democráticas: são reprimidas com forças armadas, coletivos parapolicial e detenções em massa.
Um caso que ilustra o caráter do regime é o do cidadão argentino Nahuel Gallo, sequestrado há mais de um ano sem garantias judiciais claras, em um contexto onde o sistema de justiça responde diretamente ao poder político. Não há Estado de Direito: há administração do medo.
O direito internacional e seu limite moral
Frente a esse cenário, boa parte da comunidade internacional sustenta que qualquer intervenção externa “viola a soberania venezuelana”. É um argumento que soa bem em fóruns diplomáticos, mas que se torna frágil quando contrastado com a realidade.
O direito internacional foi concebido para proteger os povos, não regimes que os oprimem. Quando um governo anula a vontade popular, persegue opositores, manipula eleições e condena sua sociedade à miséria, a pergunta deixa de ser jurídica e passa a ser política e moral: até quando a não intervenção se torna cumplicidade?
Como se derruba uma ditadura que não aceita eleições?
Esta é a pergunta que muitos evitam. Se não há eleições livres, se a protesto é reprimido e se a oposição é encarcerada ou exilada, que saída resta?
A história demonstra que nenhuma ditadura caiu apenas pela boa vontade do poder. Em diferentes momentos dos séculos XX e XXI, os Estados Unidos participaram ativamente de processos de transição política: desde a Europa após a Segunda Guerra Mundial até intervenções diplomáticas, econômicas e estratégicas em diferentes países onde os regimes autoritários haviam fechado a via democrática.
Hoje, o que ocorreu na Venezuela abre uma janela histórica: pela primeira vez em anos, o regime mostra fissuras reais. E a intervenção estadunidense, longe de ser um ato colonial clássico, pode ser lida como uma pressão externa decisiva para romper um sistema fechado que já não poderia ser reformado de dentro.
Petróleo, pobreza e a grande fraude do “recurso soberano”
O argumento de que os Estados Unidos intervieram na Venezuela “apenas por causa do petróleo” costuma ser apresentado como uma verdade revelada. Mas quando se observa a realidade venezuelana, esse raciocínio começa a ter falhas. A Venezuela é o país com as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo e, ao mesmo tempo, um dos mais pobres do continente. Algo não se encaixa.
Segundo a última Pesquisa Nacional de Condições de Vida (ENCOVI), mais de 80% dos venezuelanos vivem em situação de pobreza e cerca de 50% em pobreza extrema. Ou seja: ter petróleo não evitou o colapso social, nem garantiu salários dignos, nem alimentos, nem serviços básicos. Pelo contrário, o petróleo se tornou o bote de uma elite política e militar que governa de costas para a sociedade.
Durante anos, o regime de Nicolás Maduro utilizou a petrolífera estatal PDVSA como uma caixa política. As vendas de petróleo foram realizadas por meio de intermediários opacos, empresas fantasmas e contratos sem licitação, muitas vezes com descontos de até 40%, para escapar de sanções internacionais. Em numerosos casos, o petróleo nem mesmo ingressou como divisas no país: foi trocado por pagamentos em dinheiro, favores políticos ou cancelamento de dívidas com potências estrangeiras.
A isso se somam os acordos petrolíferos com a China e a Rússia sob a modalidade de “petróleo por dívida”, onde a Venezuela entregou milhões de barris durante anos sem controle parlamentar e sem prestação de contas pública. O resultado foi devastador: o país perdeu recursos estratégicos sem melhorar a vida de sua população, enquanto a infraestrutura petrolífera se deteriorava e a produção caía a mínimas históricas.
Mesmo as licenças concedidas a empresas estrangeiras —como o caso da Chevron— evidenciaram o problema de fundo: o petróleo de fato gera receitas quando há regras, instituições e controles, algo inexistente sob o chavismo. Onde houve mínima transparência, houve resultados; onde prevaleceu a discricionariedade do regime, houve saque.
Esse ponto é chave para desmontar o relato simplista: o petróleo não é sinônimo de bem-estar, e muito menos de soberania. Sem instituições, sem liberdade econômica e sem controles democráticos, os recursos naturais se tornam uma maldição. A Venezuela é o exemplo mais brutal disso.
Por isso, afirmar que os Estados Unidos “intervieram apenas por causa do petróleo” omite uma realidade incômoda: o petróleo já estava sendo explorado, mas não para os venezuelanos. Ele era levado por uma casta governante que usou esse recurso para sustentar seu poder, financiar redes de corrupção e garantir lealdades internas, enquanto o povo fazia filas para conseguir comida ou fugia do país.
A discussão de fundo não é quem fica com o petróleo, mas quem se beneficia dele. E hoje está claro que sob uma ditadura, os recursos estratégicos não são soberanos: são reféns. Somente em um cenário de transição política real, com eleições livres e controle cidadão, o petróleo pode deixar de ser um instrumento de dominação e começar a ser uma ferramenta de reconstrução nacional.
Nesse contexto, a intervenção externa deixa de ser lida como um saque clássico e passa a fazer parte de uma disputa mais profunda: acabar com um regime que transformou a riqueza natural em miséria estrutural.
Soberania não é sustentar ditadores
O grande erro do debate é confundir soberania com permanência do regime. A soberania pertence ao povo, não ao ditador. Defender a soberania venezuelana não pode significar defender um poder que expulsou milhões de cidadãos, destruiu a moeda, aniquilou a produção e transformou o Estado em uma estrutura de controle.
Hoje, a Venezuela tem uma oportunidade que não teve em anos: reconstruir seu Estado, recuperar eleições reais e permitir o retorno de seu povo. Não será um processo limpo nem imediato. Nenhuma transição é. Mas continuar olhando para o outro lado em nome de um purismo jurídico seria, mais uma vez, condenar um povo inteiro ao encerramento político.
O dilema é incômodo, mas inevitável:
quando a democracia é impossível de dentro, a pressão externa deixa de ser uma intromissão e passa a ser uma ferramenta. A história dirá, mas o que já está claro é que a inação apenas garantia a continuidade da ditadura. E isso, definitivamente, não é soberania.

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