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"SABF 2026: A última nunca é a última - Rocio Britos Montaña"

Por South American Business Forum

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Não preciso de outro caderno.

Isso é o que eu me repito toda vez que entro em uma livraria, toda vez que vejo uma na internet, toda vez que minhas mãos já estão segurando um novo, diferente de todos os anteriores e, ao mesmo tempo, exatamente igual.

Poderia me justificar dizendo que os coleciono, mas isso não é verdade. As coisas que se colecionam são valorizadas pelo que são, pelo que nos lembram. Para mim, são interessantes pelo que prometem. 

Cada caderno é uma possibilidade: uma vida organizada, ideias claras, projetos finalizados, uma versão de mim mesma que ainda não existe. Eu os compro porque, por um instante, me permitem acreditar que posso me tornar essa pessoa sem ter feito o trabalho de ser.

Mas nunca os uso.

Eu os guardo intactos, como se escrever neles significasse arruiná-los. Embora não seja a tinta que temo. É a evidência. Usá-los significaria enfrentar a distância entre o que imagino e o que realmente sou.

Durante muito tempo pensei que o problema era a falta de disciplina, que se conseguisse parar de comprar, eventualmente começaria a usar. Até fiz um calendário: marcava os dias em que resistia. (Durei menos de uma semana).

Depois entendi que não se trata de força de vontade. Vivemos em um sistema onde desejar é fácil e constante. Tudo é projetado para nos lembrar do que nos falta, para nos oferecer versões melhoradas de nós mesmos na forma de objetos. Não compramos apenas por necessidade, compramos porque algo (ou alguém), em algum lugar, nos fez sentir incompletos; e no entanto essa carência nunca se resolve.

Às vezes vejo outras pessoas fazendo o mesmo: garotas que têm uma garrafa de cada cor, ou colecionam bolsas que quase não usam. Sempre há uma nova versão, uma edição diferente, uma nova desculpa. Quando as vejo nas mídias sociais, a primeira coisa que penso é que elas não precisam disso. É uma perda de grana e um mal para o meio ambiente! É uma completa irresponsabilidade.

Mas esse pensamento dura pouco; porque depois volto para casa, abro uma caixa, e encontro algo que não posso ignorar: dezenas de cadernos intactos. Então entendo que não sou diferente. Sou pior. Porque elas não sabem que eu existo, não me julgam, não me avaliam; apesar de que eu sim as julgo enquanto faço exatamente a mesma coisa.

Talvez o consumo não se trate apenas do que compramos, mas da facilidade com que o reconhecemos nos outros e da dificuldade que temos para vê-lo em nós mesmos.

O consumo deixa de ser uma resposta a uma necessidade e se torna uma forma de adiá. Em vez de escrever, compro a possibilidade de escrever. Em vez de mudar, acumulo ferramentas para uma mudança que não chega.

Às vezes abro a caixa onde guardo todos os cadernos. Olho para eles como se fossem versões de uma vida que não vivi. Não estão vazios: estão cheios de intenção. Mas a intenção, acumulada, também pesa.

Nos últimos anos, comecei a ouvir outras formas de enfrentar esse problema. Pessoas que tentam não gerar resíduos, empresas que redesenham seus processos para que nada seja desperdiçado, tecnologias que prometem otimizar o que descartamos, governos que falam de consumo responsável como um objetivo global. Tudo isso parece estar indo na direção certa. No entanto, algo não termina de se ajustar.

Muitas dessas soluções partem de uma mesma lógica: consumir melhor. Escolher produtos mais sustentáveis, reciclar, reutilizar, otimizar. Entretanto, poucas questionam o impulso anterior a tudo isso: o desejo de consumir.

Eu poderia comprar cadernos feitos com papel reciclado, produzidos de maneira ética, projetados para durar toda a vida. E mesmo assim continuaria sem usá-los.

O problema não está apenas no que consumo, mas no porquê consumo.

Talvez por isso muitas iniciativas falham ou ficam pela metade, porque tentam corrigir o impacto sem transformar a motivação, porque operam sobre o comportamento visível, mas não sobre a lógica interna que o sustenta.

Redefinir o consumo, então, não pode se limitar a torná-lo mais eficiente ou menos prejudicial. Tem que implicar uma desconforto maior: perguntar-se o que estamos evitando cada vez que consumimos.

No meu caso, consumir me permitiu evitar escolher. Enquanto os cadernos permanecessem vazios, todas as versões de mim mesma continuavam sendo possíveis. Escrever implicava fechar caminhos, assumir limites, aceitar erros. Consumir era, no fundo, uma forma de sustentar a ilusão. Talvez aí esteja uma dica.

Se o consumo muitas vezes funciona como um substituto (de ação, de decisão, de mudança), então qualquer tentativa de transformá-lo deve oferecer algo mais do que restrições, deve oferecer alternativas reais para habitar esse vazio que o consumo vem preencher. Não se trata apenas de reduzir ou reutilizar, mas de redirecionar. Criar em vez de acumular, usar em vez de projetar, terminar em vez de começar constantemente.

Recentemente comprei outro caderno. Menor, mais simples, não tinha nada de especial. Talvez por isso eu o abri naquela mesma noite. Escrevi uma única frase, sem pensar muito: “O último nunca é o último.”

Li várias vezes e pela primeira vez entendi que redefinir o consumo não era apenas uma questão de sistemas, indústrias ou políticas (embora todas sejam necessárias), mas também uma prática pessoal. Uma decisão desconfortável e constante: parar de substituir com objetos aquilo que só pode ser construído com ação.

Talvez a mudança não comece quando paramos de comprar. Talvez comece quando finalmente nos animamos a usar.



Nota editorial: Este artigo contém exclusivamente o ensaio original de Rocio Britos Montaña (Universidad Nacional de San Juan, Argentina), cujo trabalho foi selecionado pela qualidade e relevância de sua proposta para ser compartilhado com os participantes do SABF. O conteúdo não foi editado, modificado ou intervenido pelo SABF. O participante conserva todos os direitos autorais sobre sua obra.

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