Há 1 dia - politica-e-sociedade

Para onde Trump está levando o mundo? Por Adalberto Agozino

Por Poder & Dinero

Portada

muitos analistas internacionais se perguntam se as decisões do presidente dos Estados Unidos Donald Trump respondem a impulsos improvisados —e, portanto, irreflexivos— ou se, ao contrário, fazem parte de uma estratégia cuidadosamente elaborada para redefinir o equilíbrio global antes que seu mandato termine. A acumulação de medidas adotadas desde seu retorno à Casa Branca parece sugerir o segundo: um plano coerente, embora disruptivo, destinado a preservar a primazia dos Estados Unidos em um sistema internacional que Washington percebe cada vez mais hostil.

Ao assumir novamente a presidência, Trump parecia ter chegado a uma conclusão central: a liderança global dos Estados Unidos estava sendo erodida pela ascensão de uma potência rival. Ao contrário dos tempos de Ronald Reagan, quando o “Império do Mal” era a União Soviética, o desafio estratégico do século XXI vem da China.

O gigante asiático não apenas possui uma economia capaz de rivalizar com a primazia tecnológica e industrial dos Estados Unidos, mas também uma rede de aliados políticos e comerciais que ampliam sua influência. Destacam-se entre eles os países agrupados no bloco dos BRICS, uma plataforma formada por economias emergentes que buscam reduzir a hegemonia financeira ocidental por meio de iniciativas como a desdolarização do comércio internacional, a criação de mecanismos de crédito alternativos e um maior uso de moedas nacionais nas transações globais.

Um novo “eixo” geopolítico

Na visão estratégica de Washington, o sistema de alianças que orbita em torno de Pequim inclui a Rússia, Irã e Coreia do Norte como pilares principais. Ao seu redor, alinham-se parceiros menores —embora geopoliticamente relevantes— como Venezuela, Cuba e Nicarágua.

Esses países desempenham um papel particularmente sensível para os Estados Unidos porque se situam no Caribe e na América Latina, regiões tradicionalmente consideradas parte de sua esfera de influência estratégica. Do ponto de vista americano, sua presença ali constitui uma ameaça direta no chamado “ventre mole” do país.

A cooperação entre esses Estados não se limita ao plano político. Também abrange acordos militares, intercâmbio de inteligência e exercícios conjuntos. Em alguns casos, inclui até mesmo a presença física de forças estrangeiras. Tropas russas foram destacadas na Venezuela e em Cuba, enquanto a China mantém instalações de monitoramento espacial e de guerra eletrônica em território cubano.

Em fevereiro de 2026, o chefe do Comando Sul dos Estados Unidos, o almirante Alvin Holsey, advertiu ao Congresso que Pequim utiliza Cuba como uma “plataforma avançada para a coleta de inteligência”. Segundo a administração americana, essas atividades remontam pelo menos a 2019 e foram ampliadas nos últimos anos.

A essa rede se somam outros indícios de cooperação estratégica. Navios iranianos têm realizado escalas frequentes em portos venezuelanos e cubanos, enquanto os intercâmbios militares entre Moscou, Teerã e Caracas tornaram-se cada vez mais visíveis.

Os enclaves estratégicos da China na América Latina

A China também consolidou posições-chave na América Latina por meio de investimentos em infraestruturas críticas. Entre elas, destaca-se o controle que empresas ligadas ao conglomerado de Hong Kong CK Hutchison exercem sobre instalações no Canal do Panamá, o megapuerto de Chancay no Peru —concebido como uma porta de entrada direta para o comércio asiático— e a estação espacial chinesa instalada em Bajada del Agrio, na província argentina de Neuquén.

Este complexo, que ocupa cerca de 200 hectares na Patagônia, é operado pela Agência Chinesa de Lançamento e Controle de Satélites, ligada ao Exército Popular de Libertação. Para muitos analistas ocidentais, seu caráter dual —civil e militar— levanta questões sobre seu possível uso com fins estratégicos.

A dimensão energética também faz parte dessa equação. Em 2025, a Venezuela forneceu entre 3,3% e 3,5% das importações petrolíferas totais da China, enquanto o Irã contribuiu com cerca de 13%. Esses fluxos consolidam a interdependência entre Pequim e alguns dos principais adversários de Washington.

A ascensão militar chinesa

Embora a expansão internacional da China tenha sido apoiada principalmente no comércio e no investimento, Pequim não negligenciou o desenvolvimento de seu poder militar. Nos últimos anos, modernizou rapidamente sua marinha e sua aviação naval, ampliando sua capacidade de projetar força no Mar do Sul da China e nas rotas marítimas que abastecem sua economia.

A inauguração de sua base naval em Djibuti, no estratégico Chifre da África, foi um símbolo dessa mudança de escala. Desde então, a presença naval chinesa no Índico e no Pacífico Ocidental aumentou constantemente, gerando preocupação em países como Japão, Coreia do Sul e Taiwan.

A resposta de Trump

Diante do que considera uma ameaça existencial para a hegemonia americana, Donald Trump optou por uma estratégia direta: reforçar seus aliados, enfraquecer a coalizão rival e reconfigurar o sistema internacional em termos mais favoráveis a Washington.

Seu discurso inaugural já continha sinais dessa orientação. Entre eles, destacavam-se seu interesse em adquirir a Groenlândia e por reforçar o controle americano sobre o Canal do Panamá, dois enclaves estratégicos para as rotas comerciais e militares do Atlântico Norte.

Ao mesmo tempo, exigiu dos países da OTAN um aumento substancial de seu gasto em defesa, advertindo que os Estados Unidos poderiam reconsiderar seu compromisso com a segurança europeia se os aliados não assumissem uma parte maior do peso. A insinuação de que Washington poderia retirar seu “guarda-chuva nuclear” sobre a Europa gerou inquietação em várias capitais do continente.

Trump também marginalizou os governos europeus nas principais negociações internacionais, especialmente nos conflitos da Ucrânia e do Oriente Médio, reforçando um estilo diplomático baseado em decisões unilaterais.

Do multilateralismo ao bilateralismo

A política externa americana experimentou assim uma mudança significativa: o abandono do multilateralismo tradicional em favor de acordos bilaterais ou coalizões ad hoc.

Em janeiro de 2026, Washington promoveu a criação do Board of Peace (Conselho de Paz), um fórum internacional destinado a coordenar iniciativas de segurança, mediação em conflitos e reconstrução em zonas de guerra. Entre seus membros iniciais estavam vários líderes ideologicamente próximos a Trump, como o presidente argentino Javier Milei, o salvadorenho Nayib Bukele, o equatoriano Daniel Noboa e a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni.

De forma paralela, os Estados Unidos impulsionaram uma aliança regional denominada Shield of the Americas, composta por 17 países e voltada para a cooperação militar contra o narcotráfico e a crescente influência chinesa no hemisfério ocidental.

O distanciamento das Nações Unidas

Essa nova abordagem também implicou um distanciamento crescente das instituições multilaterais tradicionais. A administração Trump suspendeu o financiamento americano a várias agências vinculadas às Nações Unidas, entre elas a Organização Mundial da Saúde, a UNESCO, o Conselho de Direitos Humanos e a agência de assistência aos refugiados palestinos.

Em janeiro de 2026, o presidente também assinou um memorando ordenando uma revisão da participação dos Estados Unidos em 66 organismos internacionais.

Para a Casa Branca, muitas dessas instituições se tornaram plataformas burocráticas que utilizavam fundos americanos para promover políticas contrárias aos interesses de Washington.

Europa, entre a dependência e a autonomia

Neste contexto, a Europa enfrenta uma realidade desconfortável. Sem a plena garantia de segurança americana, a União Europeia se depara com o desafio de reforçar sua autonomia estratégica.

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, expressou isso claramente em março de 2026 durante uma conferência de embaixadores em Bruxelas. “A ideia de que podemos simplesmente nos retirar deste mundo caótico é uma falácia”, afirmou. A Europa, acrescentou, deve desenvolver “maior assertividade” e construir novas formas de cooperação para defender seus interesses em um sistema internacional cada vez mais instável.

Intervenções e conflitos

Enquanto isso, a Casa Branca continuou a implementar sua estratégia global rapidamente.

Após a chamada “batalha das tarifas”, os Estados Unidos bombardearam instalações nucleares iranianas para pôr fim à chamada Guerra dos Doze Dias entre Israel e Teerã. Posteriormente, promovendo um acordo para interromper a guerra entre Israel e as milícias do Hamas e do Hezbollah em Gaza e no Líbano.

Mas o frente mais imediato para Washington estava no Caribe. Ali, a administração Trump intensificou sua pressão sobre o regime chavista na Venezuela. Inicialmente, justificou sua intervenção pela ameaça do narcotráfico, embora logo o discurso tenha mudado para o controle das maiores reservas de petróleo do mundo.

Segundo várias versões, no início de 2026 forças americanas conseguiram capturar o líder venezuelano Nicolás Maduro, forçando o governo enfraquecido liderado por Delcy Rodríguez a aceitar um acordo que incluía a abertura do setor petrolífero para empresas americanas e a libertação de prisioneiros políticos.

A pressão sobre Cuba e América Latina

A Casa Branca também endureceu sua postura em relação a Cuba, impondo um embargo total e prevendo o colapso do regime antes de outubro. Trump chegou até a sugerir que a ilha poderia se tornar um “Estado associado” ou eventualmente o “Estado número 51” da União.

As tensões não se limitaram a esses países. México, Colômbia e Brasil também receberam advertências de Washington.

No México, a pressão americana contribuiu para uma mudança na estratégia contra o narcotráfico, que culminou com a morte do líder do Cartel Jalisco Nova Geração, Nemesio Oseguera Cervantes, “El Mencho”, durante uma operação militar em fevereiro de 2026.

No Brasil, a relação com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deteriorou-se por causa da proximidade de Brasília com os BRICS e pela visita de navios de guerra iranianos a portos brasileiros em 2025.

A confrontação com o Irã

O frente mais explosivo dessa estratégia se encontra no Oriente Médio.

Com o desdobramento de uma poderosa força naval liderada pelo porta-aviões USS Abraham Lincoln, os Estados Unidos lançaram em 28 de fevereiro a Operação Fúria Épica, uma ofensiva conjunta com Israel contra instalações militares e nucleares iranianas.

Os objetivos declarados de Washington eram claros: destruir o programa nuclear iraniano, cortar o apoio de Teerã a milícias aliadas como Hamas, Hezbollah e os houthis e, em última instância, enfraquecer o regime dos aiatolás.

Mas a guerra também tem uma dimensão energética. O Irã possui as terceiras reservas de petróleo do mundo. Se Washington conseguisse controlar indiretamente esses recursos —juntos aos da Venezuela— sua influência sobre o mercado energético global seria considerável.

Um mundo em transição

O conflito com o Irã causou graves danos a infraestruturas civis, tensões regionais e um novo choque para a economia mundial, ainda debilitada pelas consequências da pandemia de COVID-19.

Neste momento, é impossível prever o desfecho do conflito. Provavelmente o Irã não conseguirá vencer a guerra, mas a incógnita é se o regime sobreviverá tempo suficiente para reconstruir sua capacidade militar e continuar sua ambição de se tornar uma potência nuclear.

A pergunta mais inquietante, no entanto, é outra: se essa série de movimentos constitui o prelúdio de uma confrontação muito maior com a China.

Porque, por trás de cada uma dessas crises, parece se perfilar o verdadeiro objetivo estratégico de Washington: impedir que Pequim se torne a potência dominante do século XXI.

Adalberto Agozino é Doutor em Ciência Política, Analista Internacional e Professor da Universidade de Buenos Aires.

Deseja validar este artigo?

Ao validar, você está certificando que a informação publicada está correta, nos ajudando a combater a desinformação.

Validado por 0 usuários
Poder & Dinero

Poder & Dinero

Somos um conjunto de profissionais de diferentes áreas, apaixonados por aprender e compreender o que acontece no mundo e suas consequências, para podermos transmitir conhecimento.
Sergio Berensztein, Fabián Calle, Pedro von Eyken, José Daniel Salinardi, William Acosta, junto a um destacado grupo de jornalistas e analistas da América Latina, Estados Unidos e Europa.

TwitterLinkedinYoutubeInstagram

Visualizações: 21

Comentários

Podemos te ajudar?