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"A microbiologia por trás do projeto Hail Mary"

Por BIOclubs

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Há alguns anos, li o livro "Projeto Hail Mary" de Andy Weir, a partir do qual foi feito um filme que estreou há poucos dias. 

Na história, a sobrevivência da humanidade é colocada em risco por astrófagos (de "astro"- estrela e "fago"- comer), uns micróbios unicelulares capazes de se alimentar da energia estelar, viajando entre estrelas e ameaçando a vida nos planetas ao atenuar seus sóis. 

Sempre me pareceu que as histórias de ficção científica fazem com que os elementos que as compõem (tecnologias, seres vivos) pareçam muito distantes do que nós conhecemos, muitas vezes porque ignoramos que estes estão, geralmente, inspirados no que encontramos em nosso próprio planeta hoje, ou que viveu aqui há muito tempo. 

Por esta razão, neste artigo falaremos sobre organismos reais que se assemelham ao que é visto em "Projeto Hail Mary", para nos surpreender acerca do que a natureza pode conseguir e da verossimilhança científica da história. 

Os astrófagos (que não existem na realidade) "comem" fótons. Embora o mecanismo de neutrinos do livro seja teórico, o conceito básico é a fototrofia. Aqui na Terra, há cerca de 3 bilhões de anos, um grupo de bactérias chamadas cianobactérias conseguiu combinar dois sistemas de coleta de energia (chamados fotossistemas). Isso lhes permitiu usar algo que sobrava no planeta, a água, convertendo a luz solar em energia química. A ideia em si é semelhante, no sentido em que a vida busca utilizar a fonte de energia mais abundante, como a luz do sol. 

Alguém poderia pensar que nenhum organismo vivo poderia sobreviver nas altíssimas temperaturas do sol, mas na verdade existem os "extremófilos", organismos que podem tolerar salinidade, pH e temperaturas extremas nas quais os humanos não teriam chance de sobreviver. Por exemplo, a Strain 121 é uma arqueia que sobrevive e se reproduz a 121°C em fontes hidrotermais. Como conseguem? Possuem histonas pequenas, semelhantes às eucariotas, que se ligam ao DNA para compactá-lo e aumentar sua temperatura de fusão, evitando sua desnaturação. Também têm uma monocamada lipídica que forma a membrana celular; essa estrutura é mais rígida, menos permeável e mais resistente ao calor extremo e à acidez. 

Por outro lado, está o Deinococcus radiodurans, um microbio que pode suportar doses de radiação que matariam um humano centenas de vezes. Se a vida pode sobreviver à radiação ionizante na Terra, a ideia de um microbio viajando pelo vácuo do espaço não é tão louca. 

Sem dar spoilers, na novela de Andy Weir os astrófagos consomem a energia do Sol, reduzindo seu brilho. Inicialmente, poderíamos pensar que isso é um pouco exagerado- como algo tão pequeno poderia "comer" o Sol? No entanto, nos nossos oceanos, o fitoplâncton pode se multiplicar tão rapidamente que altera ecossistemas inteiros, consome oxigênio e muda a cor da água. Isso acontece porque um excesso de nutrientes (como fertilizantes que chegam ao mar) faz com que o fitoplâncton se multiplique descontroladamente. Ao se esgotarem os nutrientes ou terminar seu ciclo de vida, bilhões desses microrganismos morrem ao mesmo tempo e caem ao fundo. As bactérias começam a comer esse fitoplâncton morto. Para fazer esse trabalho de decomposição, as bactérias consomem enormes quantidades de oxigênio da água. O oxigênio cai a níveis tão críticos que os peixes e crustáceos não conseguem respirar, portanto, geram zonas mortas.  

Portanto, embora a ficção nos atraia porque nos parece fantástica ou “de outro mundo”, não devemos esquecer que em nosso próprio mundo existem organismos que, após milhões de anos de evolução, conseguiram ser igualmente fascinantes. 

Por Constanza Dacoba, estudante de Biotecnologia da UADE


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