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"Zelenski: o crepúsculo de uma liderança forjada na adversidade (Adalberto Agozino)"

Por Poder & Dinero

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No limiar de um conflito que já ultrapassa quatro anos, a trajetória de Volodímir Zelenski ilustra com crueza as paradoxas inerentes a toda guerra prolongada: como o símbolo unificador da resistência nacional pode ser erosionado pelo peso inexorável do desgaste, as fraturas internas e as complexidades de uma geopolítica implacável. O antigo comediante que em 2019 encarnou a esperança de renovação anticorrupção e paz no Donbás se tornou, para muitos, o emblema de uma Ucrânia sitiada; no entanto, em 2026, sua liderança enfrenta questionamentos que transcendem o campo de batalha e colocam à prova a própria resiliência do Estado ucraniano.

A unidade nacional que caracterizou os primeiros momentos da invasão russa de fevereiro de 2022 foi, sem dúvida, o principal baluarte de Zelenski. Aquela coesão inédita permitiu que um país historicamente fragmentado se apresentasse ao mundo como um bloco monolítico em defesa de sua soberania. No entanto, como alertam os analistas de conflitos prolongados, as guerras de atrição tendem a desvelar fissuras que a urgência inicial mantinha latentes. A mobilização contínua de recursos humanos, o estancamento econômico, as perdas humanas e a fadiga derivada de uma incerteza estratégica começaram a minar essa unidade primitiva.

Neste contexto, adquire particular relevância o debate em torno da legitimidade constitucional do mandato presidencial. Os críticos, entre eles vozes afins a Moscou e certos setores opositores internos, sustentam que o termo formal de Zelenski expirou em maio de 2024, configurando uma anomalia democrática. A posição oficial de Kiev, respaldada pela maioria dos governos ocidentais e por eminentes constitucionalistas, invoca a Constituição ucraniana e a legislação sobre lei marcial, que proíbem expressamente a realização de eleições nacionais em tempo de guerra. Como reiterou o próprio Zelenski, “permitam um cessar-fogo de pelo menos 60 dias e celebraremos eleições”; uma condição que sublinha a impossibilidade prática de um processo eleitoral sob bombardeios constantes e com milhões de deslocados e soldados na linha de frente.

Especialistas como Anton Hrushetskyi, diretor do Instituto Internacional de Sociologia de Kiev (KIIS), têm destacado que, embora Zelenski mantenha níveis significativos de confiança —cerca de 60% em pesquisas recentes—, esse apoio é mais funcional, ligado ao seu papel de líder bélico, do que pessoal ou incondicional. Apenas uma minoria dos que o apoiam desejaria vê-lo continuar no cargo após a guerra, o que reflete um anseio generalizado por renovação  política uma vez restabelecida a paz.

Política

A situação militar reforça essa dinâmica de desgaste. Embora a Ucrânia tenha exibido uma notável capacidade inovadora —com ataques de drones de longo alcance contra infraestruturas russas e o desenvolvimento de uma indústria de defesa própria—, a realidade estratégica está longe dos otimismo iniciais. A Rússia mantém vantagens demográficas, industriais e territoriais substanciais em uma guerra de desgaste onde a reposição de efetivos e a produção militar são decisivas. As discussões sobre a ampliação da mobilização e a redução da idade de recrutamento evidenciam as tensões estruturais que Kiev enfrenta.

A dependência da ajuda ocidental constitui outro pilar vulnerável. Se na Europa a solidariedade oficial permanece intacta —com o Conselho Europeu reafirmando seu apoio político, econômico e o compromisso com a adesão ucraniana à UE—, fissuras cada vez mais notórias emergem na prática. Nenhuma tão emblemática quanto a crise com a Polônia, aliado estratégico de primeira ordem.

As relações polaco-ucranianas têm sido historicamente marcadas por memórias opostas, particularmente os trágicos acontecimentos de Volínia e Galícia Oriental entre 1943 e 1944, onde unidades do Exército Insurgente Ucraniano (UPA) perpetraram massacres contra a população civil polaca —qualificados por Varsóvia como genocídio— enquanto que, para setores do nacionalismo ucraniano, representam uma luta pela independência frente ao jugo soviético. Durante os primeiros anos da invasão, ambas as partes optaram por relegar essas diferenças em prol da sobrevivência comum. A Polônia se ergueu como um centro logístico fundamental, acolheu milhões de refugiados e forneceu armamentos cruciais.

A ruptura ocorreu em maio de 2026, quando Zelenski concedeu um título honorífico a uma unidade militar associada simbolicamente à tradição da UPA. A reação polonesa foi fulminante: o presidente Karol Nawrocki revogou a Ordem da Águia Branca concedida a Zelenski, a mais alta distinção estatal, gerando a crise diplomática mais grave desde o início do conflito. Zelenski devolveu a condecoração, e altos funcionários ucranianos, incluindo ex-presidentes, seguiram seu exemplo. O primeiro-ministro Donald Tusk advertiu que essa disputa só beneficia a Rússia e pediu contenção, enquanto pesquisas revelam um notável deterioração da imagem da Ucrânia entre a opinião pública polaca, influenciada também pelo cansaço com os refugiados e disputas agrícolas.

Como apontou o presidente polonês, “glorificar o UPA fornece oxigênio para a propaganda russa”. Analistas concordam que, embora não implique o cessar do apoio militar, essa controvérsia expõe os limites da solidariedade quando colide com identidades históricas profundamente enraizadas.

No flanco norte, as tensões com a Bielorrússia alcançam patamares preocupantes. Zelenski acusou publicamente o regime de Aleksandr Lukashenko de facilitar operações russas por meio de estações de retransmissão e apoio logístico para drones. Kiev tem exigido a desmantelamento dessas instalações, ameaçando com ações diretas se não forem cumpridas. Minsk, principal aliado de Moscou, tem evitado até agora uma implicação massiva, mas pressões russas para uma maior integração militar aumentam o risco de escalada e de um novo front, o que representaria uma carga intolerável para as forças ucranianas.

No plano transatlântico, a relação com os Estados Unidos adquiriu um caráter mais transacional sob a administração Trump. Embora Washington mantenha certo respaldo, as negociações são constantes e condicionadas, com pausas nas entregas e um enfoque prioritário em um acordo negociado. Trump pressionou por um cessar rápido das hostilidades, às vezes questionando a legitimidade de Zelenski pela ausência de eleições, o que acrescenta incerteza ao fluxo de assistência.

Com a União Europeia, o panorama é mais construtivo, embora não isento de desafios: permanecem interrogações sobre os custos da adesão, a corrupção endêmica e a reconstrução de um país devastado. Especialistas alertam que a fadiga de guerra no Ocidente e os escândalos de corrupção no entorno de Zelenski —embora ele mesmo não esteja diretamente implicado— erodem a percepção de Kiev como parceiro confiável.

Zelenski conserva um reconhecimento internacional indiscutível como rosto da resistência. Mas governa um Estado submetido a pressões extraordinárias: deve sustentar a coesão interna frente a questionamentos sobre seu mandato, uma guerra de desgaste contra uma potência superior, a unidade de aliados cada vez mais exigentes, tensões históricas com a Polônia que ameaçam a narrativa identitária ucraniana e o risco de escalada com a Bielorrússia. Como observa o analista Mick Ryan, a Ucrânia evoluiu para um ator mais autônomo, mas a sustentabilidade de seu esforço depende de equilibrar essas frentes simultâneas.

A governabilidade ucraniana será decidida na interação desses vetores. Se o conflito se prolongar sem avanços decisivos, as tensões internas e externas se acentuarão. Se, por outro lado, se abrir um caminho negociado que estabilize a frente e ofereça horizontes de reconstrução, Zelenski poderá recuperar iniciativa. Nesta encruzilhada histórica, seu desafio não se limita a resistir à Rússia: consiste em preservar a unidade de uma nação exaurida, a confiança de parceiros fatigados e a legitimidade democrática em meio a correntes históricas, geopolíticas e constitucionais turbulentas. De sua capacidade de navegar por elas dependerá não apenas seu legado pessoal, mas o destino da Ucrânia que emergirá da guerra.

Adalberto Agozino é Doutor em Ciência Política, Analista Internacional e Docente da Universidade de Buenos Aires

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