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"SABF 2026: O sobreconsumo como um problema de mercado associado à solidão - Javiera Sotolincoñir González"

Por South American Business Forum

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Na nossa sociedade moderna e digitalizada, diversos indicadores revelam que existe um sobreconsumo de redes sociais, de nossos recursos naturais e também do material. A partir disso, o South American Business Forum (SABF) nos convida a refletir: “Devemos mudar? E se a resposta for sim, então: O que devemos mudar?” (SABF, 2026). Para encontrar soluções, há uma série de perguntas anteriores a resolver, como por exemplo, qual é a causa desse consumo estar em constante ascensão? Nesse contexto, propõe-se a seguinte resposta: a solidão. Em seguida, nos perguntamos: quem assume a responsabilidade pelo sobreconsumo? Embora esse fenômeno seja complexo de abordar, a análise se concentrará no papel das empresas.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) indica que: “Atualmente, quase uma em cada seis pessoas em escala global afirma sentir-se sozinha” (OMS, 2025). Por essa razão, a OMS declarou a solidão como um “problema de saúde pública mundial”. A magnitude do problema é tal que garantem que seus efeitos em mortalidades seriam equivalentes a fumar 15 cigarros por dia (OMS, 2025). Em nível social, é fundamental compreender com maior profundidade esse conceito, e entender que estar sozinho não é o mesmo que sentir-se sozinho; a percepção que se tem sobre a solidão varia de pessoa para pessoa. No entanto, a solidão também é uma variável mensurável, e podemos explicá-la através de outras variáveis. Em um estudo, procuraram-se variáveis estatisticamente significativas no desenvolvimento do sentimento de solidão em uma pessoa, sendo as escolhidas: afeto negativo, baixa disposição para riscos sociais e falta de motivação afiliativa, todas elas preditores da solidão (Pourriyahi et al., 2021).

Enquanto existir a solidão, existe o sobreconsumo como resposta, uma vez que esse tenta preencher um vazio social. Todos nós já fomos vítimas disso, ao comprar comida lixo quando estamos tristes, ao comprar roupas após uma conquista, ou fazer gastos em luxos como compensação. Ao mesmo tempo, não devemos esquecer também do sobreconsumo digital. As redes sociais funcionam como um refúgio. Seu uso excessivo aprofundaria a sensação de isolamento entre estudantes universitários. Está estatisticamente comprovado que aqueles que usam redes sociais pelo menos 30 horas por semana apresentam 38% mais risco de se sentirem sozinhos em comparação àqueles que não superam as 16 horas (Olivares, 2026). A solidão gera a necessidade de um consumo como compensação emocional. O consumismo funciona como uma via rápida para modular estados internos desagradáveis; no entanto, essa sensação de melhora é efêmera (Psicologia e Mente, 2025).

O problema do sobreconsumo como resposta ao sentimento de solidão é justamente que seu efeito é temporal, como já foi mencionado. Inicialmente, a solidão se expressa em uma falta de conexão e isolamento social (OMS, 2025). Assim, gera-se essas compras compulsivas, consumo digital e chega a resposta emocional. Sabe-se que a dopamina pode aumentar entre 50% e 100% durante esse tipo de experiências gratificantes (Fundação Diário de Navarra, s.f.), e por isso funciona como um vício. No entanto, essa sensação de bem-estar carece de um vínculo real, e acaba gerando efeitos colaterais como: menor desenvolvimento de relações interpessoais profundas, substituição de interação social presencial e mais tempo em atividades individuais. Então, um círculo vicioso se gera entre esses dois conceitos: solidão e sobreconsumo.

Como futura estatística, planteio a solidão como uma necessidade de mercado. O desafio da nossa área não é entender quanto a população consome, mas por que o consome. O problema de pesquisa é que o mercado atual satisfaz de maneira inadequada a necessidade de uma conexão social significativa. Interpretamos a solidão como uma lacuna quantificável entre a interação social real e a desejada. Para esta pesquisa, é necessária uma segmentação de mercado, ou seja, selecionar grupos populacionais de interesse, por exemplo: jovens universitários, adultos profissionais, pessoas que vivem sozinhas. Cada agrupamento tem razões distintas para consumir, e sente solidão por diferentes motivos. A solidão não é a mesma para todos; é subjetiva. Assim, através do desenvolvimento de  focus group, estudos de correlação e regressão, poderíamos entender que tipo de conexão se busca no mercado.

No curso Introdução à Pesquisa de Mercado, ministrado na Universidade Católica do Chile, o professor José Miguel Ventura nos relatou sobre empresas com as quais trabalhou através de sua pesquisa de mercado, e os achados que guardam relação com o consumo e a solidão são inesperados. Em primeiro lugar, sua empresa trabalhou com uma famosa companhia de cinema no Chile, e tinham a missão de fazer com que aumentasse a quantidade de pessoas que iam ao cinema, algo muito simples. A pesquisadora começou perfilando quem assistia às sessões, e foi perguntado aos participantes por que iam ao cinema; a maior razão foi: porque no cinema não se sentiam sozinhos. Algo semelhante ocorreu com a empresa Sodimac, dedicada à venda de artigos de construção. Foi perfilado quem assistia à loja e notaram que a maioria das pessoas não ia comprar artigos, mas sim conversar com os seguranças e vendedores do lugar.

Os casos são muitos, como os relatados pelo professor Ventura. A partir disso, gostaria de enfatizar que para as empresas não basta vender; também é necessário responsabilidade social. As empresas ganham na medida em que promovem o sentido de pertencimento, as interações sociais e o desenvolvimento em comunidade. O que foi dito se realiza através do design de experiências sociais e sua implementação. O desafio não é gerar um consumo desproporcional, mas contribuir para conexões mais profundas e significativas em nossa sociedade.


Nota editorial: Este artigo contém exclusivamente o ensaio original de Javiera Sotolincoñir González (Universidade Católica do Chile (UC), Chile), cujo trabalho foi selecionado pela qualidade e relevância de sua proposta para ser compartilhado com os participantes do SABF. O conteúdo não foi editado, modificado ou interferido pelo SABF. O participante conserva todos os direitos autorais sobre sua obra.

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