Escreva aqui...Cada sistema carrega sua própria lógica. Uma lógica de quem ele serve, quem ele imaginou quando foi construído e quem deixou de fora sem nunca precisar dizer. A música, apesar de ser uma das experiências humanas mais universais, não é exceção. Durante séculos, seus instrumentos, interfaces e métodos de ensino foram projetados para aqueles que podem ouvir. Tudo calibrado para um tipo específico de corpo, uma maneira específica de perceber. Para todos os outros, a margem permaneceu.
Foi dessa margem que este projeto começou, e foi alguém que viveu nessa margem quem primeiro mostrou que ela não precisava existir.
Meu professor de programação é surdo. Ele também é um saxofonista profissional. Quando perguntei a ele como ele chegou lá, sua resposta foi simples: através da vibração. Anos aprendendo a sentir o que ele não podia ouvir, traduzindo frequência em toque, ritmo em pulso. Ele não esperou que o mundo da música fosse projetado para ele. Ele forjou sua própria entrada. Aquela conversa ficou comigo. Se uma pessoa pôde fazer isso sozinha, ao longo de anos, o que seria possível se construíssemos esse caminho deliberadamente? Se o design, em vez de ignorar esses corpos, partisse deles?
Essa não era uma questão filosófica. Era uma questão de engenharia.
Vivemos em um momento em que sistemas de recomendação decidem o que ouvimos, algoritmos moldam o que desejamos e produtos são construídos com base em dados de usuários. O design contemporâneo é sofisticado, mas raramente neutro. Ele imagina um usuário padrão e otimiza tudo ao redor dessa suposição. Aqueles que não se encaixam nesse modelo não recebem uma experiência pior. Na maioria das vezes, eles não recebem nenhuma experiência.
O objetivo deste projeto não era mais adaptar a música para aqueles que não podem ouvir. Tornou-se mais ambicioso: reconstruir a experiência da música a partir da perspectiva daqueles que nunca foram considerados em seu design original. Isso significava não traduzir a audição, mas criar uma nova linguagem sensorial que pudesse se sustentar por conta própria.
O resultado foi um dispositivo que traduz notas musicais em estímulos vibrotáteis e visuais, permitindo que pessoas surdas e neurodivergentes sintam a música através de suas mãos. Pequenos motores de vibração representam cada nota através de variações em intensidade e duração inspiradas por envelopes dinâmicos de som. Uma interface digital associa cores com notas, adicionando uma camada visual que apoia a aprendizagem multissensorial. O dispositivo não tenta replicar a audição. Ele constrói sua própria linguagem, baseada no que esses corpos já sabem fazer.
O processo de construí-lo, no entanto, estava longe de ser linear.
Em 2024, levamos o projeto a uma competição nacional de inovação e chegamos às finais. Não chegamos ao pódio. O fracasso foi útil da pior maneira possível: forçou uma honestidade que ninguém pede, mas todo projeto eventualmente exige. O protótipo funcionou, mas a base teórica era rasa. A lógica por trás da tradução de estímulos precisava de mais rigor. Naquele ponto, havia apenas duas opções: arquivar o projeto ou começar de novo. Nós começamos de novo.
Reestruturamos o projeto como uma iniciativa de pesquisa acadêmica. Mergulhamos na literatura sobre percepção tátil e aprendizagem sensorial. Reconstruímos a lógica do sistema embarcado e reavaliamos cada componente. O processo foi lento, deliberadamente lento. E foi precisamente essa lentidão que permitiu que o projeto ganhasse consistência. Criar deixou de ser sobre execução rápida e se tornou um exercício contínuo de tentativa, erro e reconstrução.
Foi durante esse segundo ciclo que os testes com usuários começaram a transformar hipóteses em evidências.
Conduzimos sessões com 18 participantes surdos e neurodivergentes, com idades entre 12 e 34 anos, em São Paulo. O protocolo era intencionalmente simples. Os participantes usaram o dispositivo sem qualquer explicação prévia de como as notas musicais correspondiam a padrões de vibração. Após aproximadamente 15 minutos, 14 dos 18 participantes conseguiram distinguir padrões rítmicos apenas através da vibração, sem instrução verbal ou referência visual.
Mais do que interpretar padrões, esses participantes ganharam acesso a uma experiência que anteriormente não estava disponível para eles. Um participante descreveu como a primeira vez que conseguiu seguir algo que normalmente lhe escaparia. Isso não é apenas dado experimental. É uma mudança concreta no que o acesso pode significar.
Os testes também revelaram algo que não havia sido antecipado. O dispositivo criou um tipo diferente de espaço atencional. Participantes que relataram dificuldade em se concentrar em ambientes de aprendizagem tradicionais descreveram as sessões como mais acessíveis e mais fáceis de seguir. Isso não era porque o estímulo era mais simples, mas porque combinava múltiplas formas de percepção de uma maneira que se alinhava com como eles já processavam o mundo.
Isso é o que significa projetar com intenção.
O tema Projetado para Desejar parte da ideia de que o que desejamos é moldado pelos sistemas ao nosso redor. Interfaces, algoritmos e produtos carregam pressupostos sobre quem é o usuário e como ele deve interagir com o mundo. O que este projeto revelou é que esses pressupostos podem ser questionados. Quando a inclusão é tratada como um ponto de partida em vez de uma reflexão posterior, todo o processo de criação muda.
Em 2025, voltamos à mesma competição com uma versão mais madura do projeto. Conquistamos o primeiro lugar nacional. Esse resultado não é simplesmente um marco. É a validação de todo um processo: a decisão de persistir quando seria mais fácil parar, de aprofundar quando seria mais conveniente entregar algo suficiente e de levar a sério questões que o mercado ainda não aprendeu a responder.
Forjando a Chave questiona o que acontece quando paramos de tentar nos encaixar em estruturas existentes e começamos a construir nossos próprios caminhos. A resposta que encontramos foi concreta. Muda quem é considerado no ato de criação. Muda quem ganha acesso. Muda o que se torna possível para alguém que havia sido ignorado pelo design convencional.
A chave que forjamos não abre uma única porta.
Ela reformula a fechadura e redefine quem pode passar por ela.
Nota editorial: Este artigo contém exclusivamente o ensaio original de Cecília Galvão (Instituto de Tecnologia e Liderança (Inteli), Brasil), cujo trabalho foi selecionado pela qualidade e relevância de sua proposta para ser compartilhado com os participantes do SABF. O conteúdo não foi editado, modificado nem intervenido pelo SABF. O participante conserva todos os direitos autorais sobre sua obra.

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