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"O que há debaixo da Antártida e por que é importante? (Marcos González Gava)"

Por Poder & Dinero

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Debaixo da maior extensão de gelo do planeta há um continente inteiro que ninguém viu. Montanhas enterradas sob quilômetros de gelo, lagos com milhões de anos de isolamento, reservas de recursos que poderiam redefinir o equilíbrio de poder global. A Antártida se apresenta ao mundo como um território de ciência e silêncio. É, na verdade, o cenário de uma disputa que apenas começa.

O que há embaixo

A camada de gelo tem uma média de 2.300 metros de espessura. Debaixo, há rocha continental, montanhas de até 3.000 metros que nunca foram vistas e mais de 400 lagos subglaciais selados pelo peso do gelo. O maior deles, o lago Vostok, está isolado do resto do planeta há entre 15 e 25 milhões de anos. Em 2012, cientistas russos alcançaram suas águas após décadas de perfuração e encontraram indícios de microorganismos adaptados à escuridão total e à pressão extrema.

A descoberta tem ressonâncias que vão além da biologia terrestre: luas como Europa e Encélado apresentam condições semelhantes, e o que ocorrer no Vostok pode se tornar o modelo de referência para a busca de vida em outros mundos.

Debaixo do gelo também há recursos. As estimativas geológicas indicam reservas de carvão, ferro, cobre, ouro e possíveis depósitos de petróleo e gás na plataforma continental. O continente concentra ainda 70% da água doce do planeta, um ativo cuja valorização estratégica cresce à medida que a escassez hídrica avança em outras regiões.

O Protocolo de Madri de 1991 proíbe sua exploração, mas inclui uma cláusula que o torna revisável a partir de 2048. Essa data, aparentemente distante, organiza silenciosamente a estratégia das grandes potências.

A disputa que não é nomeada

A China inaugurou sua quinta base antártica em 2024 e opera quebra-gelos de última geração. Sua distribuição geográfica no continente não é considerada casual pelos analistas ocidentais. A Rússia mantém a rede mais antiga, herdada da era soviética, com presença histórica na área do lago Vostok. Os Estados Unidos gerenciam McMurdo, a maior instalação permanente do continente. A Argentina e o Chile têm reivindicações territoriais congeladas pelo Tratado da Antártica de 1959 e presença histórica na Península Antártica. Nenhum desses movimentos é puramente científico. São, em diferentes proporções, atos de posicionamento antecipado diante de um horizonte que se aproxima.

O sul americano como porta de entrada

O caminho para a Antártida passa pelo extremo sul da América: o Estreito de Magalhães e o Canal de Beagle são as rotas alternativas ao Cabo Horn para a navegação entre o Atlântico e o Pacífico: artérias de importância estratégica que os séculos não reduziram. Ushuaia, o porto mais austral do mundo, é o ponto de reabastecimento natural para as expedições antárticas e o centro de uma discussão recorrente na Argentina sobre a necessidade de infraestrutura de águas profundas que projete soberania efetiva para o sul.

As Malvinas completam esse quadro com uma disputa que não encontrou resolução. O arquipélago, sob controle britânico e reivindicado soberanamente pela Argentina, possui uma zona econômica exclusiva de alto valor pesqueiro e hidrocarburífero.

A pesca ilegal no Atlântico Sul - com frotas de até 400 barcos estrangeiros, a maioria chineses, operando nas proximidades da ZEE argentina - é um sinal persistente da escassez de meios de controle efetivo em uma região que, paradoxalmente, concentra cada vez mais interesse externo.

O que está em jogo

Se o gelo antártico derretesse completamente, o nível do mar subiria 58 metros. Buenos Aires, Xangai, Nova York e Londres ficariam parcialmente submersas. A Antártida não é apenas um repositório de recursos ou um tabuleiro de disputa geopolítica: é o regulador climático mais poderoso do planeta, e sua estabilidade é uma condição de possibilidade para a civilização como a conhecemos hoje.

O sul do mundo tem sido há séculos a margem do mapa. O que ali se acumula — gelo, recursos, bases militares, reivindicações territoriais — sugere que essa margem está prestes a se tornar o centro.

Marcos González Gava é cofundador do Reporte ASIA e especialista em gestão de negócios comerciais, financeiros e assuntos culturais com a República Popular da China.

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