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"SABF 2026: O que vale quando falta - Valeria Alison Rivero Baldiviezo"

Por South American Business Forum

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Na madrugada do dia 22 de janeiro de 2008, minha mãe me acordou de repente para que a ajudasse a guardar o mais importante da casa. Eu ainda estava meio dormindo, sem entender por que sua voz soava tão diferente. Mas quando desci da cama, senti as chinelas —aquelas sandálias de borracha que usamos em casa— encharcadas. A água chegava até os meus tornozelos. A inundação nos havia alcançado e nosso rio Mamoré tinha transbordado.

Lembro daquela manhã com uma clareza estranha. A pressa da minha mãe. As coisas empilhadas sem ordem. Os adultos falando baixo, embora com aquela tensão que se sente de qualquer maneira. Do lado de fora, o pátio já parecia um curichi, como chamamos no oriente aqueles lugares onde a água fica e manda. Eu ainda era criança e não entendia completamente o que estava acontecendo, mas senti algo que ficou dentro de mim: o essencial só parece invisível até que falta.

Com os anos, entendi que essa lembrança me deixou uma pergunta. Por que coisas tão básicas para viver bem continuam sendo tão frágeis? A luz, a água, uma casa seca, a tranquilidade. Tudo isso, que deveria sustentar a vida sem se fazer notar, pode desaparecer de uma hora para outra. E mais adiante essa pergunta mudou de forma: já não se tratava apenas da vulnerabilidade, mas também do valor. Como decidimos o que vale e o que não vale? Por que algumas coisas se tornam imprescindíveis apenas quando as perdemos, enquanto outras são desprezadas mesmo quando poderiam nos sustentar?

Por isso, quando penso em “Redefinindo o consumo”, não penso primeiro em compras. Penso na forma como aprendemos a olhar o mundo. Nos ensinaram uma lógica simples demais: usar e jogar fora, substituir e seguir em frente. Como se consumir fosse apenas incorporar algo novo e deixar para trás o que já serviu. Como se o progresso consistisse em avançar descartando.

Mas a vida real não funciona assim. E o campo, acima de tudo, desmonta rapidamente as ideias confortáveis. Ali vi uma contradição que me move até hoje: muitas famílias e produtores vivem com custos altos e com pouco changüí —essa margem pequena para respirar economicamente—, enquanto ao seu redor se acumulam materiais que o sistema aprendeu a chamar de resíduos. Restos orgânicos, desperdícios da produção, tudo aquilo que cheira mal, suja, incomoda ou gera trabalho extra. Coisas que queremos tirar da vista o quanto antes. E, no entanto, precisamente ali pode haver alívio para a despesa diária, fertilidade para a terra e até energia.

O mais difícil de entender isso não foi o técnico. Foi o cultural. Porque o problema não era apenas que houvesse um resíduo, mas que já havíamos decidido que não valia nada. E quando uma sociedade dá a algo o nome de , para de fazer perguntas. Afasta. Esconde. Torna-o o final de uma história. No fundo, acho que aí começa uma parte importante do sobreconsumo: não apenas em comprar demais, mas em ter perdido a capacidade de reconhecer valor fora do que é novo.

Por isso, não me convence totalmente a ideia de que a solução seja simplesmente consumir menos. Claro que precisamos revisar nossos hábitos. Mas se a resposta ficar apenas na culpa individual, torna-se pobre. Nem todas as pessoas consomem a partir do exagero; muitas consomem a partir da necessidade. E nem todas as soluções sustentáveis são valiosas apenas pelo simples fato de parecerem verdes. Algumas falham porque foram pensadas à distância, porque parecem boas em uma apresentação, mas não dialogam com a realidade de quem deveria se beneficiar.

Aí é onde, eu acho, o debate se torna mais honesto. Redefinir o consumo não é romantizar a escassez nem pedir que as pessoas vivam com menos por princípio. É revisar com que critério atribuímos valor. É nos perguntarmos se uma iniciativa realmente melhora a vida das pessoas ou apenas tranquiliza a consciência de quem a projetou. É analisar sua ética, sua viabilidade e sua relação com o território.

Por outro lado, quando uma solução nasce de uma necessidade real e conversa com o lugar onde vai existir, acontece algo diferente. Eu vi como materiais que antes eram evitados por desconforto podiam se tornar algo útil. E, embora isso pareça uma mudança técnica, na verdade é uma mudança de olhar. É uma forma diferente de entender o consumo: não como um caminho linear em direção ao descarte, mas como uma relação que ainda pode ser reparada.

Talvez por isso, para mim, redefinir o consumo também seja redefinir a dignidade. Porque uma comunidade não melhora apenas quando tem acesso a mais bens, mas quando ganha mais capacidade para decidir sobre seus recursos, seus custos e seu futuro. A sustentabilidade se torna concreta em menos dependência, menos desperdício e mais autonomia.

Vivemos em uma época que confunde facilmente crescimento com acumulação, novidade com progresso e descarte com eficiência. Mas talvez a verdadeira mudança não comece quando aprendemos a desejar menos, mas quando aprendemos a olhar melhor. Quando deixamos de admirar apenas o novo e começamos a nos perguntar que valor estamos ignorando por hábito.

Se hoje eu volto mentalmente àquela madrugada de inundação, entendo que não me marcou apenas pelo medo. Me marcou porque me ensinou, sem querer, que o essencial nunca deve ser dado como certo. E anos depois, ao ver como aquilo que parecia puro descarte podia recuperar sentido, entendi outra coisa: que muitas vezes uma sociedade não se empobrece apenas pelo que lhe falta, mas por tudo que deixou de saber olhar.

Talvez aí comece a mudança que este tempo precisa. Não só em consumir menos, mas em reconhecer melhor. Em voltar a olhar o que afastamos rápido demais. Em admitir que às vezes chamamos de desperdício aquilo que ainda poderia sustentar a vida. E em entender que o verdadeiro progresso nem sempre consiste em ter mais coisas, mas em nos relacionar melhor com o que já temos.



Nota editorial: Este artigo contém exclusivamente o ensaio original de Valeria Alison Rivero Baldiviezo (Universidade Autônoma Gabriel René Moreno, Bolívia), cujo trabalho foi selecionado pela qualidade e relevância de sua proposta para ser compartilhado com os participantes do SABF. O conteúdo não foi editado, modificado ou intervencionado pelo SABF. O participante conserva todos os direitos autorais sobre sua obra.

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