07/06/2022 - Tecnologia e Inovação

Usos e desusos das criptomoedas na América Latina

Por Horacio Gustavo Ammaturo

Usos e desusos das criptomoedas na América Latina

Jean-Baptiste Lamarck foi um naturalista francês do final do século XVIII e princípios do XIX, que entre outros aportes fundamentais para a biologia moderna levantou o conceito de “a função faz o órgão”, em relação ao desenvolvimento nos órgãos dos seres vivos está em relação à sua necessidade de uso.

Da mesma forma que acontece com os órgãos físicos ocorre com os instrumentos financeiros.

Dias atrás se deu a conhecer um relatório sobre o aumento do uso de criptomoedas em países como a Argentina e a Venezuela, lugares onde a legislação e enquadramentos regulatórios estão muito longe de incentivar o emprego de ativos digitais, enquanto em El Salvador, país que adotou o Bitcoin como moeda de curso legal, o esforço governamental não deu os resultados esperados em relação ao uso massivo e generalizado que se esperava.

A simples vista parece ser que as pessoas vão em sentido contrário ao que os governos propõem, mas se analisarmos cada caso veremos como se confirma em ambos os casos a teoria de Lamarck.

A Argentina e a Venezuela são países cujas economias coincidem entre outras, com estas desafortunadas características:

  • Altas taxas de inflação durante longos períodos de tempo, que destruíram a confiança dos seus cidadãos nas moedas soberanas (pesos e bolívares).
  • Diferentes taxas de câmbio contra outras moedas, em geral contra o dólar americano que distorcem os preços relativos das coisas dentro de um mesmo mercado.
  • Restrições às transferências e giros cambiais, justamente porque o acesso à moeda estrangeira dentro do sistema formal é dificultado pela pouca oferta de “dólares baratos”.
  • Enorme pressão fiscal que utiliza os sistemas bancários e financeiros formais como nodos de cobrança.
Esta combinação de políticas insustentáveis no tempo obrigou as pessoas que percebem pesos ou bolívares a que rapidamente façam circular o seu dinheiro, pois se o guardarem perdem poder de compra.

De acordo com o nível de renda de cada um, argentinos e venezuelanos, desfazem-se de suas moedas soberanas, os de menores rendimentos adquirindo bens de consumo em massa e não perecíveis, os de maiores possibilidades “comendo sua moeda mole em moeda dura”.

O que é moeda dura?

Qualquer coisa cujo valor possa ser representado em dólares americanos de forma estável e sustentada, ou que, pelo menos, sirva de rampa para sair de uma economia cuja base monetária desmorona diariamente.

É aqui que as criptomoedas entram em cena.

Atualmente existem dois perfis de adquirentes de ativos digitais, por um lado os especuladores, que, tal como um jogador de cassino ou um investidor em derivados financeiros, busca obter lucros por realizar determinadas colocações; por outro, pessoas ou empresas que utilizam os ativos digitais como um meio de processamento e atesoramento de poder de compras, ou seja, como reserva de valor e sistema de pagamento.

Os primeiros investem em função de sua propensão ao risco em qualquer um dos milhares de projetos de ativos digitais que existem, desde o tradicional bitcoin até a vapuleada Luna, os outros só procuram se proteger contra a provável perda de valor de moedas tradicionais ou de outras cripto.

As moedas cripto estáveis, que têm ativos de apoio em dólares, são as que este segmento de mercado escolhe. Em primeiro lugar, dependendo da sua utilização e emissão, encontra-se o Tether ou USD T, seguido muito de perto pelo USD C.

As moedas estáveis prometem satisfazer algumas das principais necessidades dos cidadãos argentinos e venezuelanos:

  • Eles podem ser comprados em quantidade e com moeda local e vendidos contra dólares.
  • As plataformas de processamento de transferências cripto permitem transferir saldos para as principais praças do mundo.
  • Ainda não existe um formato normativo e regulatório desenvolvido para que o sistema de processamento cripto sirva para arrecadar impostos, como o faz com o sistema bancário.
Claramente, estas possibilidades são muito sedutoras para que ahorristas e investidores contemplem a alternativa critpo.

O caso de El Salvador.

O presidente da República de El Salvador, Nayib Bukele, tem sido um fiel expoente da utilização das novas tecnologias ao serviço da política e da gestão pública.

Desde o início da sua campanha pela corrida presidencial tem usado redes sociais e mídias digitais como plataformas fundamentais para conhecer e divulgar suas propostas. É por isso que, para aqueles que o seguimos desde os seus inícios, foi previsível que avancem no sentido dos ativos digitais durante o seu governo.

Esta experiência é extremamente interessante para a análise, pois embora, do ponto de vista da usabilidade, os resultados tenham sido regulares, existem aspectos de difusão e implementação que foram realizados em tempos recordes, inimagináveis para qualquer implementação de um novo sistema de processamento de pagamentos como alternativa à moeda de curso legal.

No entanto, apesar do esforço que o governo de El Salvador realiza em difundir o uso do bitcoin, que incluiu entre outras ações a abertura simultânea de milhões de carteiras com saldo de 30 USD grátis para gastar em qualquer coisa, sua utilização está muito longe de ser considerada massiva ou bem-sucedida.

O que aconteceu?

É provável que, num futuro muito próximo, a maioria dos países tenha propostas digitais como alternativas de moedas de curso legal. Ou seja, o Estado é o soberano de uma rede de processamento de saldos e transferências digitais.

No entanto, é muito improvável que essa alternativa seja o bitcoin ou qualquer outra criptomoeda, fundamentalmente por uma questão fundamental, a governança.

Depender de uma rede descentralizada, com geolocalização global, administrada por terceiros, propõe vulnerabilidades estratégicas que as tornam não aptas para registros de governo.

Agora, se analisarmos o Bitcoin, outros fatores são adicionados para entender sua pouca usabilidade como moeda de curso legal:

O bitcoin não é estável, apenas com observar as enormes variações que registra homólogamente fica evidência que um comerciante ou industrial carece das possibilidades de absorver as variações que vivenciam as criptos não estáveis em suas atividades.

O custo de processamento é caro, pois quanto mais aumenta o valor do Bitcoin, os custos por gerenciar transferências dentro de sua rede nativa são cada vez mais altos.

É uma rede ineficiente do ponto de vista energético e as equipes (mineros) são caros.

Outros aspectos próprios da sociedade salvadorenha foram combinados com as razões técnicas expressas anteriormente.

No entanto, nenhuma das razões anteriores seria suficiente para desencorajar o uso das moedas cripto.

A principal razão para o seu uso eace nas circunstâncias que a levam a ser utilizadas pela Argentina e pela Venezuela, inflação, controle de mudanças, restrições nas mudanças e impostos abusivos baseados no sistema bancário. Em El Salvador a moeda de curso legal é o dólar americano, todos os salvadorenhos confiam nele e asseguram seu poder aquisitivo economizando nessa moeda, algo que lhes serviu durante os últimos 21 anos e meio, é por isso que mudar ou agregar outra moeda de curso legal carece de sentido e necessidade.

Isso explica os usos e desusos das criptomoedas na América Latina. Como disse Lamarck, a função faz o órgão.

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horacio gustavo ammaturo

Horacio Gustavo Ammaturo

Chamo-me Gustavo Ammaturo. Sou licenciado em Economia. CEO e Diretor de empresas de infraestrutura, energia e telecomunicações. Fundador e mentor de empresas de Fintech, DeFi e desenvolvimento de software. Designer de produtos Blockchain.

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