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"Leão XIV virá para confirmar a linha pastoral de García Cuerva ou para marcar um estilo próprio?"

Por Poder & Dinero

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O que dirá Leão XIV na Argentina? Entre a diplomacia vaticana e a doutrina social da Igreja

A eventual visita do papa Leão XIV à Argentina desperta uma expectativa que transcende o plano religioso. Em um país atravessado por uma profunda polarização política, uma severa transformação econômica e um intenso debate sobre o papel do Estado, cada palavra do Pontífice será observada com atenção pelo Governo, pela oposição, pela Igreja e pela comunidade internacional.

A grande pergunta não é somente se virá, mas o que dirá.

A Igreja argentina já marcou uma posição

Durante as celebrações patrióticas do 25 de Maio e do 9 de Julho, o arcebispo de Buenos Aires, Jorge García Cuerva, pronunciou homilias que muitos interpretaram como um alerta sobre o momento que o país atravessa.

Sem mencionar diretamente o presidente Javier Milei, suas mensagens giraram em torno de alguns eixos recorrentes:

  • o crescimento da pobreza;

  • a exclusão social;

  • a perda da cultura do encontro;

  • a necessidade do diálogo político;

  • a responsabilidade da liderança frente àqueles que ficam à margem do desenvolvimento econômico.

Não foram discursos partidários. Foram, mais precisamente, uma reafirmação da Doutrina Social da Igreja, que historicamente coloca no centro da reflexão a dignidade humana, o trabalho e a solidariedade.

Ao mesmo tempo, numerosos bispos argentinos têm expressado em diferentes momentos preocupações similares a respeito das consequências sociais do ajuste econômico e do aumento da vulnerabilidade de amplos setores da população.

Leão XIV seguirá esse caminho?

Até agora, o novo Pontífice evitou se envolver em debates políticos nacionais.

No entanto, suas primeiras intervenções públicas permitem identificar algumas constantes:

  • defesa da paz;

  • preocupação com as guerras e os deslocamentos humanos;

  • prioridade para os mais vulneráveis;

  • rejeição da polarização;

  • necessidade de reconstruir a confiança entre as instituições e a sociedade.

Não se trata de uma linguagem nova.

Faz parte da tradição da Igreja desde Leão XIII, autor da encíclica Rerum Novarum (1891), considerada o ponto de partida da Doutrina Social moderna.

Precisamente por isso, é pouco provável que Leão XIV viaje à Argentina para realizar uma intervenção partidária ou emitir um juízo direto sobre o Governo de Javier Milei.

A diplomacia vaticana raramente age dessa maneira.

Uma crítica sem nomes próprios

A Santa Sé costuma formular princípios universais que depois cada sociedade interpreta segundo sua própria realidade política.

Por isso, uma eventual mensagem papal poderia abordar questões como:

  • a dignidade do trabalho;

  • o combate contra a pobreza;

  • a inclusão social;

  • o acesso à educação;

  • a responsabilidade da liderança;

  • o diálogo como condição para a convivência democrática.

Nenhum desses conceitos implicaria necessariamente uma condenação ao programa econômico do Governo.

Mas também não seria estranho que muitos os interpretassem como uma observação crítica se coincidissem com os questionamentos que hoje formulam diversos setores da Igreja argentina.

O dilema de Milei

O Governo moderou consideravelmente sua relação com a Igreja em relação ao início da gestão.

As duríssimas críticas que Javier Milei dirigia anos atrás ao papa Francisco ficaram para trás.

Hoje, a Casa Rosada entende que uma visita papal teria um enorme valor institucional e internacional.

Consequentemente, o Governo procurará apresentar qualquer mensagem do Pontífice como um respaldo à estabilidade institucional e ao diálogo nacional.

A oposição provavelmente enfatizará qualquer referência à pobreza, à desigualdade ou à exclusão.

Ou seja, o mesmo discurso poderia ser lido de maneiras completamente diferentes.

Um novo capítulo na relação entre Igreja e Estado?

Existe, além disso, um aspecto histórico.

Durante o pontificado de Francisco, a relação entre amplos setores políticos argentinos e o Vaticano foi atravessada por interpretações partidárias que muitas vezes eclipsaram o conteúdo pastoral de suas mensagens.

Leão XIV parece decidido a evitar esse cenário.

Seu estilo, mais sóbrio e menos confrontativo, sugere uma maior distância em relação às disputas políticas nacionais.

Isso não significa abandonar a Doutrina Social da Igreja.

Significa expressá-la por meio de uma linguagem menos associada à conjuntura e mais orientada a princípios permanentes.

Mais que uma viagem pastoral

A eventual visita de Leão XIV terá inevitavelmente uma dimensão política, embora ele não o pretenda.

Cada gesto será observado.

Cada fotografia será analisada.

Cada palavra será interpretada.

No entanto, reduzir a viagem a um simples respaldo ou questionamento ao Governo seria desconhecer a maneira como a Santa Sé desenvolve historicamente sua ação internacional.

Os Papas não costumam viajar para intervir em campanhas eleitorais nem para respaldar programas econômicos específicos.

Viajam para recordar princípios que consideram permanentes.

E precisamente ali reside a verdadeira pergunta.

Se Leão XIV fala de pobreza, inclusão, trabalho, diálogo e dignidade humana, estará questionando o Governo argentino?

Ou simplesmente estará reiterando um ensinamento que a Igreja sustenta há mais de um século?

Talvez a resposta dependa menos do conteúdo da mensagem e mais da disposição de cada ator político para ouvi-la.

Em uma Argentina profundamente dividida, até mesmo as palavras mais universais podem se tornar o centro do debate político.

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