A avassaladora superioridade militar de Washington e Tel Aviv em relação ao Irã e ao Hezbollah não se traduz em vantagens estratégicas duradouras. À medida que o conflito se prolonga —já entrado em sua sexta semana—, os custos humanos, econômicos, ambientais e geopolíticos se acumulam e configuram um panorama inquietante: uma vitória tática que ameaça se transformar em uma derrota histórica para a ordem internacional liderada pelos Estados Unidos.
A história militar está repleta de triunfos que, com o passar do tempo, revelam sua verdadeira natureza ambígua. A atual guerra no Golfo Pérsico caminha para se inscrever nessa tradição, onde a eficácia bélica convive com o fracasso político. Os Estados Unidos e Israel exibiram mais uma vez seu domínio tecnológico, seu controle do espaço aéreo e sua capacidade de destruir infraestruturas críticas iranianas. No entanto, longe de se aproximar de seus objetivos estratégicos, o conflito erode progressivamente os pilares de sua própria hegemonia.
O conceito de “vitória de Pirro” —um triunfo obtido a um custo tão elevado que equivale praticamente a uma derrota— não é aqui uma mera metáfora, mas uma ferramenta analítica precisa para entender a deriva do enfrentamento. Segundo as análises disponíveis, a guerra não apenas falhou em quebrar a vontade de resistência iraniana, mas produziu o efeito inverso: reforçou a coesão interna de um país que, diante da agressão externa, fechou filas em torno de suas instituições políticas e militares.
Longe de provocar o colapso do regime, os ataques —incluindo a eliminação do líder supremo Ali Khamenei— contribuíram para consolidá-lo. A expectativa inicial de que a decapitação de figuras-chave desencadearia uma insurreição popular se mostrou errônea. Em seu lugar, o conflito ativou mecanismos nacionalistas profundamente enraizados, convertendo a contenda em uma luta existencial para a nação iraniana. Este fenômeno, recorrente na história contemporânea, revela uma incompreensão estrutural das dinâmicas sociais e políticas do Irã por parte dos planejadores ocidentais.
No terreno, a aparente superioridade militar começa a mostrar fendas menos visíveis, mas decisivas do ponto de vista estratégico. A guerra assimétrica impulsionada pelo Irã expôs uma vulnerabilidade crítica do modelo bélico norte-americano: sua insustentabilidade econômica em conflitos de longa duração. A desproporção de custos entre os sistemas defensivos ocidentais —mísseis de vários milhões de dólares— e os meios ofensivos iranianos —drones e mísseis de baixo custo— é devastadora. Interceptar projéteis baratos com armamento de alta tecnologia não é uma anomalia, mas um padrão estrutural que mina a capacidade operacional a longo prazo.
Essa lógica transforma cada intercâmbio em uma perda relativa para a potência tecnologicamente superior. O Irã não precisa vencer em batalhas convencionais; basta prolongar o conflito, elevar seus custos e desgastar o adversário. Nesse terreno, o tempo se torna um aliado estratégico mais poderoso do que qualquer arsenal.
Além disso, soma-se um fator preocupante: a progressiva desarticulação interna do aparato militar americano. As tensões na cadeia de comando, as destituições de altos oficiais e os sinais de resistência a uma possível escalada terrestre apontam para fraturas profundas no seio das forças armadas. Em toda guerra prolongada, a coesão interna é tão determinante quanto a capacidade ofensiva. Quando esta se resquebra, o desfecho deixa de depender exclusivamente do inimigo.
No plano internacional, o isolamento da operação militar constitui outro claro indicador de fracasso estratégico. A Europa, longe de se alinhar sem reservas a Washington, adotou uma postura ambígua: condenação retórica ao Irã combinada com a negativa de se implicar diretamente no conflito. A falta de apoio operacional de aliados-chave revela um enfraquecimento do consenso ocidental que, durante décadas, sustentou a projeção global dos Estados Unidos.
Enquanto isso, potências como Rússia e China observam atentamente cada fase do enfrentamento. Não se trata de uma intervenção direta, mas de uma vigilância estratégica que lhes permite extrair lições sobre o funcionamento real dos sistemas militares norte-americanos e israelenses. Esta transferência de conhecimento, juntamente com o possível fornecimento indireto de inteligência e armamento ao Irã, transforma a guerra em um laboratório geopolítico cujas repercussões vão muito além do cenário regional.
Mas é no âmbito econômico que os efeitos são mais devastadores. O fechamento efetivo do estreito de Ormuz —por onde transita aproximadamente um quinto do petróleo mundial e uma proporção similar de gás natural liquefeito— desencadeou uma crise energética de dimensões históricas. O fluxo de petróleo foi reduzido a um gotejamento, o que provocou um aumento vertiginoso dos preços: o barril superou níveis que não eram registrados desde as grandes crises do século XX, com picos que chegaram perto ou ultrapassaram os 100 dólares em alguns momentos.
Esse choque não se limita ao setor energético. A interconexão da economia global amplifica seus efeitos em cascata: transporte, agricultura, indústria e consumo são atingidos simultaneamente. A inflação dispara enquanto o crescimento desacelera, configurando um cenário de estagflação que evoca os piores episódios da década de 1970, embora com uma intensidade potencialmente maior. Mesmo uma vitória militar completa sobre o Irã seria insuficiente para reverter o dano já causado: a guerra alterou de forma irreversível as expectativas dos mercados, acelerou a fragmentação do sistema energético global e erodiu a confiança na estabilidade das rotas comerciais. A hegemonia americana, que repousa em grande parte em sua capacidade de garantir a ordem econômica internacional, fica seriamente comprometida.
A esta dimensão se acrescenta um fator muitas vezes subestimado, mas de consequências duradouras: o impacto ambiental. Os ataques contra infraestruturas energéticas liberaram milhões de toneladas de gases poluentes, provocaram incêndios industriais de grande escala e causaram derramamentos de hidrocarbonetos no Golfo Pérsico. Imagens de céus escurecidos por fumaça tóxica, chuvas negras e ecossistemas marinhos contaminados não representam um mero dano colateral: constituem um lembrete de que os conflitos contemporâneos geram efeitos globais. As partículas poluentes podem viajar milhares de quilômetros e afetar países alheios ao conflito. Nesse sentido, a guerra se transforma em um problema planetário.
Paralelamente, a estratégia de escalada de Washington levanta questões de enorme gravidade. A possibilidade de destruir de maneira sistemática infraestruturas civis essenciais —fornecimento elétrico, água potável, sistemas de saneamento— não apenas gera um dilema moral, mas um risco geopolítico de primeiro nível. A aniquilação funcional de um Estado com quase noventa milhões de habitantes poderia desencadear uma crise humanitária sem precedentes, com repercussões imprevisíveis para a estabilidade regional e global.
Nesse cenário, a pergunta central já não é se os Estados Unidos e Israel podem ganhar a guerra em termos militares. A verdadeira questão é o que significa “vencer” em um conflito dessas características. Se a vitória implica a destruição de um país, o colapso parcial da economia mundial, o deterioro ambiental em escala global e o enfraquecimento da própria hegemonia, então o conceito mesmo de vitória perde seu sentido.
A erosão do apoio interno nos Estados Unidos acrescenta uma camada adicional de complexidade. A queda da aprovação presidencial e o crescente ceticismo da opinião pública refletem uma desconexão entre os objetivos declarados e a percepção social do conflito. Nas democracias contemporâneas, a legitimidade interna constitui um recurso estratégico tão valioso quanto qualquer sistema de armas.
Assim, a guerra no Golfo Pérsico se perfilha como um ponto de inflexão histórico. Não tanto pelo resultado das batalhas, mas por suas consequências sistêmicas. Em um mundo interdependente, a força militar já não garante o controle político nem a estabilidade econômica. A superioridade tática pode coexistir com a derrota estratégica.
Talvez, quando a fumaça se dissipe e se conheçam os números definitivos, esta guerra seja lembrada não como uma demonstração de poder, mas como o momento em que esse poder começou a desvanecer: uma vitória aparentemente incontestável que terminou se revelando como o que sempre foi: uma derrota adiada.
Adalberto Agozino é Doutor em Ciência Política, Analista Internacional e Docente da Universidade de Buenos Aires

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