A chegada de Xi Jinping à Coreia do Norte para se encontrar com Kim Jong-un constitui um dos acontecimentos diplomáticos mais relevantes de 2026. Embora oficialmente a viagem tenha sido revestida de referências à amizade histórica entre ambos os países, as implicações reais da visita transcendem amplamente o âmbito bilateral. Por trás dos discursos sobre cooperação econômica, camaradagem socialista e estabilidade regional encontra-se uma complexa disputa pela configuração do poder na Ásia e, em última instância, pela própria natureza da ordem internacional emergente.
Durante dois dias cuidadosamente coreografados em Pyongyang, Xi e Kim concordaram em aprofundar a cooperação política, econômica e estratégica, reafirmando uma relação que ambos os regimes descrevem como uma amizade “forjada com sangue”. O simbolismo foi evidente em cada detalhe: a visita à Torre da Amizade dedicada aos soldados chineses caídos durante a Guerra da Coreia, o percurso por centros de formação ideológica do Partido dos Trabalhadores e os gestos destinados a mostrar uma sintonia que, durante os últimos anos, havia sido posta em dúvida pelo crescente aproximamento da Coreia do Norte à Rússia.
A importância histórica das relações sino-norcoreanas resulta difícil de exagerar. Desde a intervenção chinesa na Guerra da Coreia entre 1950 e 1953, a sobrevivência do regime norcoreano esteve estreitamente vinculada ao apoio de Pequim. A entrada de centenas de milhares de soldados chineses na península evitou o colapso das forças comunistas e selou uma aliança estratégica que perdura há mais de sete décadas. Aquela guerra tornou a Coreia do Norte uma peça fundamental do sistema de segurança chinês, uma espécie de Estado tampão entre o território continental da China e as forças americanas deslocadas na Coreia do Sul.
No entanto, essa relação nunca esteve isenta de tensões. Sob a liderança de Kim Jong-un, Pyongyang desenvolveu uma política externa mais autônoma do que a de seus predecessores. Os testes nucleares, os testes de mísseis balísticos e a execução em 2013 de Jang Song-thaek — considerado por Pequim um de seus principais interlocutores dentro do regime norcoreano — deterioraram sensivelmente a confiança mútua. Durante vários anos, Xi evitou se reunir com Kim e chegou até a visitar primeiro a Coreia do Sul, um gesto interpretado em Pyongyang como uma humilhação diplomática.
A reconciliação começou em 2018, quando as sanções internacionais e as dificuldades econômicas obrigaram Kim a buscar novamente o respaldo chinês. Desde então, os contatos se intensificaram, embora um novo fator tenha alterado a equação: o aproximamento entre Pyongyang e Moscou após a guerra na Ucrânia. A assinatura de um tratado de defesa mútua entre a Coreia do Norte e a Rússia em 2024 e o envio de tropas norcoreanas para apoiar as forças russas transformaram profundamente a dinâmica estratégica regional.
Precisamente por isso, muitos especialistas consideram que o objetivo principal de Xi durante esta visita foi recuperar influência sobre um aliado que começava a escapar parcialmente da órbita chinesa. O acadêmico Ankit Panda apontou que Pequim busca garantir que seus interesses estratégicos continuem protegidos na Coreia do Norte enquanto Moscou aumenta sua presença política e militar no país. Uma Coreia do Norte excessivamente dependente da Rússia reduziria a capacidade da China de moldar a evolução da península coreana.
A dimensão econômica do vínculo explica boa parte dessa preocupação. A China continua sendo, de longe, o principal parceiro comercial norcoreano. A maior parte das importações de alimentos, combustíveis, maquinário e bens de consumo que chegam à Coreia do Norte provém do mercado chinês. As exportações chinesas para Pyongyang alcançaram recentemente níveis não observados desde antes da pandemia, enquanto se reativaram conexões ferroviárias e projetos de cooperação econômica suspensos durante anos.
Para Kim Jong-un, manter uma relação estreita com Pequim continua sendo uma necessidade estratégica. A Rússia pode fornecer armamento, tecnologia militar e apoio político, mas carece da capacidade econômica para substituir o papel que desempenha a China como sustentáculo estrutural da economia norcoreana. A sobrevivência do regime continua dependendo em grande medida do acesso ao mercado chinês e da tolerância de Pequim em relação à aplicação das sanções internacionais.
No entanto, o aspecto mais significativo da visita se encontra provavelmente no campo da segurança. Um dos elementos que mais chamou a atenção dos observadores internacionais foi a ênfase colocada por Xi na ampliação da coordenação estratégica, intercâmbios militares e cooperação em matéria de segurança. Mais reveladora ainda foi a ausência de referências explícitas à desnuclearização da península coreana, um objetivo que a China havia defendido formalmente durante décadas.
Para analistas como Leif-Eric Easley ou Lim Eul-chul, essa omissão pode ser interpretada como um sinal de que Pequim está adaptando sua política a uma nova realidade: a aceitação tácita da Coreia do Norte como potência nuclear de fato. Não significa necessariamente um respaldo aberto ao programa atômico norcoreano, mas reflete que para a China a prioridade atual é a estabilidade estratégica frente aos Estados Unidos e seus aliados, mesmo que isso implique conviver com uma Coreia do Norte nuclearizada.
A consolidação de uma cooperação militar mais estreita entre China e Coreia do Norte teria consequências profundas para a segurança regional. Washington, Seul e Tóquio observam com preocupação qualquer indício de convergência estratégica entre ambos os países. Uma coordenação mais intensa poderia fortalecer a capacidade de dissuasão de Pyongyang e complicar os planos defensivos dos Estados Unidos no nordeste asiático. Além disso, poderia acelerar a integração dos sistemas de segurança da Coreia do Sul e do Japão com as forças americanas, alimentando uma nova espiral de competição militar.
A visita adquire ainda maior relevância se observada da perspectiva mais ampla do Asia-Pacífico. Durante os últimos anos, a China enfrentou um ambiente estratégico cada vez mais hostil. As alianças impulsionadas pelos Estados Unidos, a cooperação trilateral entre Coreia do Sul, Japão e Washington, o fortalecimento de mecanismos como o Quad e as tensões em torno de Taiwan aumentaram a sensação de cerco estratégico em Pequim.
Nesse contexto, a Coreia do Norte adquire um valor geopolítico extraordinário. Como apontou o pesquisador Victor Cha, para a China é preferível manter um Estado aliado, estável e fortemente armado em sua fronteira nororiental do que enfrentar a possibilidade de uma península coreana unificada sob influência americana.
A relação com a Rússia constitui outro elemento central dessa equação. Embora China e Rússia mantenham uma associação estratégica cada vez mais estreita, também existe uma competição silenciosa pela influência em determinadas áreas da Eurásia. O aproximamento de Moscou a Pyongyang proporcionou a Kim Jong-un novas alternativas diplomáticas e econômicas. No entanto, a visita de Xi pode ser interpretada como um lembrete de que a China ainda considera a Coreia do Norte parte essencial de sua esfera de influência estratégica.
A interação com a Índia e o Paquistão acrescenta uma dimensão adicional à análise. A China mantém uma estreita associação estratégica com o Paquistão, considerado há décadas um de seus principais aliados na Ásia. O corredor econômico chinês-paquistanês, a cooperação militar e a convergência diplomática tornam Islamabad uma peça fundamental da estratégia chinesa para equilibrar o poder da Índia.
Nova Délhi, por sua vez, observa com crescente inquietação a consolidação de um espaço estratégico integrado por China, Rússia, Coreia do Norte e Paquistão. Embora a Índia mantenha relações relativamente cordiais com Moscou e participe, junto com a China, em fóruns multilaterais como os BRICS, a rivalidade sino-indiana continua sendo um dos principais fatores de instabilidade geopolítica na Ásia. O fortalecimento dos vínculos entre Pequim e Pyongyang pode ser percebido em Nova Délhi como uma nova manifestação da crescente capacidade chinesa para projetar influência simultaneamente em vários frentes estratégicos.
De uma perspectiva global, a visita de Xi Jinping à Coreia do Norte reflete a emergência de um mundo cada vez mais multipolar. A reunião não representa a formação de uma aliança ideológica homogênea comparável aos blocos da Guerra Fria. Mais bem simboliza a convergência de interesses entre atores que compartilham o objetivo de limitar a influência ocidental e promover uma redistribuição do poder internacional.
O próprio Xi insistiu reiteradamente na necessidade de construir uma ordem mundial multipolar e de se opor ao que denomina hegemonismo. A visita a Pyongyang se inscreve plenamente nessa narrativa. Ao se mostrar capaz de dialogar simultaneamente com Washington, Moscou e Pyongyang, o dirigente chinês busca projetar a imagem de uma potência indispensável para a estabilidade internacional e para a resolução dos principais conflitos globais.
No entanto, a aposta coloca em risco significativos. Um apoio excessivo à Coreia do Norte poderia deteriorar ainda mais as relações da China com os Estados Unidos, Japão e Coreia do Sul. Também poderia alimentar a corrida armamentista regional e reforçar a percepção de que Pequim está liderando um bloco revisionista disposto a questionar as regras internacionais vigentes.
A visita de Xi Jinping a Pyongyang, portanto, não constitui simplesmente um episódio mais da diplomacia asiática. É um sinal de que a China está redefinindo suas prioridades estratégicas em um ambiente internacional marcado pela competição entre grandes potências. A recuperação da influência sobre a Coreia do Norte, a gestão da relação com a Rússia, o equilíbrio frente à Índia e o fortalecimento de sua posição frente aos Estados Unidos fazem parte de uma mesma equação. O que está em jogo não é unicamente o futuro da península coreana, mas também a configuração do equilíbrio de poder que definirá o século XXI.
Adalberto Agozino é Doutor em Ciência Política, Analista Internacional e Docente da Universidade de Buenos Aires, Argentina

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