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Já voltamos à Lua. Mas não é o que parece.

Por Uriel Manzo Diaz

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Números em primeiro lugar

No dia 1 de abril de 2026, a NASA lançou a Artemis II do Centro Espacial Kennedy. A bordo: Reid Wiseman, Victor Glover, Christina Koch e o canadense Jeremy Hansen. Dez dias depois, amerizaram no Pacífico. A missão não pousou na Lua — foi um sobrevoo. Mas percorreram 1.117.659 quilômetros, mais longe do que qualquer humano desde o Apolo 13 em 1970.

Era a primeira vez em 54 anos que alguém chegava nas proximidades da Lua com pessoas a bordo. A última foi em 1972. E quando a NASA venceu a corrida espacial, simplesmente parou de ir.

  • Distância total: 1.117.659 km — recorde desde o Apolo 13

  • Duração: 10 dias

  • Última missão lunar tripulada anterior: Apolo 17, dezembro de 1972

  • Custo estimado do programa Artemis: +USD 93 bilhões

Por que agora, depois de meio século?

A resposta curta: China.

Pequim tem construído em silêncio o programa espacial mais ambicioso fora dos Estados Unidos. Pousaram na face oculta da Lua com a Chang'e 4 — algo que nenhum outro país havia alcançado. Trouxeram amostras lunares de volta à Terra com a Chang'e 5. E neste mesmo ano, 2026, pretendem explorar o polo sul lunar com a Chang'e 7.

O diretor da NASA, Jared Isaacman, já não fala da China como um parceiro possível. Ele a chama de "um rival geopolítico real que desafia a liderança americana no espaço". O presidente Trump, no dia do lançamento, escreveu no Truth Social que os Estados Unidos "não apenas competem, DOMINAM".

Pequim, por sua vez, disse que não participa de nenhuma corrida espacial. E ao mesmo tempo continua avançando.

Resgate da tripulação da missão Artemis II. Foto: NASA

A última vez que competimos, saiu isso

Entre 1957 e 1972, a corrida espacial entre os Estados Unidos e a União Soviética não foi apenas uma disputa de bandeiras. Foi o maior programa de P&D forçado da história moderna. A pressão para ser o primeiro obrigou a desenvolver tecnologia que não existia.

O resultado direto dessa competição inclui o GPS, microprocessadores, sistemas portáteis de purificação de água, a espuma de memória, detectores de fumaça domésticos, câmeras digitais e grande parte da infraestrutura de telecomunicações via satélite que hoje usamos sem pensar. Não foi filantropia — foi a consequência de duas potências correndo sem parar por quinze anos.

A pergunta que ninguém pode responder ainda é o que vai sair dessa nova corrida. Mas a história sugere que algo vai sair.

O que há no polo sul da Lua

Tanto os Estados Unidos quanto a China querem o mesmo lugar: o polo sul lunar. Não é coincidência.

Essa região tem crateras de sombra permanente onde a temperatura nunca sobe. Lá há gelo de água preso por bilhões de anos. Água que pode ser convertida em oxigênio para respirar, em hidrogênio para combustível, em recurso para sustentar uma base lunar sem depender da Terra para cada reabastecimento.

Também há hélio-3, um isótopo que na Terra é quase inexistente e que alguns físicos consideram o combustível ideal para a fusão nuclear do futuro. A Lua tem hélio-3 suficiente em sua superfície para abastecer a Terra com energia por séculos, segundo estimativas da Agência Espacial Europeia.

  • Hélio-3 na Lua: ~1.100.000 toneladas estimadas na superfície

  • Valor teórico do hélio-3 lunar: +USD 3 milhões por kg nos mercados atuais

  • Água congelada estimada no polo sul: Centenas de milhões de toneladas

  • Desta vez há privados dentro

A diferença mais importante entre a corrida espacial dos anos 60 e a de agora não é tecnológica. É estrutural.

Na Guerra Fria, dois Estados competiam com dinheiro público e motivação ideológica. Hoje, os Estados Unidos competem com um modelo híbrido: a NASA estabelece a estrutura legal e parte do financiamento, mas a SpaceX constrói o foguete de pouso para a Artemis III, a Blue Origin constrói o módulo alternativo, e dezenas de empresas privadas competem pelos contratos que vão definir quem opera na Lua nas próximas décadas.

A SpaceX já recebeu mais de USD 4 bilhões apenas em contratos de módulos de pouso lunar. A Blue Origin está na faixa de USD 3,4 bilhões. Isso não é filantropia espacial — é uma aposta de negócio sobre quem vai controlar a logística e os recursos quando isso escalar.

A China, por outro lado, mantém o modelo estatal. Seu programa avança mais lentamente, mas com menos dependência de mercados privados. Os analistas não concordam sobre quem tem vantagem — depende do que importa mais: velocidade ou controle.

Quem foi o último homem que pisou na Lua

O problema: não há regras

O Tratado sobre o Espaço Ultraterrestre foi assinado em 1967. Proíbe que os países se apropriem da Lua ou de outros corpos celestes. Tudo bem. O problema é que não diz absolutamente nada sobre extrair recursos desses corpos celestes.

Os Estados Unidos resolveram isso por conta própria: em 2015, aprovaram uma lei que permite a cidadãos e empresas americanas possuírem os recursos que extraírem do espaço. Não do território — dos recursos. A China não assinou essa interpretação. A Rússia também não.

A Rússia, na verdade, acaba de anunciar 7,5 bilhões de euros para seu programa lunar e falou sobre estabelecer "territórios soberanos russos" na superfície. Isso viola diretamente o tratado de 1967. Ninguém sabe ainda como isso será resolvido.

Na ONU, a discussão avança lentamente. Na Lua, todos avançam rapidamente. Existe um princípio em geopolítica espacial que cada vez mais especialistas repetem: como na Antártica, as regras são definidas por quem chega primeiro e fica.

O que vem a seguir

A Artemis II foi um voo de teste. O próximo passo é a Artemis III, prevista para 2027: essa sim pousa na superfície lunar. É a primeira vez que humanos pisariam na Lua desde 1972.

Depois, Artemis IV em 2028 e a construção gradual de infraestrutura orbital. O objetivo declarado da NASA é ter uma presença permanente na Lua antes de 2030 e usar isso como base para missões tripuladas a Marte.

A China visa seu próprio alunizagem tripulada antes de 2030. Seu foguete pesado Long March 10, necessário para isso, ainda não voou com tripulação.

A Argentina, dado local: a CONAE tem um satélite, o ATENEA, selecionado para voar na Artemis II. Estuda blindagem radiológica e comunicações de longa distância. É a primeira participação argentina em uma missão lunar.

Para encerrar

Fomos à Lua porque a China está indo. O que acontecer no polo sul lunar nos próximos dez anos vai definir quem controla os recursos, quem impõe as regras e quem lidera a economia espacial do século. Não é ficção científica — é geopolítica com foguetes.

A última vez que duas potências competiram assim, o mundo terminou com GPS, internet via satélite e microprocessadores. Desta vez há mais atores, mais dinheiro privado e menos acordos. O que sair disso será maior. E ainda ninguém sabe exatamente o que é.

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Uriel Manzo Diaz

Uriel Manzo Diaz

Olá! Meu nome é Uriel Manzo Diaz, atualmente estou em processo de aprofundar meus conhecimentos em relações internacionais e ciências políticas, e planejo começar meus estudos nesses campos em 2026. Sou apaixonado por política, educação, cultura, livros e temas internacionais.

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