A história recente e seu principal cultor
Nascido em Buenos Aires em 16 de dezembro de 1946, Yofre combina em sua pessoa uma formação singular: jornalista, ensaísta, diplomata, historiador e político, com o privilégio —raro entre os intelectuais— de ter dirigido a Secretaria de Inteligência do Estado (SIDE) durante o governo de Carlos Menem, entre 1989 e 1990. Posteriormente, exerceu como embaixador no Panamá e em Portugal, e em junho de 2024 foi designado pelo presidente Javier Milei como diretor da Escola Nacional de Inteligência. Sua vasta rede de contatos, forjada ao longo de décadas na política, diplomacia e jornalismo, lhe permitiu acessar testemunhos e documentos de primeira linha.
Seu linaje o situa no coração do patriciado argentino. Sobrinho-neto de Felipe Yofre Pizarro[i], ministro do general Julio A. Roca em sua segunda presidência; neto do prestigiado médico Dr. Carlos Bonorino Udaondo[ii]; e filho de Felipe Yofre Hueyo[iii], primeiro embaixador da Revolução Libertadora no Paraguai e depois no Peru. Sua mãe, María Cristina Bonorino, foi por décadas uma figura destacada na Direção de Cerimonial do Ministério das Relações Exteriores. A tradição familiar continuou com seus irmãos: Felipe, colaborador próximo do vice-presidente Vicente Solano Lima durante a presidência de Héctor J. Cámpora, e Ricardo, dirigente radical, genro de José Luis Cantilo[iv] e subsecretário Geral da Presidência durante o governo de Jorge Rafael Videla.
Essa imersão precoce na política se complementou com sua passagem pelo Liceu Militar General San Martín e pelo Colégio Militar da Nação —onde compartilhou promoção com figuras como Roberto Bendini—, o que lhe permitiu compreender as normas não escritas do mundo castrense e conquistar o respeito de muitos uniformizados, que o consideram “própria tropa”.
Metodologia: entre a história oral e os arquivos
Em suas obras, Yofre combina dois enfoques historiográficos contemporâneos: a história oral, que recupera anedóticas inéditas, off the record e relatos intimistas que humanizam os protagonistas, e um exaustivo trabalho documental que ele mesmo descreve coloquialmente como “fazer a história com papéis”. Ele explorou intensivamente arquivos desclassificados —entre eles, os do historiador norte-americano Robert Potash e os do tenente-general Alejandro A. Lanusse, entregues por seus filhos— e reuniu documentos privados de figuras-chave da política nacional, enriquecidos com testemunhos orais de testemunhas diretas.
Desde a publicação em 2006 de Nadie Fue —compilação de artigos de Ámbito Financiero que se tornou um best-seller imediato—, Yofre se posicionou como o historiador mais lido do país. Com quase uma dezena de livros nas últimas duas décadas, oito deles sucessos de vendas, sua produção abrange os temas mais controversos da história argentina recente: a violência política dos anos setenta, o Processo de Reorganização Nacional, a Guerra das Malvinas, o papel de Cuba e da internacional comunista, e a figura de Ernesto “Che” Guevara. Obras como Fuimos Todos, 1982, A Trama de Madrid, Foi Cuba ou A Armadilha marcaram marcos no debate público.
Os Generais: uma imersão na corporação militar
Os Generais. Da Libertadora a Cámpora. Os arquivos secretos da corporação militar é seu livro mais extenso até o presente momento: 720 páginas distribuídas em um prólogo e quinze capítulos. Abrange o período que vai da derrubada de Juan D. Perón em setembro de 1955 até o retorno do peronismo ao poder em 1973, da mão de Héctor J. Cámpora como delegado do líder exilado.
O texto reconstruí com detalhes as intervenções militares no que poderia ser denominado “a Argentina antiperonista”: uma era de instabilidade crônica na qual nenhum governo, civil ou militar, conseguiu durar mais de três anos. Foi um tempo marcado pela proscrição do peronismo, o exílio de seu condutor e a emergência de um verdadeiro “partido de generais” que atuava como poder de fato, capaz de condicionar, tutelar ou derrubar governos constitucionais. Yofre expõe as intrigas internas da corporação militar, suas tensões com a liderança peronista no exílio e os engrenagens ocultos que contribuíram para a decadência argentina da segunda metade do século XX.
A partir de documentos inéditos locais e estrangeiros, arquivos pessoais nunca antes revelados, entrevistas exclusivas e uma bibliografia profusa —soma-se a sua própria experiência como testemunha privilegiada—, o autor descreve sem eufemismos nem julgamentos prévios as tramas de poder, conspirações e decisões que definiram um dos ciclos mais turbulentos de nossa história. O livro retrata uma Argentina bipartida em seus centros reais de poder: Buenos Aires, dominada pelos generais, e o lugar do mundo onde se encontrara Perón.
Seu prosa amena e fluida, salpicada de anedóticas reveladoras e imagens impactantes, transforma as 720 páginas em uma leitura apaixonante e acessível. Para quem viveu essa época, o volume permite reviver os acontecimentos com uma profundidade e uma “trama secreta” inéditas. Para as gerações mais jovens, constitui uma oportunidade excepcional de conhecer uma história que, com frequência, não se ensina nas salas de aula secundárias ou universitárias.
Uma contribuição imprescindível
Yofre não se esquiva dos temas incômodos. Suas investigações sobre a violência revolucionária e contrarrevolucionária, o papel cubano na região e outros episódios polêmicos lhe valeram perseguições políticas e judiciais durante os governos kirchneristas. No entanto, sua obra se sustenta na documentação rigorosa e em um compromisso com a verdade histórica que transcende as consignas.
Os Generais se coloca, sem dúvida, entre o melhor de sua produção. Alguns o considerarão sua obra-prima; outros preferirão Nadie Fue, A Trama de Madrid ou Foi Cuba. Cada leitor tem o direito a suas preferências, mas ninguém que aspire a compreender o passado argentino recente pode prescindir deste livro.
Recomendação final: uma obra imperdível, rigorosa, documentada e apaixonante que enriquece o acervo historiográfico nacional e convida a uma reflexão profunda sobre as causas de nossa conturbada trajetória institucional.
[i] FELIPE YOFRE: (Córdoba, 2 de setembro de 1848 – Buenos Aires, 1939) foi um advogado e político argentino, que exerceu diversos cargos políticos e judiciais, entre eles o de Ministro do Interior e brevemente Ministro de Relações Exteriores durante a segunda presidência de Julio Argentino Roca.
[ii] O Dr. Carlos Bonorino Udaondo (1884-1951) foi um médico argentino pioneiro e referência nacional no estudo e tratamento de doenças digestivas. Impulsionou a criação da Sociedade Argentina de Gastroenterologia e fundou em 1938 o Hospital de Gastroenterologia “Dr. Carlos Bonorino Udaondo, primeiro centro monovalente da especialidade na América Latina, localizado em Barracas, Buenos
[iii] FELIPE YOFRE HUEYO(Buenos Aires 1909 – Lima 1961) foi presidente do Partido Democrata e secretário do comitê nacional. Em 1951, participou da insurreição militar do general Bejamóin Menéndez durante o primeiro governo de Juan D. Perón. Foi o fator de união de fortes personalidades, em virtude de seu impecável tato e diplomacia. Em horas de prova, Felipe Yofre conheceu a prisão, a qual foi lançado em várias oportunidades sem motivo algum, tudo o qual suportou com singular firmeza, apoiado moralmente por sua companheira, a ímpar Cristina Bonorino de Yofre. Em outra oportunidade, não teve outro remédio senão se esconder vários meses em Corrientes, sob a proteção de seu amigo Elías Abad. Após a revolução de 1955, Yofre foi embaixador no Paraguai, primeiro, e posteriormente no Peru, destinos em que colocou ao serviço do país seus conhecimentos históricos, o estilo próprio de um político de primeira linha e a simpatia que moderava sua robusta maneira de ser. Faleceu prematuramente, devido a uma operação cirúrgica, aos 50 anos. Deixou muitos amigos consternados, para os conservadores sem um líder de sua estatura e para a nação argentina sem um homem da democracia que teria sido particularmente útil para fortalecê-la. Seus sete filhos continuaram com honra uma linhagem de serviço à Pátria.
[iv] José Luis Cantilo foi um dirigente político e funcionário argentino vinculado ao universo da União Cívica Radical (UCR). Nasceu em 21 de maio de 1909 em Buenos Aires, no seio de uma família ligada à tradição radical. Era filho de José Luis Cantilo, figura destacada do yrigoyenismo, o que marcou precocemente sua inserção na vida política. Em 1962, durante a presidência provisória de José María Guido, foi designado ministro da Defesa, em plena crise entre as facções militares conhecidas como “azuis” e “colorados”. Posteriormente, durante o governo constitucional de Arturo Umberto Illia (1963–1966), Cantilo foi designado à frente do Banco Industrial da República Argentina. Mesmo após o golpe de Estado de 1966 que derrubou Illia, Cantilo continuou sendo convocado por diversos governos de fato em razão de seu perfil técnico. Em 1972, durante a presidência de Alejandro Agustín Lanusse, participou de tarefas vinculadas à renegociação da dívida externa argentina, um tema central na agenda econômica da época. Faleceu em 13 de junho de 2003, após ter atravessado quase todo o século XX e ter sido testemunha —e em parte ator— de suas principais transformações políticas na Argentina.

Adalberto Agozino é Doutor em Ciência Política, Analista Internacional e Docente da Universidade de Buenos Aires

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