Há 26 dias - tecnologia-e-inovacao

O fim da curiosidade exótica: Davos solta a mão do dogma de Milei

Por Mila Zurbriggen Schaller

Portada

O Presidente voltou ao púlpito para recitar seu evangelho anti-estado e anti-Agenda 2030, mas desta vez, o auditório não ouvia promessas de campanha, mas avaliava dois anos de gestão. E a devolutiva de Davos foi um balde de água fria para o relato libertário: o mundo financeiro não quer anarquia, quer previsibilidade.

A crítica: "Ajuste sem gasolina"

O que se ouviu nos corredores do Fórum —e o que refletem meios como o Financial Times ou Bloomberg— já não é o medo do populismo de esquerda, mas o medo da insustentabilidade social do ajuste.

A crítica dos investidores em Davos ao programa econômico de Milei pode ser resumida em uma frase brutal que circulou nas mesas de negócios: "Os números do Excel fecham, mas as pessoas não vivem em um Excel". O mundo capitalista, pragmático por excelência, está dizendo ao Presidente argentino que a recessão prolongada e a destruição do tecido industrial não são danos colaterais aceitáveis eternamente. Para o investidor estrangeiro, um país com paz social amarrada com arame não é um destino de investimento, é uma aposta de cassino.

O dilema institucional: Segurança Jurídica vs. Decreto

Outra crítica aguda que ressoou na Suíça aponta para a qualidade institucional. Milei vende "respeito irrestrito ao projeto de vida do próximo", mas a elite de Davos —que ama as regras claras— vê com desconfiança um governo que gerencia à beira do regulamento, dependendo de vetos e decretos, em constante guerra com o Congresso.

O capital internacional fez uma careta de desgosto: "Gostamos da desregulamentação, mas temos medo da insegurança jurídica". Se as leis dependem do humor de um único homem e não de um consenso parlamentar sólido, o investimento a longo prazo (aquele que aplica capital em fábricas ou infraestrutura) não chega. Só chega o capital "andorinha", o financeiro, aquele que entra para fazer a diferença com a taxa e sai ao primeiro espirro.

O bufão e os reis

Finalmente, há uma leitura política que Milei parece ignorar. Ao ir a Davos para insultar a "Agenda 2030" e tratar os empresários como "heróis" enquanto acusa os líderes ocidentais de socialistas, Milei acredita estar travando uma batalha cultural. Mas para os donos do mundo, ele se tornou um número repetido.

A paradoxa é cruel: Milei viaja milhares de quilômetros para buscar a validação do capitalismo global, mas esse mesmo capitalismo lhe está dizendo que sua versão do livre mercado é anacrônica, carente de empatia e, a longo prazo, perigosa para a própria estabilidade do sistema.

Davos 2026 marcou o fim da lua de mel internacional. O mundo já não ri das ocorrências do libertário; agora exige resultados reais que vão além de baixar a inflação à custa de matar a atividade.

A lição que Milei traz da Suíça, embora talvez decida não ouvi-la, é que para o "círculo vermelho" mundial, o dogmatismo extremo é tão nocivo quanto o populismo. A Argentina continua sendo um laboratório, mas os cientistas que observam de fora começam a temer que o experimento termine explodindo o laboratório.

Deseja validar este artigo?

Ao validar, você está certificando que a informação publicada está correta, nos ajudando a combater a desinformação.

Validado por 0 usuários
Mila Zurbriggen Schaller

Mila Zurbriggen Schaller

Visualizações: 6

Comentários

Podemos te ajudar?